«Os investimentos que queremos fazer para o futuro passarão todos pela otimização de processos»

A Jomafil encontrou na reciclagem para a produção de não-tecidos o seu mercado. Investimentos e inovação fazem parte do ADN da empresa, que, como destaca o CEO Nuno Madeira, vai continuar a melhorar a eficiência dos seus equipamentos.

Nascida no final dos anos 60, a Jomafil encontrou na reciclagem para a produção de não-tecidos, aplicáveis em produtos para isolamentos, colchões, automóveis, calçado e agricultura, o seu foco. A empresa – que já em 1999 montou uma linha de não-tecidos com carda airlay para usar fibras curtas –, prevê, para os próximos anos, continuar a melhorar a eficiência dos seus equipamentos. Convicto de que, para já, a reciclagem mecânica é a única forma economicamente viável de dar uma nova vida aos resíduos têxteis, o CEO Nuno Madeira realça ainda o conhecimento acumulado e a liderança das empresas portuguesas neste domínio.

A Jomafil já nasceu vocacionada para a reciclagem?

Esta empresa nasceu, como tantas outras que existiram aqui na zona, de uma necessidade que havia na altura. Nos finais da década de 60, havia muita falta de matérias-primas e a Covilhã era um centro têxtil importante, onde se fazia o aproveitamento de desperdícios têxteis que eram transformados em matéria-prima. Aquilo que, inicialmente, se começou a fazer foi pegar nesses desperdícios, dar-lhes uma pré-seleção, por cor, por tipo e, posteriormente, prensar. É assim que a Jomafil começa. As coisas foram evoluindo e, entretanto, começaram a existir sobrantes de matérias-primas. Nessa altura, enveredamos pela área industrial. Foi montada uma linha de não-tecidos, que na altura, se a memória não me falha, foi das primeiras a ser montadas no país, que fazia enchimentos para a indústria de colchões e para estofos. Todo o caminho a seguir foi a evolução tanto na área da reciclagem, como na área do tecido não-tecido.

Quais são as operações que fazem atualmente dentro de portas?

Hoje pegamos no desperdício têxtil – já não temos a preocupação de selecionar, devido ao incremento de custo que existe na mão de obra, que é muito elevado –, transformamos em matéria-prima e usamos nas nossas linhas de não-tecidos, ou seja, fazemos componentes para o sector automóvel, para a indústria de isolamento, para colchões, também para o calçado e para a agricultura. Ou seja, no fundo para áreas mais técnicas.

De onde vem o desperdício?

Há algum tempo tentámos fazer a circularidade com os nossos clientes. Ou seja, temos clientes para os quais tratamos de tudo o que é desperdício. Os desperdícios deles entram na nossa unidade, são transformados e voltam a ser incorporados nos produtos deles ou noutros tipos de produtos. É óbvio que não podemos usar 100% desse tipo de desperdício na produção de um produto final nosso. Incorporamos, com outras fibras, por exemplo, com o algodão, com o poliéster, com o polipropileno.

Tem tido procura por parte de empresas nacionais já preocupadas com essa questão e a utilização de resíduos pós-industriais?

Fizemos um projeto com a Leroy Merlin, em que eles nos entregaram as fardas, nós transformamos em fibra e com essa fibra fizemos feltro. Depois temos algumas coisas pontuais. Mas no nosso caso não tem expressão, porque aquilo que pode ser uma grande quantidade de desperdício de uma cadeia de lojas, de fardamentos por exemplos, em que podemos estar a falar de cinco ou seis toneladas, é muita quantidade para quem os tem, mas é uma pequena gota para nós.

Quantas toneladas de desperdício reciclam?

Tudo depende daquilo que os nossos clientes nos pedem e também daquilo que existe de materiais disponíveis no mercado em termos de desperdício. Existe um binómio na indústria da reciclagem têxtil: quando lançamos um produto em linha, tenho de perceber o que é que tenho de matérias-primas disponíveis para aquele produto. Com uma agravante: quando entramos num momento de crise, que é aquele que estamos a ver agora, temos menos desperdício. O que tentamos sempre é equilibrar a situação. Daí que, em termos de matérias-primas, temos sempre stocks elevados, para aguentar tanto a nossa produção, como, inclusivamente, vendermos alguma parte da nossa matéria-prima a colegas nossos no estrangeiro. Em termos da nossa capacidade instalada, é variável e temos sempre uma percentagem considerável de folga. Mas facilmente transformamos 600 toneladas de desperdício têxtil por mês.

Esse desperdício é importado ou nacional?

Uma parte é importada, outra parte é produzida no mercado nacional. Inclusivamente, existe agora alguma legislação nesse sentido, em termos da Agência Portuguesa do Ambiente, na desmaterialização de alguns tipos de resíduos. Porque existem resíduos que não deviam ser considerados resíduos. Existem desperdícios têxteis que nunca deveriam ser considerados resíduos. Eles agora estão a perceber isso. Estão a perceber que existem resíduos numa indústria de lanifícios de penteado, que aquilo que de lá sai como desperdício não é desperdício, é matéria-prima de uma indústria de cardado. Daí que importamos alguma matéria-prima que é considerada de desperdício têxtil, mas que, no nosso caso, é matéria-prima, que depois da transformação permite obter fibras com alguma qualidade.

Quais são os principais mercados da Jomafil?

O mercado português é 50% e o restante é mercado externo, para Espanha, França e alguma coisa para a China.

A reciclagem pós-consumo está fora do horizonte da Jomafil?

A grande discussão que existe nesta área do pós-consumo é pegar no desperdício têxtil, selecioná-lo em cores e em tipo, reciclar e introduzi-lo no processo industrial têxtil. Economicamente isso não é viável. No caso do desperdício têxtil pós-consumo, o que se faz é retirar os botões e acessórios, mas, nessa área, não temos grande incremento, porque não aparece assim tanta coisa quanto isso. Ou seja, estamos preparados para isso, mas não quer dizer que façamos muitas toneladas. É uma coisa que, neste momento, ainda nem sequer é relevante para a nossa atividade.

Mas a tecnologia não pode ajudar nesse sentido?

A tecnologia permite eliminar a mão de obra, mas apesar de já existirem algumas tecnologias que permitem fazer a separação das fibras, dá-me a ideia que está ainda num processo muito embrionário. Já vi algumas coisas nesse sentido, mas em termos industriais não funciona. Também não é fácil, hoje em dia, fazer essa seleção para se fazer fio por causa da própria composição das peças de vestuário, as misturas. Isso causa algum transtorno no caso da indústria da reciclagem e depois, obviamente, nas indústrias a seguir. Daí que, quando temos roupa, neste caso pós-consumo, a única forma que tenho de a trabalhar é retirar fechos e botões e fazer uma amálgama de uma fibra que depois dará para fazer ou feltros ou geotêxteis ou outra coisa qualquer.

Que investimentos têm sido feitos na empresa?

Em 2016, montámos uma central fotovoltaica que representava cerca de 50% do nosso consumo de energia. Porém, aumentamos a capacidade instalada e neste momento representa 25% a 30% das nossas necessidades. O negócio da reciclagem têxtil é um negócio que necessita de duas coisas: capital, é um negócio de capital intensivo, e energia. Ou seja, tudo o que tem a ver com energia, temos de lá estar. Em termos de equipamentos, em 2019 fizemos um investimento na área da reciclagem e em 2020 na área dos tecidos não-tecidos. Esta última, uma semana depois de arrancar, parou por causa da pandemia. Fiquei extraordinariamente preocupado, porque são investimentos avultados. Mas é curioso que foi a linha que, depois, naquele período de arrancar e não arrancar, trabalhou praticamente 24 horas sobre 24 horas e conseguimos alguma estabilidade.

Tem outros projetos planeados?

Temos. Tudo passa por otimização de processos, porque em termos da tecnologia, na indústria da reciclagem, só há duas formas de fazer reciclagem. Uma eu conheço, a outra ainda está, quanto a mim, no domínio um tanto ou quanto da ficção científica, que é a reciclagem química, até porque é extraordinariamente caro, apesar do processo ser em tudo semelhante a como se processam as fibras de liocel. No caso que é a reciclagem mecânica, só se pode otimizar, com equipamentos mais robustos, mais eficientes em termos energéticos. Os investimentos que queremos fazer para o futuro passarão todos pela otimização de processos e por criar sinergias com os nossos clientes.

Que expectativas tem para o curto prazo?

Iremos manter o volume de negócios, na ordem dos 5 milhões de euros. Temos as agruras da economia, mas temos uma vantagem: somos muito flexíveis. Como costumo dizer às pessoas que me são próximas, quando toda a gente está a chorar, temos de ir vender lenços de papel. É isso que fazemos. Temos de funcionar sempre um pouco em contraciclo.

Na sua perspetiva, as empresas de reciclagem que existem atualmente em Portugal têm capacidade para lidar com os resíduos têxteis nacionais?

Fico triste, e a palavra é essa, quando ouço dizer que em Portugal não há soluções, porque é um atestado de incompetência a empresários que existem neste sector há mais de 50 anos e que fazem o que de melhor se faz não na Península Ibérica, mas no mundo. Toda a gente já ouviu dizer que não há soluções, mas existem, estão aqui. Isto não são empresas que se possam chegar e montar, porque são equipamentos pesadíssimos, são máquinas dispendiosas. E que tem que existir muito cuidado, quando se faz um investimento nesta área, de perceber como é que ocupamos as máquinas, porque elas são rentáveis a trabalhar com um determinado ritmo. Se tivermos paragens elevadas, deixam de ser, porque não é só o investimento inicial, mas também em termos de energia – quando arrancam, têm que arrancar a sério.