Os interiores da moda chinesa

Huaihai Lu e Nanjing Xilu não devem nada aos Campos Elíseos nemao Faubourg Saint-Honoré. Estas duas longas avenidas de Xangai não são mais do que uma sucessão de gigantescos centros comerciais e lojas de luxo. Na explosão consumista que atinge cerca de 200 milhões de chineses, com rendimentos confortáveis, a lingerie tem o seu lugar. As jovens cosmopolitas de Xangai têm a reputação de fazer parte das elegantes da China. As publicidades de moda e de cosmética afixadas por toda a cidade realça esta preocupação com a aparência, que hoje chega à roupa interior. «A lingerie começa a ter um “boom” na China», explica Marie-Pierre Cherifi, criadora da marca francesa “Le Caprice de Marie”, cujos escritórios e produção estão baseados em Xangai. O sector de interiores registou, nestes últimos anos, uma taxa de crescimento de 20% e por vezes dentro dos grandes armazéns, para a alta gama. «As marcas chinesas fabricam sobretudo artigos de baixa gama, e só agora, começam a lançar, mas muito timidamente, colecções mais estruturadas e para um segmento mais elevado», prossegue Cherifi. São estes os novos produtos que começam a despertar o interesse dos consumidores. Desde há dois anos, lojas especializadas em lingerie aparecem nas galerias dos centros comerciais, ao mesmo tempo que corners de marcas de alta gama começam a “despontar” nos departement stores. Esta tendência, atinge, para já, somente as grandes cidades, como Pequim, Guangzhou e, principalmente, Xangai. Em 2005, a Chantelle abriu uma loja no luxuoso centro comercial Jing Jiang Dickson. Mais recentemente, a Méli-Mélo inaugurou a sua primeira loja no Joffre 688, novo templo de luxo situado em Huaihai Lu. Nestes espaços, a decoração é particularmente cuidada, e o preço dos conjuntos varia entre 60 e 200 euros, o que representa metade do salário mínimo em Xangai. Mais marcas estão presentes neste mercado: Aubade, Millesia, Verdíssimo ou Nina Ricci. A Caprice de Marie dispõe de dois pontos de venda na cidade. Este “boom” está apenas no início, tendo em conta o interesse de marcas como Valery, Ritratti, Lady de Paris, Chiristies ou Chantal Thomas, todos expositores na primeira edição da feira Shangai , Mode Lingerie (ver artigo PT), organizada pela Eurovet no último Outono. Body One e Soleil, por seu lado, estiveram presentes no último salão de franchising para tentarem encontrar parceiros locais. Segundo um estudo encomendado pela Eurovet, em 2001, as vendas de lingerie na China atingiram os 4,6 mil milhões euros, dos quais a lingerie para senhora representou 1,8 mil milhões de euros. Para artigos do segmento médio/alto, o potencial de consumo é estimado, actualmente, em aproximadamente mil milhões de euros por ano. Quanto à capacidade de produção, na China há 5.000 fabricantes de artigos de lingerie, 400 dos quais apresentam uma elevada capacidade de produção. «Hoje em dia está em curso uma verdadeira revolução nos padrões de consumo de lingerie, em termos de cor e design», acrescenta Thomas Morlot, criador francês de lingerie e fundador da já referida Méli-Mélo. Numa só geração, os gostos das jovens chinesas mudaram profundamente. «As nossas mães procuravam o conforto. Elas usavam sobretudo o algodão e as cores neutras. Mas a nossa geração interessa-se mais pela aparência e pela sedução. Nós queremos lingerie com formas bonitas, com cores a combinar com a roupa que estamos a usar», diz uma jovem de Xangai, de 24 anos, que é, de alguma forma, representativa da sua geração, constituída por mulheres activas, entre 20 e 35 anos, que estão dispostas a gastar mais com lingerie. «Eu posso gastar entre 30 a 60 euros por cada conjunto e chego a comprar seis por ano». «Esta geração está disposta a ousar mais e para as mais jovens, há uma grande influência do mundo da música, através dos vídeo-clips», avança Thomas Morlot. Face a esta alteração dos padrões de consumo, as marcas estão a apostar fortemente na criatividade. As marcas chinesas e estrangeiras, mas fabricadas localmente, estão atentas, e cada vez mais apostam em artigos de gamas superiores, muitas vezes com a ajuda de gabinetes de estilo internacionais.E o caso de marcas como Aimer, que lançou a griffe La Clover, fortemente inspirada na La Perla, e como Maniform, com a griffe Emweiss. No entanto, apesar de muito prometedor, o mercado chinês da lingerie continua a mostrar um acesso difícil. Para o abordar, as marcas ocidentais devem apreender aos códigos culturais locais, mesmo que a “nova burguesia” chinesa pareça, por vezes, “esquecê-los”. O pudor e a discrição, características lendárias dos chineses, ainda formatam o gosto dos consumidores. Assim, a maior parte dos modelos adoptam, ainda, um estilo convencional e as cores ainda se limitam, em grande parte, ao vermelho e aos pasteis, sendo o negro proscrito, com poucos estampados e com a utilização ainda muito tímida de materiais inovadores. Falta só referir uma questão: na China, tudo acontece muito depressa. Há dois anos, não se encontrava nenhum string nas lojas. Em 2005, uma sondagem realizada pela Cotton USA, mostrou que cerca de metade dos chineses já aceitavam esse tipo de artigo e até o consideravam «sexy». Nada que seja estranho na loja localizada numa das principais artérias comerciais de Xangai, a Gujin, número 1 da distribuição de lingerie na China, que recebe cerca de 1.000 clientes por dia. Para conquistar esta novíssima clientela, as marcas de lingerie de luxo deverão apostar, simultaneamente, na audácia e na capacidade de adaptação. E investir na comunicação para educar os futuros clientes a considerar os interiores como um produto de moda. Uma estrtégia já seguida com sucesso pela industria de cosméticos a tal ponto que a L’Oreal abriu recentemente um centro de I&D na China.