Os desafios do algodão

A segurança da água é «um dos desafios sociais, políticos e económicos mais tangíveis e em mais rápido crescimento que enfrentamos hoje», de acordo com o Fórum Económico Mundial – com o mundo propenso a enfrentar um défice global de 40% entre a procura prevista e a oferta disponível de água nos próximos 15 anos. Esta necessidade urgente de uma melhor utilização dos recursos hídricos cada vez mais limitados coloca pressão especial sobre o algodão, que é uma das maiores e mais secas culturas produzidas – representando cerca de 2,5% de toda a terra arável disponível e mais de 3% da água consumida em toda a produção de colheitas. Com efeito, as estatísticas são alarmantes. Segundo a WWF, são necessários 42 metros quadrados de terra para a produção de matéria-prima suficiente para satisfazer o consumo de algodão de cada pessoa; enquanto a Better Cotton Initiative calcula que são necessários cerca de 10.000 litros de água para produzir apenas um quilo de algodão. E, para cada t-shirt fabricada, estima-se que são usados cerca de 2.700 litros de água em toda a cadeia de aprovisionamento desde a exploração agrícola, passando pelo processamento até ao produto acabado – a mesma quantidade de água que uma pessoa bebe em média ao longo de três anos. Além do mais, os lençóis freáticos nos principais países produtores de algodão, da China, Índia e Paquistão, estão a cair na ordem de 10 metros por ano. Numa tentativa de integrar os desafios da água na agenda corporativa da indústria do vestuário, a CottonConnect publicou em agosto um novo relatório que analisa o impacto da água na cadeia de fornecimento do algodão. O estudo alerta que é necessário mais apoio para os pequenos agricultores de algodão, na forma como eles lidam com os efeitos da escassez de água. E convida retalhistas e marcas a desempenhar um papel mais ativo na redução do consumo de água no sector. Com mais de 100 milhões de pequenos agricultores no mundo em desenvolvimento, responsáveis por 90% da produção de algodão do mundo, as medidas que podem ser tomadas incluem o mapeamento e maior transparência em toda a cadeia de fornecimento, juntamente com relacionamentos mais próximos e colaboração para financiar iniciativas de apoio que ajudem a sustentabilidade da cadeia de fornecimento do algodão. O relatório “More Crop Per Drop – Water Report on the Cotton Industry” refere que o fornecimento de informações básicas e a formação aos agricultores têm um papel fundamental a desempenhar no aumento da produtividade e redução da pegada de água em regiões produtoras de algodão no mundo em desenvolvimento, com mudanças simples nos procedimentos a ajudarem a melhorar rendimentos e a reduzirem o consumo de água entre 30% e 60%. Se isto não for um incentivo suficiente para o envolvimento, existe também uma forte justificação comercial para as empresas investirem na melhoria da sustentabilidade da sua cadeia de fornecimento de algodão. O retalhista britânico John Lewis já trabalhou com a CottonConnect num programa de três anos para dar formação a 1.500 agricultores em melhores práticas de sustentabilidade – e aumentar a rastreabilidade dos seus produtos, dando à equipa de compras da John Lewis um conhecimento completo de onde provém exatamente o seu algodão. Stephen Cawley, responsável de sustentabilidade e origem responsável da John Lewis, afirma que «o compromisso traz benefícios para a marca – estamos a ajudar a garantir a segurança do abastecimento, a rastreabilidade até à origem das fibras, bem como a ter um impacto positivo sobre as condições sociais e ambientais dos agricultores na Índia –, o que é crucial quando uma grande parte da nossa cadeia de produção é baseada nessa região do mundo». De igual forma, a C&A Foundation financiou um projeto da CottonConnect para instalar sistemas de irrigação por gota em diversas explorações agrícolas na Índia, o que não apenas reduziu o consumo de água, mas aumentou a produtividade em até 50%.