Os desafios da gestão de stocks – Parte 1

A actual indústria da moda e vestuário, em especial no mercado dos artigos básicos, exige que os fabricantes e retalhistas entreguem as peças mais rapidamente, e que sejam suficientemente flexíveis para se adaptarem às exigências dos clientes e para responderem de forma eficaz, eficiente e com qualidade à crescente pressão dos pedidos e expectativas dos consumidores.

 

Em 2002, só nos Estados Unidos, as empresas deste sector reportaram prejuízos de 200 mil milhões de dólares, em termos das entregas de encomendas, o que constitui um claro indicador de que as companhias de vestuário ainda não encontraram a fórmula certa para o seu negócio.

 

Apesar de alguns aspectos dessa pressão serem previsíveis, e até desejáveis, pois mantêm a dinâmica nos mercados de consumo, as falhas de gestão destacam-se entre os factores que contribuem para estas elevadas perdas financeiras.

 

Porque é que a gestão destocks constitui um problema?Os analistas concordam que tal se deve a uma combinação de vários factores, que vão desde modelos de negócio ultrapassados à falta de conhecimentos e equipamentos tecnológicos, passando por falhas na gestão e por défice de investimentos.

 

Obviamente, a gestão eficaz dosstocks é difícil, pois não possuímos uma bola de cristal que nos mostre o futuro, em termos de procura e vendas, e muito menos por estilos, cores e tamanhos.Mas é ainda mais complexo do que isso: a maior parte dos retalhistas não têm um bom conhecimento acerca dos consumidores e confiam totalmente no histórico e nas vendas anteriores para gerir os seusstocks, de acordoo com Antony Karabus, director geral daKarabus Retail Management Consultants.

 

Este especialista considera que este é apenas o princípio das dificuldades, dado que muitas das empresas de têxteis e vestuário não conhecem sequer os problemas que devem solucionar, nem as ferramentas a utilizar: planeamento de sortidos, agrupamentos de lojas, optimização de tamanhos…

 

O assunto está mais do que nunca na ordem do dia, tendo em conta que as operações globais dos grandes retalhistas do mercado de vestuário incluem um número crescente de lojas e pontos de venda, canais de distribuição e outros aspectos complexos.Antony Karabus acrescenta ainda a estes dados uma maior dispersão geográfica das redes de venda, que expõe as referidas organizações a inúmeras combinações demográficas de clientes.

 

As previsões no segmento das peças básicas, como por exemplo as meias ou a roupa interior, foram durante muitos anos feitas de forma regular, pois as técnicas de previsão tradicionais funcionam bem quando os próprios padrões das vendas são lineares e se repetem regularmente em cada ano que passa, refere Scott Friend, presidente daProfitLogic.

 

Já Jim Lovejoy, director de análise logística da [TC]2, considera que “as técnicas de previsão melhoraram bastante, mas o processo de previsão necessita do envolvimento de mais retalhistas, pois enquanto o consumidor final está a beneficiar de preços mais baixos, os lucros das empresas estão a sofrer os efeitos das reduções das margens, quer em termos dos fabricantes, quer dos retalhistas”.

 

“Se os retalhistas e fabricantes colocassem as ordens de compra iniciais aos seus fornecedores mais baratos, e assim se mantivessem, de modo a contarem com uma fonte segura, consoante as exigências dos mercados, o problema dosstocks seria bem menor”, adianta este especialista.

 

Este modelo de negócio exige ainda mais disciplina dos retalhistas, para garantir uma qualidade dos produtos consistente.No entanto, para garantir esta rapidez, consistência e flexibilidade, as empresas de vestuário precisam de investir mais em tecnologias de desenvolvimento de produto sofisticadas.Além disso, como os tempos intermédios na cadeia de produção são mais longos, as falhas demoram mais a detectar e reparar, com custos consequentemente mais elevados, segundo explica Herbert Klein, analista de consumo daPeopleSoft.

 

Este especialista acrescenta que “as boas notícias são que cada vez mais empresas adoptam tecnologias baseadas na Internet, permitindo assim a fabricantes, distribuidores e retalhistas colaborarem efectivamente ao longo de toda a cadeia de produção”.“Estas ferramentas melhoram a visibilidade da procura ao longo da cadeia de produção, reduzindo ao mínimo os tempos dos ciclos das encomendas, possibilitando igualmente uma melhor distribuição do volume das linhas de artigos”, refere ainda Herbert Klein.

 

Assim, em que ponto estamos no que toca à previsão exacta das quantidades de mercadoria emstock?Antony Karabus defende que, no geral, a indústria do vestuário se encontra entre o 3-4, numa escala de 1 a 10.

 

O fundador e director daKarabus Retail Management Consultants diz que “este é um ponto crítico, devido à questão das colecções, tendo em conta que todos os meses são lançadas no mercado linhas de produtos totalmente novas”.

A juntar a isto, “umstock de produtos mal gerido causa um elevado empate de capital, e num ramo como a moda, um artigo que não seja rapidamente escoado, tem que ter o seu preço reduzido, para ser vendido”, remata Karabus.