Os caça-ladrões

Fornecedora de soluções de segurança electrónica, a Adt, especialista na tecnologia magneto-acústica, está fortemente interessada no mercado de protecção na fonte. Deste modo, organizou no início de Março, em Madrid, uma conferência na qual participaram alguns dos principais players da distribuição, nomeadamente do sector do vestuário. A mais esperada era a Inditex, grupo deveras reticente em revelar o seu modo de funcionamento, seguida da Cortefiel e Bata. A Inditex apresentou o seu último projecto na luta contra o furto: a protecção na fonte com minietiquetas. O grupo espanhol, proprietário das insígnias Zara, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho e Zara Home, testou em duas das suas lojas madrilenas, no Outono passado, este sistema desenvolvido pela Adt. Esta minietiqueta, a VST (Visible Source Tagging – Etiquetagem Visível na Fonte), concebida para não danificar o vestuário mais delicado, é de dimensões diminutas (55 mm x 30,5 mm e 17,8 mm de espessura), discreta, muito leve (7 g) e de uso único. Estas VSTs são colocadas pelos fornecedores: «Todos gostaríamos que não existissem cabides. Mas o menor dos males é colocá-los durante a fabricação», afirma Gustavo Yribarren, director de prevenção das perdas da Inditex. Deste modo, a Inditex e a Adt desenvolveram um guia para os fornecedores, que devem colocar esta minietiqueta sempre no mesmo lugar. «Não lhes deixamos espaço para qualquer iniciativa neste âmbito. Pelo nosso lado, economizamos tempo aos vendedores, já que não necessitam de colocar os cabides que, além do mais, não eram postos no devido lugar e por vezes danificavam o vestuário», acrescenta Gustavo Yribarren. A partir de agora, o artigo, uma vez chegado à loja, é directamente colocado no expositor. Os distribuidores estimam, em geral, a devolução de 2% do vestuário devido a uma deficiente colocação do cabide. E a Adt quantifica o custo de colocação de cada cabide na loja em cerca de 12 a 17 cêntimos por vendedor. O VST será lançado este ano em todas as lojas Zara e, no próximo ano, nas restantes insígnias do grupo, no mundo inteiro. O grupo espanhol não revela todavia se todos os artigos têxteis apresentarão estas minietiquetas. «Vai tudo depender da sua escolha entre o merchandising visual e a eficácia contra o roubo. Frequentemente, os distribuidores preferem evitar os cabides nas t-shirts e nas camisolas», sublinha Jean-Philippe Gindre, director de vendas da Adt-Sensormatic França. Uma acção progressiva Para numerosos distribuidores, uma boa protecção contra o furto reside na repartição equilibrada entre a protecção visível e invisível. Aliás, esta é já prática corrente no grupo Inditex, que começou a instalar a protecção na fonte em 2001, em parceria com a Adt, avançando, em cada ano, por etapa e por grupo de produtos (perfumaria, lingerie com etiqueta costurada, acessórios, vestuário de criança e calçado com traçador integrado) e que actualmente enceta a fase consagrada ao pronto-a-vestir de adulto. Se a aposta principal do sector do vestuário reside na segurança e na redução de custos, para a Bata, a adopção de protecção na fonte no calçado derivou da nova estratégia comercial e da vontade de combater a desmarcação desconhecida. Com a mudança de conceito de loja em 2001, tornou-se uma necessidade. «Anteriormente, apresentávamos apenas um só sapato, em venda totalmente assistida. A nossa nova estratégia consiste em apresentar o par e a lançar a venda em livre serviço assistido. Os objectivos eram aumentar as vendas e oferecer um melhor serviço ao cliente», revela Karim Bairi, responsável logístico da Bata. A insígnia deparou-se então com um problema de segurança, já que não dispõe de pessoal especializado. A etiqueta rígida foi rapidamente posta de lado pela marca de calçado face aos custos da colocação e de apresentação pouco estética. O novo projecto teve início em 2004 e consiste na introdução de uma etiqueta de forma invisível no interior do produto, operando através da tecnologia magneto-acústica. «As vantagens são múltiplas: os sapatos são colocados directamente à venda logo que chegam à loja; esta protecção invisível não deixa traço nem danifica o produto, a apresentação é bem mais estética, os clientes podem provar as peças sem qualquer dificuldade e, mais importante, as nossas equipas podem centrar-se no cerne da sua actividade: a venda», explica o responsável de logística da Bata. Em todos estes processos, a questão das relações com os fornecedores permanece essencial para a implantação eficaz de uma protecção na fonte. «Tratou-se da parte mais complexa. Todos foram prevenidos por correio, no qual lhes foi explicado a necessidade de proteger os produtos. Como já trabalhamos com os nossos fornecedores há muito tempo, existe uma relação de confiança. E, de qualquer modo, os produtos são todos controlados nos nossos armazéns antes de serem entregues nas lojas», declara Karim Bairi, sem querer adiantar quem paga o custo desta protecção. Aliás, um dado que nenhum distribuidor quer revelar. A Bata optou por acompanhar os seus fornecedores, encarregando uma equipa da Adt de apresentar aos fabricantes esta nova tecnologia. «Alguns produtos são específicos e, se a colocação da etiqueta prejudicasse o conforto do sapato, não protegeríamos o produto. Mas procuramos sempre encontrar uma solução técnica», argumenta Karim Bairi. Outra dificuldade que os distribuidores têm de resolver é a formação do pessoal. Luis Mesa, director das auditorias internas do grupo Cortefiel, que introduziu há 6 meses a protecção na fonte nas suas lojas de lingerie Women’Secret (com etiquetas costuradas) revela os problemas encontrados nas lojas: «Não é necessariamente fácil proporcionar uma formação contínua aos vendedores». É preciso tempo e experiência para que os vendedores não se esqueçam de desactivar a protecção dos artigos no momento da compra. «Mas também a formação humana, nomeadamente na venda de calçado, onde a protecção é invisível. Os vendedores devem ser firmes, mas também diplomatas, e evitar qualquer agressividade para com o cliente durante a manipulação do produto», afirma Alain Pascail, director comercial e marketing da Adt França. A importância da formação O professor de criminologia da Universidade de Leicester Adrian Beck insiste na necessidade de uma formação adequada, sem a qual as tecnologias não funcionam bem: «Porque existem tantos alarmes falsos? Os vendedores não estão assim tão bem formados, sobretudo quando o volume de negócios é elevado». Adrian Casey, director-geral da Adt Europa e Adt África do Sul, não esconde que «é necessário tempo para instituir uma cultura de prevenção». Certos distribuidores compreenderam rapidamente a importância desta cultura. Como Inditex, que implantou uma verdadeira estrutura de prevenção das perdas, com equipas em cada país. Deste modo, foram numerosos os participantes na conferência que assinalaram a importância da implicação da direcção da empresa nos programas de prevenção de perdas e de protecção na fonte. Esta conferência não poderia terminar sem abordar a tecnologia Rfid (Radio Frequency Identification – Identificação por Rádio-Frequência), nomeadamente através do exemplo da Tesco, que encomendou 4.000 leitores e 16.000 antenas Rfid Epc (Electronic Product Code – Código Electrónico de Produto) à Adt no ano passado, com o objectivo de equipar as portas dos armazéns e os pontos de recepção das mercadorias das 1.300 lojas e 35 centros de distribuição Tesco no Reino Unido. Mas, aos olhos de muitos, a tecnologia Rfid não é para já. «Os custos não será interessantes antes de 2008 e a tecnologia pode também colocar alguns problemas para os consumidores, mais propriamente à sua liberdade», sustenta Karim Bairi da Bata. Deste modo, a marca de calçado pretende primeiramente conhecer a opinião dos seus consumidores através da Internet. «Se esta tecnologia não lhes colocar qualquer problema, então estaremos dispostos a adoptá-la», conclui Karim Bairi. A Adt estima que a combinação entre os sistemas de protecção electrónica baseados na tecnologia magneto-acústica e a Rfid será realmente utilizável dentro de 5 a 7 anos.