Ordem para reciclar

O quadro legislativo atual, pensado para tornar a indústria têxtil mais sustentável, está a dar um impulso renovado à reciclagem têxtil, uma área onde Portugal tem empresas de referência.

De acordo com os dados publicados por sete entidades com pontos de recolha de vestuário usado, que no total detêm 8.975 contentores espalhados pelo país, todos os anos são recolhidas 26.800 toneladas de resíduos têxteis em Portugal. Já os dados da Agência Portuguesa do Ambiente, relativos a 2017, mostram que, em contentores de resíduos urbanos, foram recolhidas cerca de 200.756 toneladas de resíduos têxteis, o que representa cerca de 4% do total de resíduos produzidos no país.

Os números da União Europeia, por seu lado, apontam para que cada pessoa consuma 6,1 quilos de têxteis e 6 quilos de vestuário por ano (dados de 2020), sendo que os resíduos têxteis representam 12,6 milhões de toneladas por ano, a maioria dos quais é incinerada ou acaba em aterro. E apenas 38% dos mesmos são recolhidos separadamente.

Um cenário que deverá mudar em breve, com a legislação a obrigar a que, a partir de 2025, haja recolha seletiva de resíduos têxteis. Os vários pacotes legislativos que estão a ser negociados no bloco europeu contemplam ainda a proibição de incineração ou colocação em aterro de têxteis, a responsabilidade alargada do produtor sobre os resíduos, o condicionamento nas exportações de têxteis usados para países terceiros, nomeadamente para África, e, previsivelmente, a obrigatoriedade de incorporação de matérias-primas recicladas em novos artigos.

Este contexto está a impulsionar o mercado da reciclagem um pouco por todo o mundo, em particular no Velho Continente. A Euratex lançou a ReHubs, uma iniciativa que pretende criar 150 a 250 novos centros de reciclagem na Europa nos próximos anos, com o objetivo de reciclar até à fibra 2,5 milhões de toneladas de resíduos têxteis na Europa até 2030. Mais recentemente lançou o RegioGreenTex, que inclui os portugueses CITEVE, Sasia e Tintex, para definir a estratégia, o roadmap e as atividades relacionadas para criar ecossistemas tangíveis de têxteis circulares, prevendo que cada centro – estão previstos cinco – desenvolva um tipo específico de ecossistema de reciclagem têxtil que será passível de ser replicado noutras regiões.

As próprias retalhistas de fast fashion têm estado a envolver-se nesta área. A Inditex, por exemplo, está a financiar parcialmente a associação Moda re-, em Espanha, para que esta expanda as suas unidades e aumente a capacidade de seleção, processamento e reciclagem de vestuário usado.

Um mercado de 6 a 8 mil milhões de euros

O estudo “Scaling textile recycling in Europe – turning waste into value” da McKinsey & Company, de 2022, refere que a reciclagem têxtil pode gerar um mercado de seis a oito mil milhões de euros e originar cerca de 15 mil postos de trabalho na Europa até 2030. Esta análise indica que cada europeu produz em média mais de 15 quilogramas de resíduos têxteis por ano e, em 2030, este valor poderá atingir os 20 quilogramas (um aumento de mais de 30%), concluindo ainda que a maior proporção (85%) dos resíduos é produzida em casas particulares e diz respeito a vestuário e têxteis domésticos.

A consultora destaca que «mais de 65% destes resíduos são transportados diretamente para aterro ou incinerados» e apenas «um terço de todo o vestuário pós-consumo é recolhido e reciclado, quer para venda como artigos em segunda-mão, quer como produtos têxteis reciclados em bruto (panos industriais ou materiais de isolamento, entre outras utilizações)», salientando que «menos de 1% deste material é reciclado para recuperar ou reutilizar as fibras componentes (algodão, poliéster, etc.) para peças de vestuário novas».

Como tal, «a taxa de reciclagem têxtil poderia aumentar para 50% a 80% até 2030 e, consequentemente, a economia circular para a produção de fibras têxteis para novos artigos de vestuário a partir de resíduos têxteis poderia escalar entre 18% e 26%».

No entanto, segundo Ignacio Marcos, sócio sénior e líder da área de sustentabilidade no consumo da McKinsey, «para aproveitar todo o potencial da reciclagem têxtil é necessário um investimento total de seis a sete mil milhões de euros em toda a cadeia de valor – incluindo a recolha, triagem e construção de centros de reciclagem – até 2030».

«À medida que aumentam os compromissos e as políticas para a reciclagem têxtil até à fibra, assim como a quantidade de resíduos têxteis recolhidos, a infraestrutura exigida para impulsionar as ações para os sistemas circulares exigem a escalada significativa do investimento», afirma Katrin Ley, diretora-geral da Fashion for Good, no âmbito de um estudo de 2022 da organização, que revelou que 74% de 494 mil toneladas de têxteis pós-consumo de baixo valor estão já disponíveis para reciclagem até à fibra em seis países europeus – Alemanha, Bélgica, Espanha, Países Baixos, Polónia e Reino Unido –, o que poderá gerar até mais 74 milhões de euros por ano através da reintrodução de têxteis reciclados na cadeia de valor.

No terreno, sobretudo no Norte da Europa, o foco tem estado particularmente na reciclagem química, sobretudo de fibras celulósicas, com empresas como a Infinited Fiber, Renewcell e Södra a fazerem avanços nesse sentido. Os processos de reciclagem química estão igualmente a ser aplicados a fibras sintéticas, onde se destacam empresas como a Ambercycle e a Circ.

Já a reciclagem mecânica tem mais provas dadas no mercado, com vantagens como uma menor necessidade de energia e desvantagens como a redução do comprimento da fibra, que limita as aplicações em circuito fechado.

Neste domínio, Portugal tem já uma tradição de muitas décadas, com empresas de referência que estão a aumentar a capacidade produtiva e a estudar novas possibilidades, quer ao nível da eficiência dos processos existentes, quer a abrir a possibilidade a novos tipos de reciclagem, como revelaram, na primeira pessoa, a J. Gomes, a Sasia, a Jomafil e a Valérius.