O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, assim como um grande número de líderes mundiais, alertou para o facto de que, um eventual fracasso das negociações de Doha pode ser catastrófico para o mundo e uma oportunidade perdida para diminuir a pobreza nos países em desenvolvimento. De acordo com o publicado pelo Diário Económico (DE), a Ronda de Doha começa a precipitar-se rapidamente, para uma conclusão que pouco, ou nada, favorecerá os países mais pobres.
UE recusa alterar proposta A União Europeia (UE) não aceitará um acordo final da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC) que suponha um passo atrás nos objectivos da liberalização dos mercados, advertiu o comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson conforme foi noticiado pelo DE. A táctica de negociação de algumas partes está a tornar difícil o fim da reunião, a qual, segundo o comissário, assumiu uma direcção «preocupante». Em relação à petição da UE para que fixe uma data para o fim dos subsídios à exportação de produtos agrícolas, Mandelson afirmou que os 25 já se comprometeram a reduzi-los, acrescentando que não poderá ser adiantado um prazo enquanto os Estados Unidos, Austrália, Canadá e Nova Zelândia não tomarem uma decisão semelhante. Estes países «guardam os seus subsídios em vez de colocá-los sobre a mesa de Hong Kong», disse o comissário do Comércio. Mandelson indicou ainda que o Brasil, líder do G-20, cuja exigência principal é a redução das ajudas agrícolas nos países desenvolvidos, deixou claro que a marcação de uma data para o fim dos subsídios é uma «questão simbólica» e não terá como consequência concessões dos países emergentes em outras áreas da negociação. No capítulo industrial, Mandelson explicou que da reunião de Hong Kong pode sair uma proposta de redução das tarifas, sendo, no entanto, impossível saber se esta redução aumentará o acesso aos mercados. Deste modo, «podemos esperar menos oportunidades no comércio industrial enquanto fazemos mais concessões na agricultura», o que significa «pagar mais para obter menos», concluiu Mandelson. Em relação aos serviços, o comissário lamentou existir uma «posição concertada» em alguns membros da OMC para diluir as propostas que já de si são pouco ambiciosas. Segundo Mandelson, «é difícil ver onde se podem fazer progressos se as discussões continuarem como estão». O comissário garantiu que não deseja «contemplar um fracasso em Hong Kong», mas afirmou que não faz sentido adoptar conclusões que simplesmente diminuam os benefícios para os países em desenvolvimento. Mandelson anunciou ainda que a UE vai aumentar progressivamente a sua ajuda relacionada com o comércio a favor dos países em vias de desenvolvimento a dois mil milhões de euros por ano até 2010. À falta de melhor, os países ricos estão a tentar chegar a acordo, em Hong Kong, sobre um pacote de medidas favoráveis aos países menos avançados. A União Europeia já avançou com um gesto concreto, enquanto os Estados Unidos e o Japão «começam a demonstrar alguns sinais de flexibilidade», mas a iniciativa está a ser alvo de críticas ferozes de vários quadrantes. O director-geral da OMC, Pascal Lamy, alertou que o pacote de medidas a favor dos países mais pobres «não é um substituto de uma negociação ambiciosa sobre o conjunto dos dossiers. Este conjunto de medidas não deve ser uma desculpa para não avançar sobre os outros temas da negociação», acrescentou ainda Lamy, conforme foi divulgado pelo DE. Por outro lado, os outros países em desenvolvimento também tecem duras críticas porque consideram que iniciativas como esta não têm outro objectivo senão a divisão destes países. Além disso, é consenso para estes países que o aumento da ajuda aos países menos avançados não serve de nada se o Norte não abrir mais os seus mercados aos produtos agrícolas tal como se comprometeu a fazer durante o actual ciclo de negociações multilaterais lançado em Doha. «Um ciclo do desenvolvimento deverá levar a cabo uma reforma da agricultura e eliminar as distorções das trocas comerciais», reiterou, em Hong Kong, o ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros. EUA querem resolver questão do algodão Os EUA manifestaram a esperança de conseguir um compromisso com os países africanos sobre a questão muito controversa dos subsídios ao algodão, durante a reunião de Hong Kong. «Seria verdadeiramente óptimo se pudéssemos resolver a questão do algodão esta semana», disse o representante norte-americano do comércio, Robert Portman, num fórum organizado à margem da conferência ministerial. O responsável já tinha dado a entender nos últimos dias que Washington está disposto a fazer um gesto em relação aos países africanos em Hong Kong. Os EUA deram sinais de uma pequena abertura a favor dos produtores africanos de algodão, um dossier que voltou a assumir um papel principal nesta conferência ministerial. Mas este gesto deverá ser incluído no âmbito do plano de ajuda específica para os países pobres, o que foi acolhido com pouco entusiasmo pelos interessados. «Os EUA estão prontos a permitir um acesso ao nosso mercado isento de direitos alfandegários ao algodão dos países da África Ocidental», anunciou à imprensa o representante norte-americano do Comércio, Robert Portman. A UE, que já não impõe direitos a estes produtos, classificou o gesto como um passo «positivo», mas frisou que «esta medida não resolverá o problema actual do mercado do algodão que é alvo de dumping resultante dos subsídios à exportação e de apoios internos». Actualmente, os EUA aplicam direitos alfandegários «inferiores a 2%» com uma quota de importação fixa, que ainda não foi atingida, revelou uma fonte oficial norte-americana. Países pobres recusam pagar a factura europeia Os países pobres não têm de pagar à UE para que ponha fim aos subsídios à exportação e aos apoios internos aos agricultores que falseiam o comércio mundial., afirmou o ministro indiano do Comércio Kamal Nath. «Não pode haver preços a pagar para que a UE se mexa. Ela primeiro deve pôr fim às distorções», disse o responsável cujo país integra o agressivo grupo do G20. «O sucesso de Hong Kong seria pôr fim aos fracassos estruturais no comércio mundial», acrescentou ainda Kamal Nath. Franceses preferem influenciar a UE no emprego Os franceses gostariam de ver o seu país conseguir influenciar a Europa antes de mais nas questões do emprego, em vez de nas questões agrícolas ou da reforma das instituições, segundo uma sondagem ontem publicada pela CSA. O estudo de opinião revelou que 63% das pessoas desejaria que a França influenciasse a Europa nas questões do emprego e só 17% respondeu na política agrícola comum. Rússia faz frente aos EUA O Presidente russo, Vladimir Putin, rejeitou claramente uma das exigências chave dos EUA para aderir à OMC, afirmando que as filiais directas dos bancos estrangeiros vão continuar a ser excluídas do seu país. O Governo está de acordo com a comunidade bancária de que as filiais dos bancos estrangeiros e as suas actividades na Rússia devem ser limitadas e, em definitivo, proibidas, disse Putin. Esta interdição é um dos grandes obstáculos à adesão de Moscovo. BM denuncia exploração dos países pobres Os países em desenvolvimento são «arrasados» pelo sistema comercial internacional, lamentou o Banco Mundial (BM) na conferência ministerial da OMC, acusando os países ricos de nada fazerem para melhorar as coisas. «Os países desenvolvidos não podem continuar a recusar aos mais pobres a hipótese de fazer comércio», indicou o vice-presidente do BM, encarregue da luta contra a pobreza, Danny Leipziger, numa altura em que os 149 países membros da OMC discutem em Hong Kong um plano de ajuda ao comércio dos países menos desenvolvidos. Criticando as subvenções agrícolas dos países ricos, o responsável do BM sublinhou que após a abertura da conferência de Hong Kong «os países ricos distribuíram em três dias dois mil milhões de dólares aos seus agricultores sob diferentes formas de ajuda. Ao mesmo tempo, os 300 milhões de africanos mais pobres ganharam, conjuntamente, menos de mil milhões de dólares». «As discussões em curso em Hong Kong estão longe de resolver os problemas fundamentais», defendeu o BM em comunicado. «Os países desenvolvidos não podem continuar a recusar aos mais pobres a possibilidade de fazer comércio», conclui o documento. Perspectivas para nova conferência ministerial Os países da Organização Mundial de Comércio (OMC) estão cada vez mais conscientes da incapacidade de chegarem a um acordo e estão já a apontar baterias para um novo encontro em Abril. Os Estados Unidos apelaram à realização de uma nova conferência da OMC no início de 2006 para desbloquear as negociações em curso. «Não deveríamos partir (de Hong Kong) sem fixar uma data, no início do próximo ano, de modo a encontrar uma nova forma de sair do impasse e permitir aos nossos negociadores terminar o trabalho até ao final de 2006», defendeu o representante norte-americano do Comércio, Robert Portman, de acordo com o divulgado pelo DE. O G20 «está determinado em chegar a um acordo cifrado no início de Abril», retorquiu por seu turno o ministro brasileiro dos Negócios Estrangeiros, Celso Amorim. «Ainda que seja possível que não atinjamos tudo o que esperamos esta semana, temos de fixar uma nova data limite de modo a manter a pressão», acrescentou Portman. Manifestações contra globalização No primeiro dia da conferência ministerial, mais de uma centena de manifestantes contra a globalização tentaram invadir o perímetro de segurança erguido em torno do centro de congressos. Dos confrontos com a polícia resultaram nove feridos, sete manifestantes e dois polícias. As reuniões da OMC há muito que são marcadas pelas manifestações violentas, sobretudo desde a reunião ministerial de Seattle. Hong Kong não quer ficar na história pelas mesmas razões por isso os dispositivos de segurança são muito fortes.









