O vestuário fala

A simbologia das roupas varia de cultura para cultura. Mas, de uma forma geral, a roupa sempre representou o papel que o indivíduo representa dentro da sociedade, um traço da individualidade. Através dos tempos, o traje carregou muito a representação de classe, de casta social. Actualmente, não representa tanto uma classe social, mas, é uma forma de distinguir o grupo ao qual o indivíduo pertence. Quando o consumidor decide comprar uma roupa, não quer apenas um objecto útil. Está também a comprar a “imagem” que pretende reflectir no outro. Mesmo porque, a questão da utilidade da roupa foi deixada de lado há anos. Segundo Umberto Ecco, famoso filósofo e escritor italiano, num ensaio publicado em 1989, «no nosso vestuário, o que serve realmente para cobrir, para proteger do calor ou do frio e para ocultar a nudez que a opinião pública considera vergonhosa, não supera os cinquenta por cento» Para além da roupa ser um símbolo de status e diferenciação social e da diferenciação dentro do próprio grupo, é também reveladora de certos aspectos da personalidade, como o seu carácter influenciável e do seu desejo de influenciar. E, para além disso, algumas peças do vestuário carregam uma simbologia própria. O uniforme, ou uma peça determinada do vestuário, como capacete, boné ou gravata, indica a associação a um grupo, atribuição de uma missão, um mérito… Umberto Eco reafirma esse carácter ideológico da linguagem do vestuário, quando diz: «Porque a linguagem do vestuário, tal como a linguagem verbal, não serve apenas para transmitir certos significados. Serve também para identificar posições ideológicas, segundo os significados transmitidos e as formas significativas que foram escolhidas para transmitir». Ainda citando-o «o vestuário fala. Fala o facto de eu me apresentar no escritório de manhã com uma gravata normal de riscas, fala o facto de a substituir inesperadamente por uma gravata psicadélica, fala o facto de ir à reunião do conselho de administração sem gravata» Isto tudo vem a propósito do recém-empossado presidente da Bolívia, Evo Morales, o primeiro índio a ser eleito para o cargo, acaba de instituir o “Evo look”. Com um simples «pullover» às riscas horizontais azul e vermelho, Morales quebrou todos os protocolos da indumentária ao visitar chefes de Estado nos quatro cantos do mundo. A princípio ridicularizado, o uso desta peça de roupa, além de pretender passar a imagem de um homem simples, despretensioso e informal, foi uma atitude marcadamente politica, a fim de se identificar com as massas simples da Bolívia que o tinham eleito. Mas exemplos de personalidades políticas que usam, ou usaram, o vestuário “para falar”, marcando de uma forma inegável um determinado estilo, são inúmeros: as fardas do presidente cubano Fidel Castro, os «sombreros» usados pelo venezuelano Hugo Chavez, o fato de Mao Tse-Tung… Um dos exemplos mais marcantes talvez tenha sido o de Mahatma Gandhi, que a partir de uma certa altura, deixou de usar as roupas, que segundo ele, representavam riqueza e sucesso. Passou a usar um tipo de roupa que costumava ser usada pelos mais pobres entre os indianos. Promovia o uso de roupas feitas em casas (khadi). Gandhi e seus seguidores fabricavam artesanalmente os tecidos da própria roupa, incentivando os outros a fazer isso. O tear manual, símbolo desse acto de afirmação, viria a ser incorporado à bandeira do Congresso Nacional Indiano e à própria bandeira indiana. Só uma curiosidade: o “Evo Look” acabou por criar uma corrida às camisolas «à Evo» na Bolívia, onde uma fábrica de têxteis multiplicou a sua produção nos três dias que antecederam a tomada de posse. Aos mil primeiros exemplares, pensados para o mercado boliviano, a fábrica teve de juntar, num só dia, uma encomenda do Brasil: mais 10 mil.