O que muda com o novo governo britânico?

Keir Starmer foi eleito ontem Primeiro-Ministro do Reino Unido, marcando o regresso dos trabalhistas a Downing Street. Especialistas da indústria de vestuário antecipam as mudanças que esperam com o novo Governo.

[©Keir Starmer Facebook]

Desde 2010 que o Reino Unido não elegia o Partido Trabalhista para formar governo. «Conseguimos! Vocês fizeram campanha por isso, vocês lutaram por isso, vocês votaram por isso e agora chegou, a mudança começa agora», afirmou Keir Starmer após a vitória. «Um Partido Trabalhista transformado, pronto para servir o nosso país, pronto para devolver a Grã-Bretanha ao serviço dos trabalhadores», acrescentou.

O Just Style falou com especialistas do sector para descobrir o que a vitória esmagadora do Partido Trabalhista e o novo governo no Reino Unido significarão para a indústria de vestuário e para a cadeia de aprovisionamento no geral nos próximos quatro anos.

Helen Dickinson, presidente-executiva do British Retail Consortium (BRC), tem esperança de encontrar formas de desbloquear as contribuições do retalho de vestuário para o Reino Unido e considera que deve ser um «esforço partilhado» entre o novo governo e o sector retalhista.

Destaca ainda a importância do retalho como fonte de emprego e investimento no Reino Unido e, através da sua escala e alcance, pode dar um «grande contributo» para as metas políticas do Partido Trabalhista.

Já o British Fashion Council (BFC) indica ao Just Style que os primeiros 200 dias deste novo governo serão a maior oportunidade para consolidar relacionamentos e «debater a indústria, as suas prioridades e começar a educar os novos membros do parlamento sobre os enormes benefícios que um sector de moda bem-sucedido pode trazer para o Reino Unido».

A organização também sublinha que, devido à paragem habitual de verão, a que se seguirá um período de acalmia devido ao congresso político do partido, «não haverá muita legislação» até outubro.

O BFC tinha já partilhado anteriormente cinco prioridades para impulsionar as oportunidades de crescimento no sector da moda: reestabelecer as compras isentas de impostos enquanto se faz uma revisão às as taxas comerciais, o apoio ao comércio e às exportações, um compromisso com a Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática (STEAM), em oposição a STEM, que não inclui as artes, qualificar os trabalhadores da indústria da moda e introduzir uma legislação sustentável.

«Idealmente, gostaríamos de ver ações positivas em todas essas cinco prioridades, mas estas coisas levam tempo e estamos prontos para investir na construção dessa parceria», afirma o BFC.

A GlobalData, contudo, questiona até que ponto o mantra de «estabilidade» do Partido Trabalhista é apenas uma tática projetada para garantir a vitória eleitoral, após a qual poderá ser revelada uma abordagem mais radical.

Alterações nos impostos e no trabalho

Um estudo da GlobalData intitulado “Global Political Drivers: 2024 UK election briefing” destaca que o trabalho enfrentará decisões tributárias desafiadoras, mas grandes cortes de impostos empresariais são improváveis. No entanto, parece empenhado em limitar o imposto sobre as empresas em 25% e rever as taxas para «nivelar o campo de jogo» para pequenas empresas através do congelamento de taxas e alargamento dos limites de apoio.

«Uma das melhores coisas que o Partido Trabalhista pode fazer pelos retalhistas de vestuário é fazer uma reforma às taxas comerciais», aponta Neil Saunders, analista de retalho da GlobalData. «Esse imposto punitivo prejudica muitas empresas com lojas físicas», realça.

No entanto, Saunders ressalva que, apesar da promessa do Partido Trabalhista de «substituir» o sistema de impostos sobre as empresas, forneceu «muito poucos detalhes» sobre o que o substituirá.

Helen Dickinson também partilha a mesma visão e argumenta que o retalho carrega o fardo desproporcional das taxas comerciais, contribuindo com 22% dos impostos totais e correspondendo a 5% da economia, bloqueando o aumento do investimento no retalho, o que ela acredita que poderia «desbloquear o crescimento» em toda a economia.

Na verdade, as mudanças propostas pelo partido no mercado de trabalho podem aumentar ligeiramente os custos para retalhistas e outras empresas. Os planos dos trabalhistas incluem apoiar os sindicatos, aumentar os salários mínimos, proibir contratos de zero horas e práticas de «demitir e recontratar» e remover períodos de qualificação para benefícios como baixa de saúde e licença parental.

Espera-se que isso leve a despesas mais altas e a uma gestão menos flexível da força de trabalho, especialmente para funções que normalmente usam contratos de zero horas.

A campanha trabalhista concentrou-se na criação de um ambiente «pró-negócios, pró-trabalhadores» e até sugeriu um processo único para lidar com a gestão económica no seu manifesto chamado «securonomics» – uma abordagem para fortalecer as bases económicas, traduzido num fundo de 1,8 mil milhões de libras para modernizar portos e construir cadeias de aprovisionamento em todo o Reino Unido, em parceria com empresas, sindicatos, líderes locais e governos descentralizados.

O Partido Trabalhista não discutiu especificamente os planos para a indústria de vestuário, no entanto Neil Saunders acredita que o partido vai querer analisar a ética na cadeia de aprovisionamento para a indústria. «Provavelmente será equilibrado na sua abordagem, pois não vai querer impor encargos indevidos aos negócios», acredita o analista da GlobalData.

O Partido Trabalhista lista o combate ao crime como uma prioridade, mas a GlobalData vê suas promessas específicas para o retalho, como a remoção do limite de 200 libras para furtos em lojas e a criação de uma infração específica para a agressão a trabalhadores do retalho, como «amplamente simbólicas».

O Partido Trabalhista já tinha afirmado que continua confiante no estatuto do Reino Unido fora da UE, mas espera «fazer o Brexit funcionar» e aprofundar os laços com a Europa através de um relacionamento «melhorado e ambicioso».

Neil Saunders menciona que qualquer esperança de se juntar ao Mercado Único Europeu é improvável, pois o partido consideraria isso muito «politicamente sensível», mas sugere que o Partido Trabalhista pode tentar suavizar o comércio com a UE. Mas «como isso será feito ainda está para ser visto», realça.

Em relação ao comércio, o analista da GlobalData antecipa que o Partido Trabalhista provavelmente promoverá mais acordos de comércio livre, depois de ter já anunciado que vai tentar estabelecer um acordo com a Índia, que, acredita Neil Saunders, pode ajudar nas importações de vestuário.

Pippa Stephens, analista sénior de vestuário da GlobalData, refere que as tentativas do Partido Trabalhista de fortalecer o relacionamento do Reino Unido com a UE devem ajudar um pouco o «comércio internacional» e auxiliar os prazos de entrega e as tarifas, «embora o acesso ao mercado ainda seja consideravelmente reduzido após o Brexit», sublinha.

Impacto no consumidor de vestuário

A vitória trabalhista pode fazer com que a confiança do consumidor se traduza em mais gastos no retalho de vestuário.

Mais de um terço (35,9%) dos consumidores afirmaram pretender aumentar o consumo se o Partido Trabalhista vencesse, de acordo com um webinar recente da GlobalData, com Patrick O’Brien, diretor de pesquisa de retalho da GlobalData, a atribuir isso ao «entusiasmo pelo futuro».

No entanto, alerta que a história mostra que um impulso pós-eleitoral pode durar pouco, pois o ano pós-eleitoral tende a ser pior do que o ano anterior. «A confiança do consumidor pode estar bem alta, mas os volumes de retalho têm diminuído», destaca Patrick O’Brien. «O novo governo Starmer pode ser capaz de contrariar a tendência, embora seja improvável que tire coelhos da cartola para aumentar os gastos de forma significativa», sustenta.

Oliver Maddison, analista de retalho da GlobalData, concorda e afirma que os efeitos da agenda política trabalhista no retalho provavelmente «levarão tempo a se concretizarem”.

Segundo o Just Style, a vitória trabalhista e o novo governo do Reino Unido apresentam oportunidades e desafios para a indústria de vestuário. No entanto, o verdadeiro impacto dependerá da rapidez e eficácia com que as suas políticas propostas forem implementadas e de como a indústria e os consumidores se adaptarem às mudanças.