O que aconteceu em Atlanta?

As façanhas portuguesas nos têxteis técnicos valeram a travessia do Atlântico, com destino às Américas, rumo à segunda internacionalização (Techtextil Frankfurt: ver notícia PT), sob a chancela da Associação Selectiva Moda (ATP e Anil)/Citeve em parceria com o Icep e integrada no projecto Prime, num certame Techtextil, desta vez o segundo mais importante deste evento de marca da Messe Frankfurt: a Techtextil North America (TNA), que decorreu em Atlanta entre 28 e 30 de Março. A feira de referência dos têxteis técnicos reuniu uma representativa amostra dos mais inventivos têxteis da nossa praça: as microcápsulas com produtos activos como PCMs (materiais com mudança de fase), aromas, repelente de mosquitos ou hidratante aloé vera patenteadas pela Micropólis; as fibras acrílicas tintas, anti-borboto ou repelente de água e sujidade para vestuário e têxteis-lar e as fibras de acrílico de alta tenacidade para geotêxteis, construção civil e filtração da Fisipe; os fios à base de Outlast (regulador de temperatura), Dri-Release com Fresh Guard (secagem rápida e anti-odores) ou Seacell Active (efeitos terapêuticos e anti-microbiano) da António de Almeida & Filhos; as malhas funcionais (gestão de humidade, termorreguladoras, antibacterianas, etc.) da Sidónios Malhas; o fato de ski com membrana de PTFE (politetrafluoretileno) impermeável e respirável produzido pela Coltec, em parceria com a HJN e a Lemar, e os sapatos com interior hidratante ou antifungos, em parceria com a Aerosoles; o vestuário de alta visibilidade, ignífugo ou electro-estático concebido pela Segurvest; e o blusão nICE jacket de aerogel com capacidade de isolamento até temperaturas negativas de 50ºC e fatos noStress com propriedade anti-stress, anti-bacterianas, dermo-protectoras e termorreguladoras desenvolvidos pelo Citeve. Todos produtos com uma característica em comum: a alta performance. Aliás, alta performance é a palavra-chave para vencer, e para vender, no mercado dos têxteis técnicos. O produto por si só não é suficiente. São as mais-valias que encerra que fazem a diferença, que marcam os visitantes que percorrem os stands com olhares ávidos na busca da última inovação. A Techtextil é uma feira de têxteis técnicos, não uma feira de moda. É o desempenho que está em jogo, não a sedução. Tudo isto também para dizer que esta feira exige uma abordagem distinta de uma feira tradicional. Alguns expositores compreenderam-no logo, outros precisaram de errar para poder acertar. É caso para dizer-se que um bom cartaz vale mais do que mil produtos. E neste âmbito os exemplos vieram de onde menos se esperava: dos pavilhões nacionais da China e de Taiwan. Duas participações todavia posicionadas em pólos opostos: o primeiro é mais um transformador de têxteis técnicos, que acertou numa política de comunicação de alta performance sustentada em dezenas de posters distribuídos pelos mais de 20 stands do seu pavilhão nacional em detrimento do produto enquanto que o segundo, sob o leitmotiv Taiwan Functional Textiles, assume plenamente a sua posição de criador de têxteis funcionais, com propriedades anti-bacterianas, anti-estáticas ou de repelência à água e à sujidade. O pavilhão alemão teve uma presença à altura do país dos têxteis técnicos por excelência enquanto que os pavilhões francês e italiano pautaram-se por uma fraca presença, quer em número quer em qualidade. Os restantes pavilhões – a estreante África do Sul e as repetentes Reino Unido, Bélgica e Canadá – tiveram uma participação francamente positiva. No total, foram 10 pavilhões nacionais que estabeleceram um novo recorde, cifrado anteriormente em 6. Esta foi uma feira definitivamente marcada pelos recordes, aliás apanágio desde a sua primeira edição levada a cabo em 2000. Com efeito, a Techtextil North America registou também números recordes quer em expositores quer em visitantes: 329 (2004: 288) e 4.081 (2004: 4.000). Recorde de papers (75) também no Techtextil North America Symposium, paralelo ao certame, que reuniu um vasto público graças à qualidade de oradores como Rita González do US Army Natick Soldier Center, Dennis Schneider da NanoHorizons, William Ware Jr. da Nano-Tex ou Brian Wheeler da Textronics. Este simpósio foi um evento chave já que revelou as mais recentes informações sobre as tecnologias de ponta líderes, e notavelmente o excepcional potencial dos desenvolvimentos à escala nano. Excepcional potencial no mercado americano mostraram também os produtos apresentados pelos expositores portugueses. Em particular por aqueles que estão a montante na cadeia (produtores de fibras, fios e de acabamentos que conferem mais-valias aos produtos). Com efeito, de forma geral, os produtos confeccionados europeus, mesmo nos têxteis técnicos e funcionais, parecem ter maior dificuldade de penetração nos EUA. Uma situação nada surpreendente tendo em conta a deslocalização da confecção para a Ásia e as vantagens geográficas e financeiras da América Latina. Oferta diferenciada é outra vantagem competitiva, tal como sustenta João Silva, responsável de exportação da António de Almeida & Filhos (AAF). «A diversidade de oferta da AAF/Tearfil permitiu-nos ter uma presença positiva na feira, em mercados tão distintos como o sportswear, underwear, têxteis-lar e têxteis para instituições, hospitais e serviços públicos». A Micropolis registou a visita de várias empresas interessadas na aplicação de microcápsulas mais apropriadas para têxteis técnicos, tais como anti-mosquito para têxteis exteriores e mPCM para estofos, mas também de outro tipo de empresas de produtos muitos específicos, tais como produtos têxteis terapêuticos, seja para auxiliar o sono, como a microcápsula de lavanda ou para problemas musculares, caso dos mPCM para ligaduras. «No geral, houve muito interesse nas microcápsulas, e já há contactos posteriores de algumas destas empresas para o fornecimento de primeiras encomendas para ensaios, esperando-se que se sigam encomendas já significativas uma vez concluídos os ensaios», afirma Jaime Rocha Gomes. Em contrapartida, a Sidónios Malhas considera que se trata de uma feira que não se identifica com o mercado-alvo da produtora de malhas e artigos seamless, apesar da sua vasta gama de produtos com características funcionais. No entanto, Carla Faria, comercial da empresa barcelense, enfatiza a importância desta presença in loco para «uma primeira análise ao mercado» e realça «o excelente nível organizacional da iniciativa». A especialista em vestuário profissional e de alta visibilidade Segurvest passou não só o limiar da porta de entrada para o mercado dos EUA como também do Canadá, e até para mercados europeus inexplorados até agora como a Suécia e a Irlanda. «Vamos continuar a marcar presença neste certame», afirma Carlos Alberto Horta, administrador da Segurvest, uma empresa que tinha já participado na Techtextil Frankfurt. «Temos que continuar a lutar para que a presença portuguesa continue a crescer nesta feira, e daqui para o Mundo». Esta opinião é também partilhada por Tiago Gonçalves, responsável de marketing da Fisipe, que se mostra agradavelmente surpreendido com o interesse demonstrado principalmente «pelos canadianos e americanos perante a nossa oferta de fibras, desde as mais tradicionais às mais técnicas. Saímos daqui com a convicção de que a Fisipe é hoje vista não só como uma empresa que produz fibras têxteis mas também como produtora de fibras especiais com valor acrescentado» (ver notícia PT). Para a Coltec, outra das empresas portuguesas que tinha também estado na Techtextil Frankfurt, tratou-se de uma feira que vai de encontro à gama de produtos desenvolvida pela empresa especialista em colagens e laminagens. «Esta participação foi importante não só sob o ponto de vista comercial, mas também para saber onde melhor comprar e estabelecer parcerias eficazes», afirma Paulo Neves, administrador da Coltec. Aliás, este conjunto de empresas nacionais era já antes desta participação um bom exemplo ilustrativo neste domínio: a própria Coltec aplica microcápsulas da Micropolis, que por sua vez também fornece a Sidónios Malhas que utiliza fios, por exemplo, com Dri-release ou Seacell da António de Almeida & Filhos… Para Fernando Merino, director do departamento Têxteis do Futuro do Citeve, esta participação do centro tecnológico na TNA «correu ainda melhor do que a Techtextil Frankfurt, devido à natureza dos próprios projectos apresentados, emboraesta feira tenha menos visitantes [ver notícia PT]. Em particular, houve contactos muito interessantes para a utilização do conceito desenvolvido no nICE jacket pela marinha americana, assim como por parte do grupo Freudenberg». Na qualidade de organizador, Fernando Merino realçou a importância de num certame desta natureza se aparecer como «um país e não como uma empresa individual, que originou inclusive outros convites para outras feiras nos EUA e na China». Por seu lado, o director-geral da ATP alerta que «há penas duas formas de fugir à concorrência internacional: apostando na incorporação de valor através do design e da moda ou apostando na inovação tecnológica». Paulo Vaz acrescenta ainda que «é fundamental a participação neste tipo de feiras de plataforma procurando trazer o maior número de empresas com capacidade para potenciar as suas ideias». Manuel Serrão, infatigável dinamizador da iniciativa, assim como de todas as outras organizadas pela Associação Selectiva Moda (Bread&Butter Berlim e Barcelona, Intertextile Shangai, Première Vision International Shangai, Techtextil Frankfurt, etc.), conclui que «foi gratificante sentir que os organizadores alemães e os compradores americanos ficaram siderados com a qualidade da representação portuguesa». Afinal, há têxteis inteligentes em Portugal!