O que a Presidência Trump significa para os têxteis-lar portugueses?

Sendo o mercado americano o principal destino das exportações portuguesas de roupa de cama, mesa e banho, a política comercial seguida por Donald Trump poderá afetar a indústria lusa. Os empresários estão atentos e, alguns, até otimistas.

Stand da Lameirinho na Heimtextil 2025

Os próximos dias após a tomada de posse de Donald Trump – que acontece hoje às 17h de Lisboa – deverão ser de mudança nos EUA e nas políticas para o comércio internacional do país.

Ainda antes de oficialmente assumir o cargo, Donald Trump foi mencionando algumas medidas que pretende tomar – algumas potencialmente contraditórias –, desde taxas universais de 10% a 20% para todas as importações dos EUA, a tarifas impostas sobre sectores críticos – como a defesa, a saúde e a produção de energia –, passando ainda por tarifas de 25% sobre produtos importados do México e do Canadá e de mais 10% sobre artigos provenientes da China.

As medidas que vão sendo debitadas pelo agora Presidente Trump têm gerado alguma preocupação junto das entidades europeias – o governador do Banco de Portugal, Mário Centeno, por exemplo, alertou para os riscos na UE da aplicação de tarifas no comércio internacional.

Do lado dos empresários, é sobretudo a incerteza que gera alguma preocupação. Durante a feira de têxteis-lar Heimtextil, que decorreu a semana passada em Frankfurt, foram dizendo ao Portugal Têxtil que, embora estejam atentos, não esperam que a entrada de Donald Trump para um segundo mandato vá afetar muito a relação comercial que têm com os EUA.

O mercado americano é, atualmente, o principal destino de exportação dos produtores portugueses de têxteis-lar. No acumulado entre janeiro e novembro de 2024, foram exportados para os EUA mais 20,6% de roupas de cama, mesa, toucador ou cozinha do que em igual período de 2023, equivalente a um aumento de cerca de 18 milhões de euros, para um total de aproximadamente 105 milhões de euros – o que representa quase 20% de todas as exportações deste tipo de artigo.

Empresas aguardam na incerteza

Paulo Coelho Lima

«Este tipo de situação é sempre preocupante e estamos a vivê-la com alguma expectativa. Tudo o que sejam entropias ao nosso negócio é sempre prejudicial. Vamos aguardar, ver o que vai acontecer e agir em conformidade», afirma Paulo Coelho Lima, CEO e membro do conselho de administração da Lameirinho.

Na Sampedro, embora a empresa tenha as vendas distribuídas por 34 mercados, os EUA são o principal destino das exportações e, por isso mesmo, há igualmente alguma cautela. «Todas as mudanças, numa empresa que está estável como a nossa, nos preocupam, ainda mais tratando-se do país para onde vendemos mais», explica Diogo Gomes, administrador da empresa centenária.

Diogo Gomes

No entanto, sublinha, «já trabalhávamos com os EUA no primeiro mandato do Presidente Trump e conseguimos crescer». Em relação às tarifas adicionais, «acreditamos que qualquer tarifa que possamos ter, outros países também terão, nomeadamente os nossos concorrentes asiáticos», refere Diogo Gomes.

Dâmaso Lobo, que há cerca de três anos e meio adquiriu a também centenária Coelima, tem uma visão mais positiva. «Acho que a chegada de Donald Trump pode ser bem-vinda para todos nós, porque estávamos num impasse. Não sei se vai ser melhor, mas acho que é preciso mudar e ver o que vai acontecer», indica o administrador da Coelima, que vende cerca de 25% a 30% da produção para o mercado americano. «Estou confiante que as coisas vão melhorar e estou com expectativas positivas», acrescenta.

Dâmaso Lobo

Da mesma forma, Joana Liberal, diretora comercial da Piubele, dá conta de alguma instabilidade provocada sobretudo por este período de transição, mas não antevê problemas graves. «É natural que o mercado ainda esteja um pouco instável. Mas temos um conjunto de clientes nos EUA há vários anos e eles têm mantido uma certa consistência. Não creio, sinceramente, que nos vá afetar negativamente», antecipa.

Joana Liberal

Luís Ribeiro Fontes, secretário-geral da associação ANIT-Lar, lembra que «o primeiro mandato de Trump não teve medidas que tenham prejudicado a exportação portuguesa e europeia». Aliás, sublinha, «teve até uma medida, logo no início, que eventualmente até foi favorável, quando a Administração Trump não promulgou o Acordo Trans-Pacífico».

A incerteza para este segundo mandato, contudo, é grande. «Creio que nem o próprio estará ainda absolutamente certo do que vai fazer. Sendo sabido que é um negociador nato, muitas das informações que vão surgindo são informações para criar um nível de negociação elevado», acredita Luís Ribeiro Fontes.

Havendo a aplicação de direitos aduaneiros de forma generalizada, o secretário-geral da ANIT-Lar realça que o principal impacto será «o aumento dos preços no mercado americano, o que não estará nos planos do Presidente Trump, porque a sua base de apoio tem exatamente a ver com a questão económica».

Luís Ribeiro Fontes

Os próximos dias deverão trazer alguma luz sobre se, como e quando poderão ser aplicadas novas tarifas e de que forma isso poderá afetar a indústria portuguesa de têxteis-lar. «Para já, ninguém tem informação suficiente, nem mesmo o cliente americano, para poder perspetivar o que vai ser a Administração Trump», conclui Luís Ribeiro Fontes.