«O poliéster é uma fibra extremamente sustentável até aos últimos 5 minutos de vida»

A sucursal portuguesa da Indorama, liderada por Carlos Oliveira, assumiu como missão fornecer produtos e serviços de exceção, mantendo-se atenta às necessidades atuais do mercado, nomeadamente ao nível da sustentabilidade.

Carlos Oliveira

Rebatizada Indorama Ventures Fibers Germany GmbH – Sucursal Portugal no seguimento da reorganização dentro do grupo Indorama Ventures, a filial portuguesa da produtora das fibras, filamentos e PET Trevira está empenhada em fornecer um produto e um serviço excecionais, ao mesmo tempo que responde às necessidades do mercado, com a apresentação de soluções biodegradáveis, funcionais e produzidas com a incorporação de resíduos pré e pós-consumo, revela o diretor-geral Carlos Oliveira.

Qual é atualmente o foco da atividade da Indorama em Portugal?

Lidamos com todos os produtos, de fibras, filamentos e polímeros para diferentes mercados, incluindo os sectores têxtil, automóvel e de higiene, mas temos grande foco num nicho do mercado: poliéster para o sector laneiro. É uma área onde Portugal tem, efetivamente, uma grande preponderância em termos europeus, com empresas de referência.

Que novidades tem no portefólio?

O nosso portefólio, no geral, é o mesmo, mas lançámos, primeiro para o sector laneiro e, mais tarde, iremos também lançar para o sector algodoeiro, fibras novas. Iniciámos há dois anos um aproveitamento do resto das fibras, através de reciclagem mecânica, em que conseguimos fazer um produto final tão bom ou melhor que o produto virgem. O problema, se assim podemos dizer, são as limitações quantitativas: não posso produzir mais do que o desperdício que produzo. É mesmo um nicho, são apenas umas duas centenas de toneladas ao ano. Esta fibra foi tão bem aceite que, hoje em dia, é a número um numa das grandes marcas de homem que existe na Europa.

Como o sucesso foi tanto, passámos para uma fase ainda mais avançada que é uma nova geração de fibras que vai entrar agora no mercado. Além de serem também pré-consumo, em vez de irmos buscar os restos das fibras, fomos buscar as pedras – os resíduos que ficam da extrusão. Juntamos tudo, dividimos em branco e preto e extrudimos para criar uma fibra com características muito especiais para este mercado, que nos dá mais umas centenas de toneladas por ano. Não é muito, mas pelo menos quase dobra a quantidade. Além disso, juntamos uma tecnologia que vai transformar o poliéster em biodegradável. Biodegradável com funcionalidades muitas vezes até superiores a uma lã. Por exemplo, em termos de presença no mar, consegue-se níveis de biodegradação de 90% em cerca de 800 dias, o que é fantástico. Se estiver enterrado no solo, consegue-se 98% em 750 dias. Portanto, vai ser algo que vai mudar um pouco o paradigma que existe em torno das fibras químicas, nomeadamente no poliéster.

Ainda fomos mais longe. Fomos à parte final, ao pós-consumo, onde também vamos introduzir essa tecnologia e para se conseguir chegar às características físicas do poliéster para o sector laneiro, conseguimos fazer um processo com uma modificação molecular que faz baixar determinadas características da fibra e conseguir aquilo que se pretende, que é o chamado low pilling, reciclado e biodegradável, a partir do pós-consumo. Esta fibra entrou no mercado há poucas semanas e é uma verdadeira preciosidade.

Quando é que essa tecnologia deverá chegar à indústria algodoeira?

Já estamos a replicar para a indústria algodoeira com um parceiro muito especial nessa área, que tem tecidos muito especiais, que é a Riopele, super interessada e que está sempre na vanguarda da sustentabilidade. Nas outras áreas, temos uma referência aqui em Portugal, que é a Paulo de Oliveira, que está igualmente na vanguarda destas fibras. Posso falar também de outras empresas que, neste momento, a nível europeu, estão bem introduzidas com esta tecnologia, nomeadamente a FDG – Fiação da Graça, com fios incríveis, super sustentáveis, a Antero Brancal e a Fitecom também. Portanto, só no mercado português, não tenho capacidade para fornecer as necessidades destas fibras, porque é um nicho e com muitas limitações quantitativas. Quando passarmos para o pós-consumo, aí já tenho menores limitações quantitativas.

Quais são as grandes tendências atuais em termos de fibras?

O que mudou foi a exigência no tipo de produto que podemos oferecer. Hoje em dia, toda a gente fala de sustentabilidade e da economia circular. Eu fiz parte de uma das primeiras equipas na Europa a meter garrafas de plástico nas fibras, em 1993. E em 1993 as pessoas olhavam para aquilo como lixo. Só em 2005 é que mudou um pouco a mentalidade e passou a haver uma fixação maior sobre a sustentabilidade e a economia circular, porque até lá era zero. E aquilo que era lixo transformou-se, de repente, em hi-tech. Isto é interessante, porque vem ao encontro de uma filosofia, que sempre defendi, de que é tudo uma questão de mentalidade. Nós lidamos com um produto que dizemos que não presta e, passados uns anos, é uma coisa fabulosa e, passados mais uns anos, já não presta para nada. Então, essa mudança de mentalidades obrigou-nos a mudar e posso dizer que a Trevira, nesse aspeto, é praticamente líder de mercado. Temos feito desenvolvimentos no caso do poliéster, dando-lhe um contexto o mais sustentável possível, dentro do enquadramento atual – toda a gente quer tudo sustentável, mas a maior parte das pessoas nem sabe o que é sustentabilidade.

A sustentabilidade é, então, uma prioridade?

É uma prioridade, mas achar que a sustentabilidade é só ecológica é um erro. Só há sustentabilidade quando existe uma interseção entre a sustentabilidade ecológica, social e económica. O conjunto das três é que permite dizer que estamos numa situação de sustentabilidade. O que é que adianta ser fundamentalista relativamente a uma situação ecológica, se isso vai originar desemprego e falta de meios financeiros para se viver? Isso não é sustentabilidade. A maior parte das pessoas não tem essa noção.

No sector têxtil também não há esse conhecimento?

Há muita falta de conhecimento no sector têxtil. E há, certamente, muita falta de conhecimento relativamente àquilo que se pode fazer a partir de um desperdício, porque há limitações técnicas que as pessoas não fazem a mínima ideia. O cliente não pode só pedir. Tem de ter consciência e tem de saber aquilo de que estamos a falar. É muito complicado passar uma mensagem destas. Por exemplo, falando do plástico, é um problema no mundo, mas a responsabilidade é nossa. Não há nada mais puro em termos de produção do que o plástico – não tem quase produtos secundários, não gasta quase água nenhuma, gasta muita pouca energia, comparado com outros produtos. As pessoas só olham para a parte final. É a diferença entre pegar numa garrafa de plástico e colocá-la no lixo ou mandá-la para o chão. Se mandar para o chão, está a transformar numa coisa má. Se mandar para o lixo, existem inúmeras aplicações. Aliás, até sou contra a utilização de poliéster reciclado para a têxtil, porque existem montes de outras aplicações tecnicamente menos exigentes, onde se pode aplicar esse mesmo plástico. Se existem alternativas para pegar nesse plástico e utilizá-lo em determinado tipo de aplicações que não são tão exigentes, como as fibras para não-tecidos, como a parte de embalagens e outras aplicações em geral, para quê fazer filamentos contínuos ou fios a partir de garrafas que é extremamente complicado e onde não posso garantir determinados índices físicos e químicos.

O ciclo de vida do produto é que é importante. Posso ter um produto que é muito bom no final, mas a sua produção ser uma coisa bastante nociva. Por exemplo, o algodão que tem propriedades extraordinárias, mas que, tem um ciclo de produção exigente e pouco sustentável. Poucas pessoas falam disso. Nem todas as fibras naturais são boas. Há, efetivamente, fibras naturais extraordinárias, mas há outras que não o são.

As chamadas fibras de nova geração podem ser uma boa alternativa?

Claro que podem, mas aí vamos entrar noutra discussão: as pessoas não querem pagar a sustentabilidade. A sustentabilidade tem um custo que ninguém quer. A Trevira é líder mundial na produção de PLA, um ácido poliláctico, um biopolímero, que é biodegradável. Só que é caro. E as pessoas não querem pagar porque o mercado final não paga. Existem boas alternativas. Os biopolímeros, que incluem as fibras de cascas de frutos, por exemplo, são boas alternativas, mas limitadas e caras. Estamos num caminho que eu considero positivo, mas ainda muito longe de se conseguir resultados palpáveis.

Mas é possível?

Quero acreditar que sim. Eu quero acreditar nesta nova geração, que às vezes é um bocado fundamentalista e tem muita falta de informação, mas que tem ideais muito válidas que temos de aplaudir, mas têm de se informar mais e melhor. Quando digo que o poliéster é uma fibra extremamente pura até aos últimos 5 minutos de vida, sei o que é que estou a dizer. Por isso é que muitas entidades retiraram da classificação de sustentabilidade a biodegradabilidade. Quando dizem, por exemplo, que o algodão ou a lã são biodegradáveis, na verdade tudo é biodegradável. Depende das condições. Há papiros de algodão com 10 mil anos que não se biodegradaram.

Hoje em dia, a Indorama é a maior produtora de rPET [polietileno tereftalato reciclado] do mundo, produz cerca de 750 mil toneladas e quer duplicar a capacidade. Parece muito, e efetivamente é, mas não dá para nada. Uma fábrica de embalagens da Coca-Cola gasta 10 mil toneladas/mês. Se eles mudarem tudo para rPET, uma fábrica gasta 100 mil toneladas/ano.

E no que diz respeito à qualidade, nomeadamente para as fibras para têxteis?

Hoje em dia fala-se muito da reciclagem do têxtil para o têxtil. Acho isso fantástico e acho que é um bom caminho, mas a mentalidade da moda vai ter de mudar. Eu não consigo fazer uma camisa com a mesma qualidade com desperdício têxtil. É impossível.  Por exemplo, não consigo fazer uma fibra de alta tenacidade. O mercado tem que aceitar. É possível ter uma utilização final de desperdícios, de garrafas, seja do que for, mas na sua maioria não vai ser igual à dos produtos virgem.

Onde é que a Indorama produz atualmente?

Temos duas fábricas de fibras na Europa, uma em Bobingen, na Alemanha, e outra a Wellman na Irlanda, e temos três de filamentos: uma na Alemanha, em Guben, outra em Itália e uma terceira na Bulgária. Temos uma produção de 100 mil toneladas de fibras na Alemanha e mais 20 mil toneladas de filamentos.

As exportações portuguesas têm baixado e há uma redução da atividade. Tem sentido esse abrandamento?

Desde fevereiro deste ano que se nota um abrandamento substancial e, em determinadas áreas, esse abrandamento até se tem vindo a acentuar, sobretudo em tudo o que diz respeito a coisas mais básicas. Mas era previsível. Os têxteis-lar, por exemplo, faturaram como nunca durante a pandemia, as pessoas estavam em casa sem fazer nada e compraram. Tinha de haver um abrandamento. Em cima disso temos o aumento de custo de vida, que já se vinha a verificar. As pessoas têm menos dinheiro e, quando se tem menos dinheiro, a primeira coisa que se faz é reduzir os custos. E, infelizmente, a têxtil é das primeiras a sofrer. Quando há necessidade de comprar alguma coisa, compra-se o mais barato. Acha que alguém vai estar preocupado com a sustentabilidade? Infelizmente, repito, infelizmente a resposta é, maioritariamente não.

Como é que têm evoluído a procura dos produtos da Indorama, nomeadamente face à concorrência?

Cada vez é mais difícil. Quanto mais um produto se aproxima do básico, mais difícil é competir. Está-se a notar isso muito no sector automóvel, onde os asiáticos oferecem produtos similares de qualidade muito inferior, mas os preços também são muito diferentes. E isso é uma tentação para quem está no mercado, que acaba a testar esses produtos para tentar reduzir custos. É um sofrimento diário para nós, porque temos todos os dias de estar a competir também com injustiças, porque esses fornecedores não têm as certificações que nos pedem. As pessoas não têm noção dos custos das certificações numa empresa hoje em dia. E quando compram na Ásia, não querem saber de nada. A culpa, além de ser dos próprios clientes, que têm um peso e duas medidas, também é dos nossos governantes europeus, porque a Europa abre as portas a tudo e todos e ninguém nos protege. É de uma injustiça tremenda.

Em termos de volume de negócios desta sucursal, que serve também Marrocos e Espanha, como tem evoluído?

O volume de negócios tem-se mantido relativamente estável, varia mais de acordo com a mudança de preço do que propriamente com a mudança de quantidade. Também não há muito espaço para crescer, porque já temos uma quota de mercado de 95% em termos de clientes que podemos fornecer diretamente. No sector laneiro, devemos ter uns 90%. Nos outros sectores, podíamos crescer canibalizando outros fornecedores, o que não é fácil, porque vamos depois entrar numa guerra de preços. A Indorama não é uma empresa que tenha um produto barato, porque estamos sediados num ambiente onde tudo é caro. A mão de obra é cara, a energia é caríssima, porque a energia ajustou, mas na Alemanha não ajustou muito para a indústria. Não é fácil. Portanto, temos de oferecer um produto e um serviço realmente premium para conseguir estar no mercado em algumas áreas.

Quais os objetivos e ambições da sucursal portuguesa a curto, médio e longo prazo?

Nesta fase só quero estabilizar todas estas modificações que existem. Houve uma mudança muito grande de mentalidades. Temos de lidar, muitas vezes, com pessoas que estão a iniciar a carreira e que não têm muito conhecimento sobre o mercado. Tem que se lhes dar tempo e apoio. O objetivo da sucursal é continuar a prestar uma qualidade e um serviço premium, porque não posso oferecer um preço baixo. Acho que o mercado ainda valoriza muito isso e esse é o nosso objetivo. O enquadramento da sucursal no mundo da Indorama até agora é fantástico, mas só o tempo dirá relativamente ao resto, porque tudo muda muito rapidamente em todas as áreas e temos de nos ir adaptando continuamente.