O Grande Erro

Em 1998 havia três feiras na Escandinávia – em Copenhaga, Oslo e Estocolmo -, o que obrigava os visitantes estrangeiros a deslocar-se três vezes para cobrir este mercado, e aos expositores a prepararem-se três vezes. Este problema foi resolvido com o reconhecimento da Ciff como a Feira dos países nórdicos em Fevereiro de 2001, sendo Copenhaga a «porta natural» destes mercados, nas palavras de Peter Sabroe, director da Ciff. A razão prende-se com o facto da capital da Dinamarca ser uma cidade central desta região, relativamente ao resto do continente europeu, e reconhecidamente aprazível e acolhedora. Mas em conjuntura de crise os sentimentos unionistas podem colidir com os nacionalistas, e em vez de se estabelecer um trade off de cedências, pode dar lugar a uma autonomização. A intenção do fortalecimento da feira Milano Única em detrimento da consolidação europeia da Première Vision é uma prova deste facto. Entrevistado por um jornal da especialidade espanhol, o director desta última salientava que era uma pena que na Europa, quando os países se viam em dificuldades, olhassem mais para o seu umbigo em vez de fortalecerem a cooperação. Na opinião de empresários que conhecem aquelas paragens e têm falado com o PortugalTêxtil (PT), a Suécia é reconhecida por estar neste momento na vanguarda da moda, quer na óptica que quem cria e produz, quer de quem consome, um epíteto que pertencia à Dinamarca, e quer voltar a ter a sua feira. Para melhor conhecer esta realidade, e aconselhar as empresas nacionais que estão agora a entrar naqueles mercados, (também com a ajuda das iniciativas de internacionalização da Anivec/Apiv), o PT teve uma breve conversa com Peter Sabroe… PortugalTêxtil (PT) – Fala-se na renovação que a Suécia está a fazer do seu ModeCenter, transformando-o num showroom mais selectivo, e até numa segunda fase, voltar a ter uma feira na Stockholm Fashion Week, o que podia significar o fim da hegemonia de Copenhaga como «porta natural» da Escandinávia. Qual é o seu comentário? Peter Sabroe (PS) – È um grande erro. Em primeiro lugar é preciso recordar que a maioria dos visitantes das três antigas feiras deste região eram dinamarqueses, e continua a ser quem mais visita agora a CIFF. Em segundo lugar, criámos em Copenhaga um ambiente que não se vê em mais nenhuma cidade da região, com todos os organismos, culturais e institucionais orientados para a Semana da Moda. Em terceiro lugar, estamos com condições de acesso inigualáveis: estamos (BellaCenter) muito perto do Aeroporto, muito perto do centro da cidade, e com transportes frequentes para todo o lado. Temos até melhores condições do que na Alemanha. Para além disso, é barato voar para Copenhaga, mais barato até do que voar para a Suécia. E há ainda uma outra questão: há neste momento cerca de 250 retalhistas no ModeCenter. Se eles vão tornar o showroom mais selectivo, para onde vão os outros? PT- Mas talvez não seja a única ameaça à hegemonia da Ciff, pois também tem aqui a equivalente à Bread&Butter alemã, a CPH Vision… PS- Sim, é mais uma feira, privada como nós, e não me parece ser um bom sintoma o seu director não estar a colaborar connosco. Eu propus-lhe um shuttle directo para lá, para haver mais proximidade entre as duas feiras e ele não respondeu. Ganhávamos mais os dois se trabalhássemos juntos… PT- uma das questões que se falou nesta 26ª edição da Ciff foi as poucas visitas que os expositores portugueses tiveram de visitantes que não vão apenas directamente aos stands que lhes interessam. Ora, se era a primeira vez, estavam um pouco dependentes desse tipo de visitantes, não lhe parece? PS- É verdade que há uma certa timidez e frieza na primeira abordagem dos nórdicos. Os portugueses têm de ter paciência e insistir, e ver como hão-de atrair os visitantes. O ambiente aqui é completamente diferente do dos países do Sul, como em Itália, por exemplo, onde eles nem têm de sair do stand, e por vezes nem se levantam da cadeira. Os visitantes vão lá ao stand e fazem uma grande festa, e ficam lá a conversar. Aqui não, têm de investir mais. E outro conselho que dou é colocarem os expositores à frente do local onde estão os empresários, e não atrás, pois é precisamente a timidez deste povos que os impede de verem as colecções se para isso tiverem que falar primeiro com as pessoas. PT – Há mais algum reparo que queira acrescentar? PS – Sim, que não se conseguem resultados logo à primeira. PT – Também houve algumas queixas relativas à localização, que podia ser melhor. PS – Foi o melhor que conseguimos arranjar na data em que soubemos quem vinha, que foi muito tarde. Tem de haver um melhor planeamento. O ideal até era as empresas que querem estar cá na próxima edição marcarem já connosco no final desta edição. PT – As maiores queixas vieram da parte de criança, na Ciff Kids. Não será este segmento que não tem mercado, e reflecte-se nos visitantes? PS- Não. Este segmento está em franco crescimento desde há alguns anos, basta ver pelo retalho na cidade, que está a crescer como nunca. As empresas portuguesas que marquem já, pois já temos grandes listas de espera. E vão ver que se apostarem sustentadamente durante algumas edições, os resultados começam a aparecer.