O génio de Amancio Ortega

Amancio Ortega, o homem mais rico – e o mais discreto – de Espanha, ascendeu à décima-oitava posição na classificação anual elaborada pela revista americana Forbes dos homens mais ricos do mundo de 2003, elevando-se o seu património a 8,6 mil milhões de euros. Um posição ainda mais importante se se tiver em conta que em 2002 ocupava o vigésimo-quinto lugar, e em 2001 apenas o quadragésimo-terceiro. Esta classificação é liderada, pela sexta vez consecutiva, por William H. Gates III, vulgo Bill Gates, com 33,9 mil milhões de euros. O primeiro português nesta classificação é António Champalimaud, que ocupa a 303ª posição, com 1,17 mil milhões de euros. Nada mal para quem começou como moço de recados, e tornou-se no dono de um império têxtil que dá pelo nome de Inditex. O homem que se recusa a usar gravata e prefere as calças jeans ampliou hoje os seus investimentos a outros sectores além do têxtil, como a hotelaria – é o principal accionista dos hotéis NH -, a energia – Fenosa e Iberdrola -, a banca – Banco Gallego e Fondos Galicia -, o sector automóvel – concessionários da Audi, Mitsubishi, Porche e Toyota -, o desporto – Deportivo de la Coruña -, os media -Antena 3 Televisión -, o imobiliário e até as auto-estradas – em 2002 entrou no capital da portuguesa Brisa, para apenas citar alguns. Quem com ele trabalha, reconhece-lhe uma intuição e uma criatividade extraordinárias, uma grande capacidade de delegar e de responsabilizar cada indivíduo, uma entrega total ao grupo e uma invulgar capacidade de escuta. E quanto a defeitos, apontam uma ambição desmedida, que não se traduz em vaidade pessoal, mas sim na obstinação em colocar a Inditex no pódio empresarial, e uma tendência exacerbada para fomentar a competição no seio da sua equipa. Mas se há um rasgo que destacam no carácter de Amancio Ortega é a sua aversão ao termo exclusividade. Jamais permite que os seus desenhadores e comerciais anteponham os seus interesses pessoais aos da empresa. O egoísmo comercial tão característico das marcas de luxo não tem lugar em Sabón, o polígono industrial onde a Inditex tem o seu quartel-general, numa extensão equivalente a 47 campos de futebol. Para os homens de negócios, Amancio Ortega representa o clássico protótipo do empresário judeu (como um Rotschild ou um Rockefeller), um homem que se fez a si mesmo, que construiu um império a partir do nada graças ao seu talento e esforço, que hoje é a terceira potência têxtil do mundo, a seguir à americana Gap e à sueca H&M. Este homem, de aspecto físico anódino, aportou à cultura empresarial mundial uma visão democrática desconhecida até ao momento. Longe da ostentação, dos ícones do luxo e da vida social – evita ser fotografado e não concede entrevistas -, Amancio Ortega refugia-se na normalidade, um caso raro num homem tão fora do comum.