O elevado custo do livre comércio nos têxteis – Parte III

Publicado no just-style.com, o presente estudo foi elaborado pela empresa de consultadoria Apparel Solutions. Defendendo o livre comércio de têxteis e de vestuário, ao longo das três partes que o compõem, este estudo aborda as questões comerciais da actualidade mantendo uma atitude crítica à abordagem adoptada pelos Estados Unidos da América (EUA) e a União Europeia (UE), que estão a impor aos países menos desenvolvidos «o elevado custo do livre comércio nos têxteis».

Ver Parte I  e Parte II do estudo.

Partilhar responsabilidades

Os países desenvolvidos devem partilhar alguma responsabilidade em relação aos países em desenvolvimento aos quais têm recorrido durante anos para aceder à mão-de-obra barata. Muitos países em desenvolvimento melhoraram as suas infra-estruturas com as receitas externas e também desenvolveram indústrias de mão-de-obra intensiva capazes de gerar muitos postos de trabalho, o que por sua vez ajuda a combater a pobreza.

Impulsionados pelo acesso ao mercado externo, os sectores têxtil e de vestuário desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento da Ásia Oriental, inicialmente em Hong Kong, Singapura, Taiwan, Coreia do Sul e Malásia e mais recentemente na China, Indonésia, Tailândia e Vietname.

Por exemplo, um quarto de milhão de cambojanos trabalham na indústria de vestuário e mais de um quarto de milhão da população trabalha em sectores de actividade associados. Os trabalhadores são fundamentalmente mulheres originárias de zonas rurais. Os salários que enviam para casa sustentam 20% do total da população de um país composto por 13 milhões de habitantes.

As exportações de vestuário do Cambodja cresceram ao longo da última década dos 26 milhões de dólares em 1995 para 1,6 mil milhões de dólares em 2004 e são actualmente responsáveis por cerca de 80% das exportações de mercadorias do país. A maior parte das empresas pertence a proprietários estrangeiros fundamentalmente da China, Hong Kong, Taiwan e Coreia do Sul.

Toda a produção de vestuário é vendida para exportação, principalmente para os EUA que compram cerca de dois terços das exportações do Cambodja e para a UE que compra a grande parte do restante. Cerca de um terço do vestuário exportado do Cambodja é fabricado para uma marca específica, The Gap.

Todas estas questões tornam o Cambodja extremamente vulnerável a qualquer mudança nas políticas mundiais de compra.

Em 2003, as exportações de têxteis e de vestuário agregadas foram responsáveis por mais de 80% do total das mercadorias exportadas em países como Cambodja, Haiti, Bangladesh e Macau (China); 70% no Paquistão e Lesoto; e 50% a 60% nas Maurícias, Sri Lanca e Nepal.

Em outros cinco países, estas exportações foram responsáveis por mais de um terço do total de mercadorias exportadas, nomeadamente no caso de Marrocos, Albânia, Tunísia, Laos e República Dominicana.

A vantagem da China

A China, com o seu vasto acesso à mão-de-obra, significativa capacidade produtiva de têxteis, eficientes empresas de confecção e uma infra-estrutura logística bem desenvolvida, conseguiu significativos ganhos de exportação logo nos primeiros meses de eliminação das quotas alfandegárias.

Durante os sete primeiros meses de 2005, as exportações chinesas de têxteis e de vestuário foram valorizadas em 61,5 mil milhões de dólares, evidenciando um crescimento de 21,4% em relação às importações que aumentaram 1,3%, cifrando-se nos 9,75 mil milhões de dólares. As exportações de vestuário para a Europa aumentaram 71% e para os Estados Unidos aumentaram 86% durante o período de Janeiro a Julho.

As exportações de têxteis foram valorizadas em 22,8 mil milhões de dólares, evidenciando uma subida de 22,8% em relação a igual período de 2004, enquanto que as exportações de vestuário cifraram-se nos 38,7 mil milhões de dólares, evidenciando um crescimento de 20,5%. No âmbito das exportações de vestuário, os artigos em malha registaram um crescimento de 17,7% e os artigos em tecido registaram um crescimento de 23,5%.

Beneficiários a curto prazo

Existem muitos factores para além das quotas que determinam a localização da produção de têxteis e de vestuário, mas a maior parte das análises sugerem que à medida que o processo de eliminação das quotas vai amadurecendo, a sua eliminação vai trazer vantagens a curto prazo para apenas alguns países em desenvolvimento identificados como bases de produção e exportação.

Características típicas destes locais são a capacidade de produzir um conjunto diversificado de produtos têxteis e de vestuário, capacidade de englobar os diversos processos produtivos, acesso a matérias de elevada qualidade a um preço competitivo, e as competências necessárias para o fabrico de produtos com elevado valor acrescentado. Nesta medida, a China e a Índia, assim como diversos países asiáticos, encontram-se numa posição privilegiada para responder a estes critérios.

Os acordos comerciais vão também afectar a localização da produção de têxteis e de vestuário, no entanto, esta influência deve ser vista em paralelo com a necessidade de estar próximo dos mercados para responder às necessidades de segundas séries de produção.

Esta questão vai dar oportunidades a países no Norte de África, América Latina e Caraíbas para desenvolverem o seu papel como bases de exportação para os mercados norte-americano e comunitário.

As preferências ao nível das taxas aduaneiras tendem a ser eliminadas e modificadas ao longo do tempo e a importância da proximidade geográfica deve ser analisada em paralelo com a capacidade de gerir o processo global de produção e distribuição.

Em termos de exportações de têxteis e de vestuário para os EUA durante o primeiro semestre de 2005, os beneficiários, para além da China, incluem: Índia (aumento nas exportações de 29,98%, cifrado em 531,57 milhões de dólares), Bangladesh (aumento nas exportações de 21,48%, cifrado em 195,75 milhões de dólares), Paquistão (aumento nas exportações de 10,92%, cifrado em 130,13 milhões de dólares), Indonésia (aumento nas exportações de 13,77%, cifrado em 173,2 milhões de dólares), Sri Lanca (aumento nas exportações de 16,26%, cifrado em 113,63 milhões de dólares) e Jordânia (aumento nas exportações de 23,81%, cifrado em 93,55 milhões de dólares).

Os países que registaram as maiores quebras nas exportações de têxteis e de vestuário para os EUA foram: Hong Kong (quebra nas exportações de 25,94%, cifrada em 410,80 milhões de dólares), México (quebra nas exportações de 4,24%, cifrada em 161,37 milhões de dólares), Coréia do Sul (quebra nas exportações de 23,87%, cifrada em 283,17 milhões de dólares), Rússia (quebra nas exportações de 71,92%, cifrada em 124,2 milhões de dólares), Taiwan (quebra nas exportações de 20,70%, cifrada em 193,9 milhões de dólares) e Canadá (quebra nas exportações de 7,17%, cifrada em 113,46 milhões de dólares).

Entre os meses de Janeiro e Junho de 2005, as importações norte-americanas de têxteis e de vestuário da África Subsaariana registaram a primeira quebra desde a implementação do AGOA em Maio de 2000.

Os dados preliminares para os primeiros seis meses do ano mostram uma quebra de 8,35% nas importações de vestuário com origem em África relativamente a igual período de 2004. Esta quebra nas importações foi registada durante o período de Março a Junho, com os dados relativos a Janeiro e Fevereiro de 2005 a indicarem um ligeiro aumento nas importações.

Este atraso nos efeitos não é de estranhar, pois como aconteceu com as importações originárias da China, registou-se um atraso nos efeitos sentidos com a eliminação das quotas no dia 1 de Janeiro de 2005, devido fundamentalmente ao tempo necessário para o transporte marítimo das mercadorias.

Beneficiários do período pós-quotas

Para além da China, os beneficiários do período pós-quotas para o mercado comunitário durante os cinco primeiros meses do ano incluem o Irão (aumento de 40% nas exportações), Bangladesh (aumento de 27,27% nas exportações), Rússia (aumento de 24,17% nas exportações), Índia (aumento de 17,57% nas exportações), Brasil (aumento de 16,18% nas exportações), Bósnia Herzegovina e Sérvia e Moldova (aumento de 15,53% nas exportações).

Entre os prejudicados encontram-se a Síria (quebra de 17,86% nas exportações), Paquistão (quebra de 8,0% nas exportações), Indonésia (quebra de 7,41% nas exportações), Marrocos (quebra de 6,72% nas exportações), Roménia (quebra de 5,78% nas exportações) e Turquia (quebra de 4,08% nas exportações).

Ainda restringido pelas quotas alfandegárias, na medida em que não é um membro da OMC, encontra-se o Vietname. No entanto, de acordo com os dados divulgados para o primeiro semestre do ano, as suas exportações de têxteis e de vestuário para a UE e os EUA registaram uma subida de 3,6% e 0,4% para os 348 milhões de dólares e os 1,1 mil milhões de dólares, respectivamente.