Novos desafios e oportunidades no negócio da moda

Em 2023, a indústria da moda terá de enfrentar a inflação ao mesmo tempo que encontra oportunidades na mudança dos padrões de consumo, de canal e nas estratégias de marketing digital, além das diferentes abordagens à produção.

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O estudo The State of Fashion 2023, realizado pelo Business of Fashion em parceria com a consultora McKinsey, revela que depois de 18 meses de forte crescimento, entre o início de 2021 e meados de 2022, a indústria da moda está novamente a enfrentar um clima adverso. A hiperinflação e a diminuição da confiança do consumidor já resultaram na queda das taxas de crescimento no segundo semestre de 2022 e os autores do The State of Fashion antecipam que o abrandamento deverá continuar ao longo de 2023.

Contudo, destacam, muitos players da indústria estão numa posição mais forte do que estavam há um ano, já que a indústria da moda registou um aumento de 21% no volume de negócios em 2020/2021 e as margens brutas de lucro duplicaram para 12,3%.

Olhando para o futuro, o sector do luxo vai ter uma performance melhor do que o resto da indústria, numa altura em que os consumidores mais abastados continuam a viajar e a gastar, assim como a manter-se mais apartados dos efeitos da inflação. Com base na análise da McKinsey das previsões de moda, o sector do luxo deverá crescer entre 5% e 10% em 2023, impulsionado por um forte dinamismo na China (que deverá subir entre 9% e 14%) e nos EUA (que deverá aumentar entre 5% e 10%). A Europa, por outro lado, está sob pressão devido às taxas de câmbio e uma crise energética crescente, que deverão resultar num modesto crescimento das vendas para o sector do luxo (entre 3% e 8%).

[©Louis Vuitton]
O mercado da moda, excluindo o sector do luxo, terá dificuldade em conseguir um crescimento significativo em 2023. Uma análise da McKinsey das previsões da moda projeta um aumento das vendas relativamente lento, de -2% a 3%, afetado pela contração no mercado europeu (que deverá encolher entre 1% e 4%). A China e os EUA deverão ter resultados melhores, com crescimentos entre 2% e 7% e entre 1% e 6%, respetivamente. «Estas previsões refletem a inflação e são calculadas em moeda local, o que significa que o impacto real para o sector pode ser mais negativo do que estes números sugerem», salientam os autores.

Inflação preocupa

De acordo com os resultados do inquérito realizado para o The State of Fashion, a inflação está no topo das preocupações dos empresários e executivos em 2023. A expectativa é que a inflação reduza a procura do consumidor, levando os compradores a reduzirem as suas aquisições de moda ou a comprarem artigos mais baratos à medida que as contas da energia e do supermercado sobem. As empresas da moda também antecipam que a inflação vai aumentar os seus custos, com 97% dos executivos a anteciparem um aumento dos gastos em 2023. Os preços do algodão e da caxemira, por exemplo, subiram 45% e 30% em termos anuais, respetivamente.

Os líderes da indústria da moda irão igualmente estar atentos às notícias nos próximos meses, uma vez que as incertezas macroeconómicas e políticas continuam a obstaculizar as operações e a escalar os riscos de reputação. A guerra na Ucrânia é de grande preocupação para a indústria, tendo já interrompido vias de comércio e espoletado uma crise energética que vai continuar a ter impacto. Na China, novos surtos de covid-19 e a crise do imobiliário estão a afetar a trajetória de crescimento do país, assim como as cadeias de aprovisionamento. Ao mesmo tempo, fenómenos climáticos extremos estão a impactar as cadeias de aprovisionamento de matérias-primas e de vestuário na Ásia.

Este cenário económico está a refletir-se cada vez mais nos hábitos de compras dos consumidores e a indústria da moda espera que a procura enfraqueça ou, pelo menos, seja imprevisível em 2023. «Antecipamos que as diferenças entre os hábitos de consumo das famílias com baixos e elevados rendimentos sejam mais acentuadas, à medida que os consumidores atentos aos custos provavelmente reduzem ou compram mais barato», referem os autores, acrescentando que os consumidores de bens de luxo irão, provavelmente, continuar a gastar muito como têm feito, sem sofrerem o impacto do abrandamento económico.

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