Alguns países estão só agora a descobrir o mercado de vestuário
Quando os produtores ocidentais deslocalizaram entre 1990 e 2004, poucos países ficaram por ocupar. Com a excepção de alguns muito pequenos, remotos ou com sérios distúrbios sociais, uma mão cheia de países relativamente grandes perderam o barco por numerosas de razões, especialmente o Uzbequistão (segundo maior produtor mundial de algodão), Brasil, Argentina, Etiópia, Rússia e Nigéria. Todos estão agora a tentar conquistar a fatia do negócio em que muitos outros países se saíram tão bem. A distância do Uzbequistão dos mercados mundiais mais importantes e os fracos sistemas de comunicação fazem o plano do país de investir 1,2 mil milhões de dólares na fiação, tecelagem e produção de vestuário até 2007 soar um pouco a propaganda comunista bombástica. Na verdade esta expressão é uma boa descrição de muita da política pouco ponderada do partido que rege o país no momento. Grande parte dos players turcos mais relevantes como a Ay Demir, Baytex, Tashkaya e Chetinkaya estão a trabalhar para desenvolver uma estrutura organizada e direccionada para o mercado, mesmo que outras das várias joint-ventures de que o governo se regozija não tenham qualquer experiência em gerir negócios de produção. A indústria têxtil e de vestuário da Argentina também anunciou a sua intenção de investir 1,1 mil milhões de dólares em novo equipamento nos próximos cinco anos. A Etiópia (com uma população de 73 milhões) tem uma vantagem extraordinária até agora escondida. Tem uma boa área de plantação de algodão, acesso livre de impostos aos EUA e à UE e uma quantidade de empresas têxteis e de vestuário surpreendentemente grande. Contudo, essas fábricas têm vindo a deteriorar-se nos últimos 20 anos e as peças de vestuário fabricadas na Etiópia precisam de ser feitas a partir de tecidos locais para desfrutar das actuais concessões de impostos da UE, assim como da América dentro de alguns anos. A maquinaria precisa de ser renovada e para isso está a contar com a ajuda do governo italiano com quem tem cooperado. A Rússia teve um desempenho muito negativo no sector do vestuário a nível mundial. A sua fatia de importações de países ricos teve o seu auge nos 5 por cento de 2003, menos de um terço da Roménia, país com cerca de um décimo da população da Rússia. O fim das quotas reduziu ainda mais essa fatia passando esta a situar-se em 0,1 por cento nos primeiros seis meses deste ano. Esta situação não demoveu os investidores russos. A Alliance Russian Textile contribuiu com mais de 100 milhões de dólares nos últimos três anos, enquanto a Yakovlevsky Textile lançou acções no valor de 35 milhões de dólares em Outubro para co-financiar um programa de expansão na ordem dos 52 milhões de dólares. A mudança das regras de comércio empurrou a deslocalização para países de baixo custo O Brasil tem um número significativo de empresas têxteis e de vestuário bem sucedidas e um recorde irrisório de vendas de vestuário fora das suas fronteiras, tendo conquistado uma fatia de 0,15 por cento de importações dos países ricos nos primeiros seis meses de 2005, quase a mesma percentagem da Etiópia. No entanto, estas empresas reconhecem que existem mercados importantes nos quais não estão presentes. A Vicunha Têxtil está a averiguar quais dos países vizinhos nortenhos têm, ou estão a negociar, acordos de livre comércio com os EUA e em quais deveria estar a investir, existindo rumores na imprensa que está a tentar adquirir a empresa colombiana Fibratolima. A Santista tem planos para uma fábrica na Guatemala no valor de 100 milhões de dólares para tirar vantagem das concessões do CAFTA. A Coteminas já tem uma empresa de toalhas na Argentina e está a procurar outras localizações no país para uma fábrica de lençóis estimada em 20 milhões de dólares. Estes eram os planos antes de ter acordado fundir o seu ramo de têxteis-lar com a Americas Springs, dirigindo o negócio no valor de 2 mil milhões de dólares a partir do Brasil, mas a produção continua a ter lugar em 34 fábricas nos EUA, México, Canadá, Brasil e Argentina. Aumentar a capacidade de produção em países de tarifas baixas vai quase sem dúvida ganhar mais importância uma vez que os EUA estão a alargar o número de países com quem têm acordos de livre comércio. A Nien Hsing de Taiwan reafirmou os seus planos de investir 100 milhões de dólares na Nicarágua (mais uma vez explorando as concessões do CAFTA) e a Tai Yuen através da sua recente aquisição de terrenos para a plantação de algodão em Moçambique tem a oportunidade de acesso livre de impostos tanto à UE como aos EUA, mesmo considerando as mudanças mais severas nas regras de elegibilidade. Os trabalhadores estão a desaparecer nos países mais improváveis Muitos analistas esperavam que os custos da Lituânia fossem subir depois de o país ter acedido à UE em Maio de 2004. Mas o que se verificou foi um acontecimento totalmente diferente. Com salários mais elevados na Inglaterra, Irlanda e Suécia do que no país natal, muitos jovens decidiram tirar vantagem do livre acesso aos países membros da União e ao direito de trabalhar nos mesmo, deixando as empresas do país com falta de trabalhadores. Na Roménia, que ainda não faz parte da UE, mas que está lentamente a adaptar-se às condições de trabalho da União como preparação para a sua entrada em 2007, as empresas têm vindo a afirmar que para muitos trabalhadores tirar a licença de maternidade é agora mais lucrativo do que ir trabalhar. Em muitos países da Europa central, a combinação entre a valorização da moeda e a falta de trabalhadores está a tornar-se numa ameaça maior do que a competição chinesa. Alguns países simplesmente não estão interessados em investir na China Empresas de Taiwan (e em menor dimensão da Malásia e da Coreia) continuam a ser investidores importantes na produção de têxteis e de vestuário da África e da América Central. Contudo, no último ano, têm vindo a aumentar o seu investimento no sudoeste asiático, deixando muitas vezes para trás a China continental e encerrando as suas actividades em Taiwan. A Makalot planeia duplicar o seu fornecimento provindo do Vietaname em 2006, implementando uma fábrica própria no país, a juntar às suas fábricas do Cambodja, Filipinas, El Salvador e Indonésia. A Nan Woei, actualmente com operações no México e na Suazilândia, também tornou público os seus planos de fixar a produção no Vietname. A Roo Hsing aumentou as suas encomendas a fornecedores da Tailândia, Vietname, Cambodja e Filipinas. Porquê tão pouco ênfase na China continental? Bem, muitos homens de negócios de Taiwan acreditam que ninguém empobreceu por ter exagerado na probabilidade de a América ou a UE voltaram a impor restrições ao livre comércio. Como resultado, pensam que é prudente trabalhar presumindo que ainda se vão verificar mais restrições à China depois de 2007. Existe também uma razão histórica: muitos cidadãos de Taiwan estão a trabalhar e a viver nas condições que estão porque os seus antecessores foram desalojados pelo mesmo governo comunista que agora está no poder na China continental, o qual não tolera qualquer tipo de oposição. Estão compreensivelmente relutantes em arriscar os bens da sua família em favor do governo. Este não é um receio apenas da população de Taiwan. «Os investidores japoneses estão a tentar contrabalançar os riscos da China», afirmou o vice-presidente da Federação Têxtil Japonesa, Masaki Sakurai, quando explicou como a crescente tensão política entre o Japão e a China estava a fazer com que muitas empresas japonesas procurassem fornecedores alternativos. Este receio, para além da suspeita que os compradores americanos pssam expulsar os japoneses da China, explica porque as importações de vestuário do Japão oriundas da China cresceram apenas 0,8 por cento em volume no primeiro semestre deste ano, enquanto registaram um acréscimo de 14 por cento do Vietname, 15 por cento da Turquia, 24 por cento do Paquistão e 74 por cento da Índia. Qual será então o próximo paraíso de produção? Em todo o mundo, os fornecedores estão a ser atingidos por seis novos factores chave:· a crescente atracção de mercados que apresentam um desenvolvimento rápido nos países em desenvolvimento;
· a desvalorização já não constitui uma opção em muitos dos países pobres, ao mesmo tempo que muitos governos desses países querem manter boas relações com a China;
· algumas empresas bem sucedidas e bem estruturadas estão a construir instalações de produção em países inócuos à primeira deslocalização;
· outras empresas de sucesso estão a construir instalações em países com vantagens tarifárias;
· sentimento generalizado de falta de trabalhadores;
· as empresas da Ásia do leste não confiam totalmente na China continental e estão a investir e a abastecer-se noutros locais dentro da região como forma de precaver.
O denominador comum em todos estes factores é que os fornecedores estão a tornar-se mais importantes do que os países. Virtualmente, todos os desenvolvimentos mais interessantes a ter lugar nos países que não eram fornecedores de renome até ao momento estão, por exemplo, a ser realizados pelo crescente número de negócios de multinacionais. Não existe o local perfeito para fabricar vestuário. Em qualquer altura pode haver um determinado fornecedor que responde às necessidades específicas de um cliente para uma certa peça de vestuário melhor do que qualquer outro. Mas, o local onde esse fornecedor fabrica o produto pode mudar de mês para mês. A lição mais importante a tirar dos altos e baixos verificados no último ano é que não vai existir um novo país à espera de ser descoberto. O que é necessário é que os compradores tenham cada vez mais conhecimento e consciência das capacidades dos 250.000 fornecedores emergentes a nível mundial.











