Nova cadeia de fornecimento exige novas estratégias? – Parte 1

Neste estudo reflecte-se sobre seis assuntos com os quais quem opera no sector do vestuário tem actualmente de lidar, sendo o factor comum a importância cada vez maior dos fornecedores. Grande parte dos analistas assumiu que com o final das quotas no início deste ano a produção de vestuário iria gravitar em torno de um menor número de países. No entanto, muitos produtores chineses previram antes do início deste ano que a situação seria bem mais complexa. Independentemente do que os propagandistas chineses possam ter trazido a público, os homens de negócios adaptaram as suas operações para serem capazes de enfrentar todas as situações possíveis.

Como é que a China está a reagir à mudança?

A Luen Thai, a maior empresa de vestuário cotada na bolsa de Hong Kong, anunciou em meados de 2004 que iria aumentar a produção em Hong Kong e Macau durante 2005 para fazer face às quotas que previa que os EUA e UE voltassem rapidamente a impor ao vestuário chinês. Investiu também quantias consideráveis no desenvolvimento de “cidades de fornecimento” na China continental e mantém as suas fábricas em Espanha, Guam, Filipinas, Cambodja, Vietname, Coreia do Sul e mesmo nos EUA. Actualmente a Luen Thai, dominada pelas suas fábricas espanholas que podem vender aos EUA sem restrições como impostos de importação ou quotas, é uma empresa chinesa incondicionalmente livre no estrangeiro.

As operações multinacionais estão nos genes da empresa. Mas mesmo os produtores mais tradicionais de vestuário chineses da China continental reconheceram há muito que o mundo livre de quotas não se resumiria apenas a um simples cenário de fábricas chinesas, retirando o resto do mundo do panorama do negócio do vestuário.

A China Worldbest começou no início desta época um processo massivo de investimento na Tailândia, investindo 150 milhões de dólares em fábricas de fios, têxteis-lar e outros. Também possui fábricas têxteis no México, Nigéria, Tajiquistão e Kazaquistão e em Setembro, a empresa anunciou a intenção de ainda este ano aumentar o seu investimento na Tailândia. A China Worldbest sente-se particularmente atraída pela alta probabilidade de acordos de livre comércio entre os EUA e a Tailândia.

A Jiangsu Guotai mudou a produção de categorias de vestuário recentemente restringidas para filiais no Bangladesh e Sri Lanka, em vez de esperar que os seus clientes europeus e americanos o fizessem por si próprios.

A Tianjin Textile não se mudou para o exterior apenas por causa do caos temporário das quotas de salvaguarda chinesas. O vice-presidente, Huang Jun, citou recentemente problemas de custos na China como base da decisão da empresa de estabelecer linhas de produção de vestuário na Mongólia e no Egipto. O vice-presidente salientou que algumas das 11 subsidiárias do grupo carecem de metade dos trabalhadores que necessitam. As matérias-primas na China estão mais caras, os preços das fibras não-naturais subiram 10 por cento, enquanto a média dos preços de exportação chineses no vestuário para os EUA e UE caíram 30 por cento.  A desvalorização do Yuan fez diminuir as margens dos produtores chineses e reduziu as suas dívidas cobráveis de um momento para o outro. «As grandes empresas sobrevivem, mas as pequenas e médias enfrentam a bancarrota», acrescentou Jun.

Como está o resto do mundo a reagir à mudança

É necessário relembrar que a abolição das quotas não é o único desafio a que os produtores mundiais de vestuário têm de responder. Quando se observa os maiores produtores, o panorama observado parece indicar que o fim das quotas foi uma influência surpreendentemente fraca numa altura em que os negócios deparam com seis problemas possivelmente de maior dimensão.

O mercado está a crescer mais rapidamente fora da Europa e da América

A abolição das quotas fazia crer que surgiriam muitas oportunidades para a Índia, mas o que se tem verificado é muito mais do que uma grande oportunidade. Em muitos países que estão a desenvolver-se rapidamente e de rendimentos baixos, a indústria nacional de vestuário está a crescer a taxas de 25 por cento e mais por ano. Na Índia, para além disto, estão a ter lugar outros acontecimentos.

Os indianos que compram pronto-a-vestir são raros, mesmo entre os mais abastados, e os saris dominam o vestuário feminino em grande parte do país. Uma grande proporção de outro tipo de vestuário é produzida em casa ou por um alfaiate local. Em alguns círculos culturais a fatia de vestuário ocidental está a crescer. No entanto, enquanto em muitos países em desenvolvimento os retalhistas ocidentais como a Wal-Mart, Tesco ou Carrefour estão a introduzir vestuário de marca própria no mercado geral, na Índia as leis sobre o investimento estrangeiro estão a fechar as portas a essas cadeias.

Deste modo, muito homens de negócios indianos enfrentam o que parecer ser uma escolha simples. Podem competir nos escritórios de compras da Gap e Marks & Spencer com milhares de potenciais compradores de vários países do mundo por uma fatia do vestuário ocidental, ou podem explorar o seu mercado local em crescimento, melhor compreendido por eles e algumas centenas de concorrentes indianos e onde é muito difícil para um não-indiano estabelecer um negócio e onde uma legislação proteccionista mantém afastados os investidores estrangeiros.

Os têxteis e vestuário têm sido considerados pelas comunidades de investimento indianas como indústrias muito interessantes, o que nos últimos dois anos facilitou a obtenção de dinheiro através de OPVs, tendo a expansão têxtil em mente. Muito desse dinheiro tem sido utilizado para criar estruturas no país: cadeias de retalho, orçamentos de marketing para marcas de retalho, equipamento de produção ou joint-ventures com retalhistas de vestuário estrangeiros com franchisings na Índia. Mesmo um produtor estrangeiro como a Triumph, que anunciou recentemente a construção da sua décima sétima fábrica de roupa interior a nível mundial no Chennai, planeia vender 20 por cento da produção da sua nova fábrica na Índia.

É óbvio que exportadores líder indianos como a Orient Craft, Gokuldas Exports, Creative Group e outros continuam a fazer planos para aumentar a exportação, enquanto um número de produtores de tecidos ou fios já reconhecidos como o Chiripal Group, Suryalakshmi Cotton Mills, S Kumars Nationwide e Banswara Syntex anunciaram planos de mudar para a produção de vestuário.

A atracção das vendas locais tem sido um factor importante na forma como os exportadores indianos reagiram à abolição das quotas. A Clothesource Price Trak mostra que os preços do vestuário indiano para o ocidente quase não mudaram de ano para ano, facto que para alguns mostra o bom senso dos produtores indianos. Na verdade, as suas exportações de vestuário foram surpreendentemente irregulares. As importações para a UE e EUA de saias indianas cresceram acentuadamente elevando a fatia da Índia de saias para países ricos dos 4,3 em 2004 para 15, 3 por cento. O preço médio das saias indianas para a UE subiu 22 por cento devido à moda destas saias. Contudo, grande parte de outros preços sofreu uma queda muito acentuada (t-shirts indianas foram 23 por cento mais baratas) resultando na diminuição massiva das margens de exportação, enquanto os ganhos do mercado interno melhoraram muito significativamente.

Este afastamento da concentração nas exportações foi bastante visível na região EuroMed, onde empresas como a Secuiana (Roménia), Le Petit Poussin (Marrocos) e Prochnik (Polónia) são exemplos recentes de exportadores outrora bem sucedidos que estão agora a afastar-se da exportações, sobretudo no que diz respeito a marcas de retalho europeias e a desenvolver uma marca de vestuário própria comercializada através dos seus outlets locais.

A desvalorização deixou de ser uma opção

Então como é que a África do Sul lida com esta situação? Este país é o exemplo extremo dos negócios que têm problemas bem maiores com que se preocupar do que com as quotas, mas não é o único país nesta situação.

Muitos dos principais países exportadores de vestuário de rendimentos baixos foram ajudados, durante os anos 90 e nos anos iniciais desta época, por uma tendência generalizada para se afastar dos problemas reduzindo constantemente o valor da sua moeda nos mercados mundiais, e tornando assim as suas exportações mais baratas.

Contudo, um número surpreendente de produtores de vestuário viram, nos últimos dois anos, a sua moeda fortalecer-se nos mercados mundiais. Isto afectou negativamente a África do Sul, mas a Turquia e a Roménia também assistiram à valorização das suas moedas. E mesmo países como a China, que simplesmente mantiveram a sua moeda estável para fazer face ao dólar nos anos 90, estão agora a registar uma valorização que  encarece as exportações.

A pressão sobre os produtores locais é ainda agravada com o aumento das importações oriundas da China, importações essas que muitos dos países mais pobres como a África do Sul e o Brasil estão relutantes em controlar, porque acreditam veemente que a forte cooperação comercial com a China é essencial em muitos outros sectores da economia.

Na segunda parte deste artigo serão analisados os seguintes pontos:

·         como alguns países estão a descobrir o mercado do vestuário;

·         como a alteração das regras de comércio forçou a deslocalização para países de baixo custo;

·          o fenómeno da emigração dos trabalhadores;

·          como alguns países não querem investir na China;

·          qual será o próximo paraíso de produção?