Norte de África com potencial para fornecer vestuário com algodão reciclado

Um estudo destaca a capacidade do Egito, Marrocos e Tunísia responderem à crescente procura de vestuário sustentável por parte de empresas ocidentais de moda.

Tunísia [©FTTH]

Um estudo recente, realizado por Sheng Lu, professor do Departamento de Estudos de Moda e Vestuário da Universidade do Delaware, e Emilie Delaye, assistente de investigação no mesmo departamento, aponta para o significativo potencial do Egito, Marrocos e Tunísia como bases de aprovisionamento para vestuário feito a partir de algodão reciclado. No entanto, para que essa viabilidade seja alcançada em larga escala, será necessário um conjunto de avanços.

Num artigo que publicaram no Just Style, os investigadores, que analisaram milhares de produtos vendidos no retalho entre janeiro de 2022 e abril de 2024, afirmam que «as empresas de moda estão a vender cada vez mais vestuário feito com materiais têxteis reciclados e a procurar bases de adicionais de aprovisionamento» para responder à crescente procura dos consumidores.

Atualmente, apontam, embora a Ásia seja o maior exportador mundial de vestuário feito de fibras virgens, esse domínio não se verifica necessariamente em relação ao vestuário produzido com algodão reciclado, devido à composição única da cadeia de aprovisionamento desses produtos. Além disso, referem, as preocupações crescentes com os riscos de trabalho forçado na cadeia de aprovisionamento de vestuário na Ásia têm levado as empresas de moda a diversificar o sourcing para outras regiões do mundo.

Os países norte-africanos, incluindo Egito, Marrocos e Tunísia, têm uma longa história na produção e exportação de vestuário de algodão. O seu estatuto de “países em desenvolvimento” e a participação em acordos comerciais, como o African Growth and Opportunity Act (AGOA) e o Acordo de Associação UE-Mediterrâneo, permitem que os produtos de vestuário desses países usufruam de benefícios aduaneiros preferenciais nos principais mercados de importação do mundo. «A indústria do vestuário de algodão também desempenhou um papel fundamental na promoção do crescimento económico local nestes três países. Portanto, é essencial capitalizar o vestuário de algodão reciclado e as “exportações verdes” para promover ainda mais o desenvolvimento económico na região», destacam os investigadores.

Zara lidera

Informações de sites das principais empresas de moda nos EUA e na UE mostram que Egito, Marrocos e Tunísia têm gradualmente aumentado as suas exportações de vestuário de algodão reciclado desde 2022. Em 2023, estima-se que cerca de 1.300 unidades de stock (SKUs) de vestuário com algodão reciclado provenientes desses três países tenham sido colocadas nos mercados retalhistas dos EUA e da UE, um aumento substancial em comparação com apenas 150 SKUs em 2022. Nos primeiros quatro meses de 2024, o vestuário com algodão reciclado terá representado 10,2% do total de vestuário de algodão exportado para os mercados dos EUA e da UE, um aumento significativo em comparação com 1,1% em 2022.

Entre janeiro de 2022 e abril de 2024, a marca Zara, do grupo Inditex, foi a retalhista que mais comercializou vestuário com algodão reciclado proveniente do Egito, Marrocos e Tunísia. Outras marcas conhecidas, como a Calvin Klein, a Tommy Hilfiger, a Mud Jeans e a Spartoo, também venderam artigos deste tipo. «No entanto, continua a ser relativamente menos prevalente para as pequenas e médias empresas e para aquelas que visam principalmente os segmentos de mercado de luxo ou premium terem vestuário de algodão reciclado destes três países», indicam Sheng Lu e Emilie Delaye.

A análise de aproximadamente 13.000 SKUs de vestuário feito nesses três países entre janeiro de 2022 e abril de 2024 revelou que o vestuário com algodão reciclado teve como destino 49 países, refletindo a procura global por esses produtos. No entanto, o mercado de exportação para vestuário com algodão reciclado foi menos diversificado em comparação com o vestuário de algodão convencional.

A UE foi o principal mercado de exportação para o vestuário com algodão reciclado desses países, representando 65% do total das exportações, em comparação com 59,4% do vestuário de algodão virgem. Estes números, realçam, «podem ser atribuídos à cadeia de aprovisionamento e ao processo único de fabrico de vestuário utilizando algodão reciclado, tornando os produtores do Egito, Marrocos e Tunísia mais inclinados a estabelecer parcerias com a UE na produção e nas vendas. Além disso, a concentração no mercado da UE pode oferecer aos produtores do Egito, de Marrocos e da Tunísia mais vantagens na promoção do conceito de “local ou local” e no controlo dos custos de recolha, triagem, transporte e processamento de resíduos têxteis, em comparação com outros países mais distantes geograficamente, como os Estados Unidos e a Ásia».

Avanços necessários

Em termos de produtos, os dados recolhidos sugerem que o Egito, Marrocos e a Tunísia se concentraram em categorias de produtos de vestuário com algodão reciclado diferentes daquelas feitas de algodão virgem. Especificamente, entre a amostra, o vestuário com algodão reciclado concentrou-se particularmente nas partes de baixo (52,9%), seguidas das partes de cima que não t-shirts (23,8%). Seguem-se as t-shirts (apenas 7,9%, enquanto a quota no vestuário feito com algodão convencional é de quase 30%) e vestuário exterior (7,5%, em comparação com 3,8%). Já categorias específicas de produtos, como roupa interior e meias, raramente utilizam algodão reciclado. «Provavelmente, as preocupações com a qualidade e durabilidade e a dificuldade de absorver custos de produção mais elevados tornam a utilização de algodão reciclado para estas categorias relativamente simples mais desafiadora», justificam.

O vestuário feito de algodão reciclado nesses países frequentemente menciona atributos de sustentabilidade, com uma participação mais alta em programas de certificação como o Recycled Claim Standard (RCS), que verifica o conteúdo reciclado e acompanha o produto desde a origem até ao final.

Apesar das limitações técnicas das fibras recicladas, que geralmente são mais curtas e de menor qualidade, a produção de vestuário com algodão reciclado tem aumentado, embora muitas vezes em combinação com algodão virgem ou outras fibras para garantir a durabilidade e suavidade dos tecidos.

«O estudo demonstra o potencial significativo do Egito, Marrocos e Tunísia como bases de aprovisionamento de vestuário feito de algodão reciclado para empresas ocidentais de moda. Podem ser feitos mais esforços para evoluir técnicas para melhorar a qualidade da fibra de algodão reciclada, diversificar a sua utilização em categorias de produtos, reduzir os custos de produção e aumentar ainda mais o valor acrescentado do vestuário que utiliza fibra reciclada. Além disso, explorar o apoio político para fornecer incentivos financeiros à produção, comercialização e consumo de vestuário de algodão reciclado, em oposição aos fabricados a partir de fibras virgens, pode aumentar ainda mais a viabilidade e a atratividade do algodão reciclado no mercado mundial da moda», concluem os autores.