NFT, cripto na moda

Se já é possível comprar um Tesla e pagar em bitcoin e El Salvador foi o primeiro país introduzir oficialmente esta moeda na sua economia, é mais do que natural que a moda criptográfica tenha despertado. Pagar dinheiro real por roupa virtual é agora realidade, mas será este o futuro do retalho?

[©Auroboros]

Quando a Decentraland, uma plataforma de realidade virtual 3D, anunciou em junho que os utilizadores podiam fazer e vender as próprias roupas para os avatares usarem no website, Hiroto Kai ficou acordado a noite toda a desenhar vestuário de inspiração nipónica.

Ao vender quimonos por cerca de 140 dólares (118,5 dólares), o criativo revelou ter ganho entre 15 mil a 20 mil dólares em apenas três semanas, o que indica que as pessoas se importam efetivamente com aquilo que os avatares estão a vestir.

Ainda que a ideia de gastar dinheiro real em roupa que não existe fisicamente seja desconcertante para muitos, os bens materiais geram vendas reais no metaverso, ambiente online onde as pessoas se podem reunir, passear, encontrar amigos e jogar.

Na realidade, Hiroto Kai é o nome artístico do criativo digital de 23 anos, Noah, que mora em New Hampshire. Depois de perceber que nessas três semanas conseguiu ganhar mais do que conseguiria a trabalhar um ano na loja de música, demitiu-se e tornou-se designer a tempo inteiro.

«Foi uma nova forma de expressão e é uma arte ambulante, isto é tão interessante… Quando tens uma peça de vestuário, podes ir a uma festa com ela, dançar com ela, podes exibir-te e é um símbolo de status», afirma à Reuters.

[©Decentraland]
Na Decentraland, as roupas para os avatares são conhecidas como “wearables” e podem ser compradas e vendidas em blockchain na forma de um ativo criptográfico denominado token não fungível (NFT).

Os NFTs surgiram no início do ano, à medida que os especuladores e os entusiastas das criptos se juntaram para comprar um novo tipo de ativo que representa a propriedade de artigos somente online, nomeadamente arte digital, cartões comerciais e terrenos no mundo online.

Esta nova vertente está a chamar a atenção de algumas das maiores empresas de moda do mundo, ávidas por se associarem a uma nova geração de jogadores, ainda que a maior parte dos investimentos realizados até à data tenha sido na área de marketing.

A Louis Vuitton, por exemplo, lançou um jogo metaverso onde os jogadores podem recolher NFTs e a Burberry criou acessórios NFT para o Blankos Block Party, um jogo da Mythical Games.

«O teu avatar representa quem és. Basicamente, o que estás a vestir é o que te torna naquilo que és», explica Imani McEwan, modelo de moda de Miami e entusiasta do NFT, que revela já ter gasto entre 15 mil a 16 mil dólares em 70 artigos vestíveis NFT desde janeiro com os lucros angariados no investimento feito em criptomoedas.

Futuro do retalho

O tamanho geral do mercado de wearables NFT é difícil de estabelecer, no entanto, apenas na Decentralad, o volume de vendas de wearables chegou aos 750 mil dólares no primeiro semestre de 2021, comparativamente com os 267 mil dólares registados no mesmo período do ano passado, segundo os dados do NonFungible.com, um website que monitoriza o mercado NFT.

Perante este cenário, há mesmo quem acredite que as compras no mundo virtual possam ser o futuro do retalho.

«Em vez de fazer scroll por um feed e fazer compras online, pode ter-se uma experiência de marca mais envolvente ao explorar um espaço virtual – quer esteja a comprar para o avatar online ou produtos físicos que podem ser entregues à porta», considera Julia Schwartz, diretora da Republic Realm, uma agência de investimento imobiliário virtual de 10 milhões de dólares que construiu um centro comercial de realidade virtual na plataforma.

[©RTFK]
Para os utilizadores do NFT, a moda online não substitui as compras físicas, mas Paula Sello e Alissa Aulbekova, cofundadoras da startup de moda digital Auroboros, acreditam que pode ser uma alternativa ecológica à fast fashion. Na Auroboros, os clientes podem escolher uma fotografia de si próprios e adicionar vestuário digitalmente por um valor entre 60 libras (83 dólares) a mil libras.

Paula Sello avança ainda que este conceito de vestuário virtual pode limitar o desperdício dos consumidores que compram roupa somente para usar nas redes sociais, de acordo com um estudo de 2018 da Barclaycard, que descobriu que 9% dos consumidores britânicos compraram vestuário para tirar fotos para as redes sociais e depois devolveram-no.

A empresa de ténis virtual RTFKT vende NFTs de edição limitada, representando ténis que podem ser “usados” no mundo virtual ou nas redes sociais através de um filtro do Snapchat. «Arrancou quando o covid começou e muitas pessoas ficaram mais online», esclarece Steven Vasilev, cofundador e CEO da RTFKT.

A empresa atingiu sete milhões de dólares em vendas, com ténis de edição limitada a ser vendidos por 10 a 60 mil dólares em leilões, indica Vasilev, salientando que apesar da maioria dos clientes ter entre 20 e 30 anos, alguns têm apenas 15 anos.

Os NFTs da RTFKT também podem ser usados ​para obter uma versão física gratuita de calçado, mas um em cada 20 clientes não aproveita essa oportunidade.