Não subestimem o Brasil»

«A Cedro é uma das fábricas de denim mais modernas do Brasil», afirma o seu director, Francisco G. Batista Cavalcanti, percorrendo os corredores que separam os teares. No último ano, a empresa investiu 21,6 milhões de euros e anualmente produz mais de 140 milhões de metros de tecido, em cinco fábricas,gastando aproximadamente 42.000 toneladas de algodão. Cerca de 3.000 trabalhadores asseguram a produção contínua, 24 horas por dia e 365 dias por ano. A fábrica está situada em Sete Lagoas, uma pequena cidade do estado deMinas Gerais. Quer se trate de produtores de tecidos como a Cedro, Santana, Santanense, Coteminas e Vicunha Têxtil, ou de produtores de fios como a Paramount Têxteis e Têxtil Bezerra de Menezes (TBM), em todos os casos se encontra directores como Francisco Batista Cavalcanti que, com todo o orgulho, mostram as várias fases de produção das suas fábricas- desde a abertura do algodão até à inspecção dos rolos de tecido. As empresas investiram muito nos últimos anos. A capacidade de produção foi significativamente alargada e os produtores prepararam-se convenientemente para o futuro. A indústria têxtil brasileira cresce. No último ano o volume de negócios relativo a têxteis deste país sul-americano subiu 3,5 por cento, atingindo 26 mil milhões de dólares. Nos anos 90 foram investidos 10 mil milhões de dólares e até 2010 este investimento deverá aumentar em 8 mil milhões de dólares, de acordo com a ABIT (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção). «Os brasileiros são frequentemente subestimados como produtores têxteis. A nível mundial somos o sexto maior produtor têxtil. Mais de 30.000 empresas empregam cerca de 1,5 milhões de pessoas», afirma Fernando Pimental, presidente da ABIT. A indústria têxtil brasileira tem uma tradição centenária. Thomas Dieslich, director da sucursal europeia da Vicunha, afirma que muitos têm uma imagem errada do Brasil. «O Brasil é muitas vezes incluído no grupo de países como o Bangladesh, Índia ou China. Eu prefiro comparar a nossa indústria têxtil à da Turquia», afirma o director nascido no Brasil. Na feira têxtil Fenatec (São Paulo) é possível observar os diferentes segmentos de mercado. Os cinco pilares da indústria têxtil brasileira são os fios, sobretudo de algodão, as malhas, os tecidosdenim, os têxteis-lar e os tecidos para vestuário de praia. O Brasil é o quinto maior país, com 185 milhões de habitantes. Devido à grande dimensão do mercado interno, os produtores brasileiros nunca dependeram muito das exportações, mas agora existe um grande interesse de crescer a nível externo. Nos últimos cinco anos as exportações conquistaram um peso significativo. As exportações têxteis subiram 69 por cento entre 2001 e 2004 e, no caso do vestuário, a taxa de crescimento situa-se nos 24 por cento. Estes resultados correspondem a um volume de negócios total de exportações de 2,1 mil milhões de dólares. Os principais países de destino são os vizinhos sul-americanos, EUA e Ásia. A fatia de exportações correspondente à Europa é, comparativamente, diminuta. No ano transacto, as exportações de têxteis e vestuário cresceram mais 24 por cento, situando-se nos 2,6 mil milhões de dólares. No entanto, o crescimento não foi o esperado devido àvalorização damoeda do país, tal como revela Fernando Pimentel. Para fazer face à inflação, o banco central aumentou as taxas de juro em 20 por cento. O valor do real subiu causando o aumento dos preços dos artigos brasileiros no exterior. O mais surpreendente é que as exportações voltaram a crescer. Esta tendência dever-se-á manter, mesmo que os juros voltem a baixar, o que já foi previsto por vários analistas. A economia brasileira pode ter boas hipóteses reservadas. Depois de crises internas, oscilações das taxas de câmbio e de um abrandamento dos investimentos num passado recente, os mercados financeiros permaneceram calmos em 2005. A valorização do Real é apontada por alguns analistas como uma possibilidade de consolidação da economia brasileira e de um aumento da confiança, tanto do mercado interno como externo. O governo estima para 2006 um crescimento da economia mais forte do que o registado em 2005 e prevê uma subida do PIB de cerca de 5 por cento. Para aumentar ainda mais as exportações a ABIT elaborou o programa Texbrasil, cujo objectivo é reforçar a presença de produtos brasileiros no estrangeiro. A associação vai ajudar as empresas brasileiras a penetrar em mercados estrangeiros e compradores estrangeiros vão ser convidados a visitar feiras brasileiras. Grande parte dos responsáveis das empresas desloca-se regularmente à Alemanha ou Suiça para se manter informado sobre as mais recentes tecnologias a nível de maquinaria. A Europa revela-se interessante não só pela sua maquinaria têxtil, mas também pelo seu desenvolvimento em termos de moda. «Nós informamo-nos sobre o mercado europeu, sobre o que lá acontece», afirma Verónica Perdigão, directora da empresaespecialistaem denim Santana. Todas as épocas, uma pequena equipa viaja até à Europa sendo obrigatória uma visita à Bread & Butter de Berlim. Os maiores produtores brasileiros estão, desde há algumas épocas, presentes como expositores na Texworld e na Première Vision. A empresa com mais ligações à Europa é a Vicunha, estando activa neste mercado há cerca de 25 anos. O ano de 2003 foi o ano de fundação da Vicunha Europa, na Suiça. A empresa tem também um armazém próprio em Roterdão. Contudo, a Vicunha é inquestionavelmente uma excepção. O número de empresas brasileiras com uma relação tão estreita com a Europa é muito reduzido. Apoiados nos vento favoráveis que agitam o mercado interno, os brasileiros podem criar a sua rede de trabalho no estrangeiro paulatinamente. Não têm pressa. Contudo, o presidente da ABIT tem pressa e presume mesmo que as exportações têxteis até 2008 cresçam até aos 4 mil milhões de dólares. Fernando Pimentel não tem dúvidas: «o Brasil tem grandes hipóteses na concorrência internacional».