«Não é o reciclado que se tem de ajustar ao cliente, é o cliente que tem de se ajustar ao reciclado»

As diferenças entre as fibras virgens e as recicladas começam a ser cada vez mais aceites pelos clientes, garante Miguel Silva, CEO da Sasia, uma empresa que há 70 anos trabalha na reciclagem mecânica de têxteis e que tem feito investimentos para melhorar a qualidade das fibras que saem das suas instalações.

Miguel Silva

A aposta na qualidade e em nichos de mercado tem dado frutos, tanto em Portugal como nos mercados externos, com a Sasia, que celebrou sete décadas de atividade no ano passado, a expandir-se cada vez mais. Depois de um forte crescimento em 2022, o CEO da produtora de fibras recicladas, que se mostra crítico aos apoios do PRR para quem está apenas a chegar ao mercado, acredita que 2023 será um ano mais difícil, sobretudo por fatores conjunturais, mas pretende dar continuidade ao investimento dentro de portas, nomeadamente na reciclagem pós-consumo, e na consolidação do negócio.

Como vê o desenvolvimento que as fibras recicladas têm evidenciado, nomeadamente nos diversos sectores de atividade da Sasia, que abrange da moda à construção, passando pelo automóvel?

O reciclado tem evoluído ao longo dos tempos, a nível de materiais, a nível de aplicações. Estamos a tentar tirar o máximo possível do reciclado para desenvolver materiais de mais qualidade. Isso tudo implica ter nova maquinaria, ter inovações, ter investigação, porque, neste momento, o consumidor exige produtos reciclados, produtos sustentáveis e amigos do ambiente e as grandes marcas são obrigadas a procurar esses materiais. Daí termos sido mais solicitados para esse tipo de produtos, porque o consumidor assim o exige. Claro que temos de tentar criar materiais diferentes e diferenciados, com mais qualidade do que fazíamos há uns anos, porque o mercado também exige qualidade. O reciclado tem de ser sinónimo de qualidade, não pode ser só reciclado, não é uma fibra de segunda. O que tentamos é reciclar de maneira a que as fibras fiquem com a mesma resistência, o mesmo comprimento, para no final ter o toque do material virgem. No final, é a qualidade que conta. Não é dizer que é reciclado, primeiro é a qualidade, que se iguale ao material virgem, que se iguale àquilo que o consumidor necessita.

Hoje considera que uma fibra reciclada, em matéria de performance, está ao mesmo nível de uma fibra virgem?

Não, não tem a mesma qualidade. Há sempre uma diferença, um artigo virgem será sempre diferente de um artigo reciclado. Neste momento, com as novas tecnologias e as novas maquinarias que existem a nível de reciclagem, já se está a aproximar muito de um artigo virgem. Agora, um não vai substituir o outro em qualidade. Cada um tem o seu lugar no mercado.

Como assimilam os clientes essas diferenças em termos de desempenho e de preço?

Inicialmente, há uns dois ou três anos, quando muitas empresas começaram a consumir mais o reciclado, havia a ideia de que o reciclado era um material com um preço muito inferior, mas que a qualidade era igual à matéria virgem. Isso foi-se esbatendo ao longo dos tempos, porque o reciclado, como é reciclado, tem as suas barreiras e os seus custos. Trabalhar um artigo reciclado é tão ou mais caro do que trabalhar um artigo virgem e isso foi um bocado difícil as pessoas entenderem. Mas penso que agora, com a informação que há, com o conhecimento, com o tempo, estão a acompanhar e a chegar à conclusão de que o reciclado tem de ser mais caro, porque tem outras dificuldades no processamento do material e tem de acompanhar os preços do mercado e não pensar que por ser reciclado é mais barato. Porque isso é um engano puro. Não se pode querer sustentabilidade e um artigo reciclado e pagar mais barato – é um contrassenso incrível. O mercado está a ajustar-se à fibra reciclada e está a estudar produtos nos quais possa aplicar esses tipos de materiais. Não é o reciclado que se tem de ajustar ao cliente, é o cliente que tem de se ajustar ao reciclado, isto é, o cliente com o reciclado tem de estudar, dentro de portas, seja para que segmento for, aquilo que pode fazer com ele.

Como têm progredido as áreas de negócio onde a Sasia opera?

Trabalhamos com vários mercados. Um dos mercados que teve, nos últimos dois ou três anos, um grande crescimento foi o mercado da construção, do isolamento. Depois tivemos outros mercados: o do vestuário, o do geotêxtil tecido e não-tecido, que é um mercado também muito importante… O nosso foco é tentar estar em todos os mercados, porque a nossa polivalência é a nossa defesa. Quando uns mercados sobem e outros descem, estamos sempre equilibrados, porque são mercados com aplicações completamente diferentes e, por isso, é que temos de ter sempre uma grande capacidade de stock de materiais, temos de ter máquinas de qualidade e com muita inovação e diferentes entre elas, para cada uma trabalhar para mercados diferentes. Depois tentamos estar sempre na exportação, que representa 80%, porque a exportação sempre foi a nossa preocupação. Nunca abandonar o mercado português, claro, porque é o nosso mercado, mas sempre com a visão lá fora.

Quais são os principais mercados geográficos?

O nosso mercado principal é a Europa, pode representar à volta de 50% a 60%, e vai continuar a ser. Depois temos outros mercados como a África e a América Latina. Estamos divididos em segmentos de mercado e países diferentes.

Há novos mercados debaixo de olho?

Sim, temos sempre novos mercados, somos contactados diariamente por clientes estrangeiros a solicitarem as nossas fibras recicladas. Neste momento, estamos um bocado em quase todas as áreas do globo. Mas o foco principal da reciclagem, neste momento, porque estamos já muito avançados, é o pós-consumo. O pós-consumo é que vai ser o escalar de quantidades e é um desafio muito grande, porque há muitas barreiras a ultrapassar, tanto na reciclabilidade, como depois na aplicação dessas fibras. Não estamos a falar em nichos de mercados, estamos a falar em grandes quantidades. Para isso, o eco-design é essencial porque, se não nos preocuparmos com isso, a peça no final vai ser muito difícil de reciclar. Não se pode continuar a fazer peças com oito ou nove fibras – o ideal é fazer com uma ou duas fibras por peça e mesmo a nível de cores, de estampados, temos de reduzir, porque se estamos preocupados com a reciclabilidade do pós-consumo, temos de olhar logo de início o eco-design.

No geral, que balanço faz de 2022?

O ano de 2022, para a maioria das empresas, começou bem. Foi o ano em que conseguimos vencer o covid, digamos assim. No final, quando se pensava que íamos todos terminar o ano em grande, houve o problema da Ucrânia. Esse problema da Ucrânia é terrível, porque limitou muito a nível de preços – foram os transportes, a eletricidade, o gás, a inflação – e isso vai impedir que as pessoas tenham poder de compra para fazer a sua vida normal. Está a notar-se uma recessão no poder de compra das pessoas que se vai tornar, principalmente no início de 2023, um pouco problemático se não houver nenhuma mudança estrutural. Neste momento, as notícias não são nada animadoras, mas temos de ter sempre a esperança, temos de continuar e temos de fazer artigos diferenciados e ir para o mercado. Vamos acabar o ano com sete milhões de euros de volume de negócios – em 2021, registámos cinco milhões de euros. Foi um ano extra pelo aumento dos preços, pelos investimentos que fizemos – e continuámos a fazer investimentos grandes em tecnologia e em inovação – e isso deu-nos mais qualidade, porque não somos uma empresa de quantidade. Sempre foi o nosso foco, e vai continuar a ser, tentar ir a nichos de mercado e fazer materiais de valor acrescentado. Os investimentos que efetuámos este ano também nos permitiram estar noutros mercados e desenvolver outro tipo de materiais, diferenciados, o que levou ao aumento de faturação.

O que mudou dentro da empresa com a instalação dos novos equipamentos inseridos no projeto de investimento de cerca de 10 milhões de euros que se deverá prolongar até 2025?

A nova máquina permitiu-nos ir para outros mercados, fazer artigos com qualidade mais diferenciada, continuar na linha da frente a nível de reciclagem, porque é a única máquina que há no mercado – foi a primeira máquina fabricada pelo grupo Andritz Laroche. Depois, como somos os únicos na reciclagem têxtil em Portugal com a certificação ISO 9001, isso deu-nos uma abertura para mercados diferentes. Claro que tudo isso dá muito trabalho, o pessoal internamente tem muito mérito, mas sem esse investimento, sem essa inovação, sem a certificação, incluindo a GRS, que para nós é muito importante, não conseguiríamos entrar em mercados diferentes.

Em 2025, no final desse grande investimento, que Sasia vamos ter?

Os investimentos na indústria têxtil têm de ser contínuos, porque não há a opção de parar, sejam estes ou outros. Os próximos investimentos que estamos a estudar são no pós-consumo. Neste momento, compramos mais umas máquinas que ainda não chegaram por falta dos componentes eletrónicos.

A procura crescente por produtos ambientalmente sustentáveis está a gerar maior concorrência e dificuldades na obtenção de matéria-prima para reciclagem de fibra?

Na Sasia, tentamos sempre antecipar a procura do mercado. Nunca estamos dependentes do mercado imediato, porque temos cerca de 7.000 toneladas de material em stock.

Quais são, na sua perspetiva, as forças condutoras da evolução das fibras recicladas?

O reciclado, para ser aplicado nas mais diversas áreas, tem de ter qualidade. Se o produto que estamos a reciclar não tiver a qualidade desejada, o artigo final nunca poderá ter a qualidade que o mercado procura. Por isso, se o mercado evoluir para mais qualidade, no final, o reciclado vai ter mais qualidade. Por isso, temos de tentar fazer menos a nível de fast fashion e fazer com mais qualidade, porque, nesse caso, o vestuário é mais duradouro e, no final, quando for para as empresas de reciclagem, o produto vai ser de maior qualidade e podemos aplicá-lo em segmentos de maior qualidade. O objetivo é sempre fazer menos, mas com mais qualidade.

Que análise faz do consumo de fibras recicladas no mercado português?

Tem-se sentido um incremento e uma preocupação das pessoas em usar material reciclado. Claro que, como tem as suas barreiras, demora, porque são aplicados numa coleção, depois tem de se esperar o resultado da venda da peça, tem de se ver como é que o consumidor final reagiu. É um processo demorado, mas é um processo em que estamos em alguns projetos com empresas já muito avançados e concretizáveis. Estamos a fazer projetos com o CITEVE, por exemplo, de investigação, de inovação e projetos a nível de reciclados a nível europeu, internacionais. Depois, temos projetos nacionais com empresas como a JF Almeida, a Tearfil, a Filasa, a Mundotêxtil e a Riopele.

No âmbito do PRR, um dos focos é o desenvolvimento de fibras têxteis mais amigas do ambiente, incluindo as recicladas. Sente que isso está a impulsionar o sector da reciclagem têxtil em Portugal?

Quando começa a existir apoios e financiamentos, aparecem sempre no mercado pessoas não preocupadas com a reciclabilidade, mas preocupadas em receber os financiamentos que daí advêm. Isso é completamente errado. Muitas vezes valoriza-se mais alguém que aparece no mercado que não tem noção nenhuma, que nunca esteve na reciclagem e não tem ideia nenhuma do que é reciclar, mas aparece no mercado porque recebe apoios para reciclar e quem cá está, muitas vezes, não tem esses apoios. Acho que devia ser apoiado quem cá está e quem já tem trabalho feito e mostra resultados ao fim do ano, quem paga grandes quantidades de impostos, ano após ano. Não sou a favor de subsídios, sou a favor que se ajude quem trabalha – ajudar na eletricidade, no gás, isso é que é ajudar as empresas a andar para a frente. Não é dar subsídios para as pessoas montarem empresas que não têm noção nenhuma daquilo que estão a fazer. Vão estragar o mercado, porque estão a viver de subsídios, vão estragar o mercado de quem cá está há muitos anos e vão estragá-lo durante quatro ou cinco anos e prejudicar as pessoas que estão aqui a trabalhar há décadas.

Como encara 2023?

Com as notícias que todos nós ouvimos diariamente, o ano de 2023 não se prevê fácil. Temos o problema da inflação, vai haver um grande abaixamento do consumo, porque as pessoas não vão conseguir fazer face às despesas dos juros da casa, do gás, da luz, da alimentação, dos transportes. Acho que tudo aumentou, não estou a ver nada que tenha descido. Baseado nisso, este ano até demos 500 euros extra a cada funcionário para fazer face a essas despesas. A Sasia, a nível de perspetivas que tem para 2023, é continuar na linha da frente, continuar a ver nichos de mercado, continuar a trabalhar com qualidade, porque sempre foi o nosso foco. A nossa preocupação é relativa, neste momento já temos o primeiro trimestre de 2023 fechado. O objetivo vai ser consolidar e manter – se conseguirmos os mesmos objetivos de 2022, já seria um ano excelente. Este é um ano de consolidação.

 

E no médio-longo prazo, por onde passam as ambições para a Sasia?

A médio-longo prazo, estamos a estudar construir uma fábrica nova. Estas instalações já estão a ficar pequenas para nós. Vamos ter de sair e fazer um projeto novo, mas é a terceira geração que já vai comandar essa fase.