Na Vanguarda do Seamless – Parte I

O Seamless (sem costura) é actualmente onde o vestuário interior apresenta maior crescimento, estimando-se que atinja os 50% do mercado – dominado pelos EUA e pela China – nos próximos anos, avaliado em 12 mil milhões de dólares de vendas. Peças para qualquer tamanho são automaticamente dotadas de diferentes compressibilidades e elasticidades, garantindo uma melhor adaptação anatómica, onde o conforto, a preocupação estética e o easy care se tornam palavras de ordem. Depois de sair da máquina, a peça só precisa de uma pequena intervenção humana de acabamento e tinturaria. Mas ainda há muito potencial a utilizar e se há empresas a fazer o upgrade da muito utilizada poliamida para o algodão, na matéria-prima utilizada, também o acrescentar valor – moda ao vestuário interior básico ou o passar a investir no vestuário exterior –active wear, leisure wear e swim wear – está a ser o passo seguinte dado pelas empresas mais avançadas nesta matéria. E algumas delas são já as primeiras a receber algumas máquinas de ultima geração do maior fornecedor mundial. Como tal, falamos com a Santoni, com o CITEVE, e com empresas que estão a crescer neste segmentos e com aquelas que estão a desinvestir, e que explicam neste JT porquê… O Seamless Gilda Santos e Graça Bonifácio, da equipa de Desenvolvimento de Produto do CITEVE, na área de malhas e de confecção, são da opinião que o Seamless está a ganhar adeptos, embora esteja a ser utilizado sobretudo para a produção de vestuário interior, e existam ainda muitas potencialidades no vestuário exterior. É uma boa aposta para o futuro da ITV nacional, encontrando uma boa solução para dois segmentos em simultâneo – as malhas e a confecção –, ajustando-se ainda a uma mão-de-obra que subiu na cadeia de valor e está relativamente mais cara. «Podemos ter aqui o futuro de duas áreas que sentirão mais dificuldades nos actuais desafios do sector. Como é uma tecnologia relativamente mais complexa, exige uma mão-de-obra mais capaz, exactamente aquilo que Portugal tem, fruto de muitos anos de experiência em malhas e confecção. Absorve assim uma mão-de-obra mais qualificada e colocam-se no mercado artigos com maior valor acrescentado, na linha dos produtos com mais moda, com séries mais pequenas e a exigirem uma resposta rápida, respondendo assim a outras exigências actuais do sector», refere Gilda Santos. «O Seamless é muito versátil e permite dar estruturas diferentes aos artigos, com mais compressibilidade nalgumas partes, o que permite não só dar mais conforto à peça – a primeira preocupação quando o Seamless apareceu –, mas também mais elegância e bem-estar. Para além dos objectivos a prazo apontados, penso que o futuro acrescentará ao conforto e bem-estar as preocupações de saúde, que já começam a ser consensuais», complementa Graça Bonifácio. As duas técnicas do CITEVE também gostariam de ver mais empresas de malhas a dar este passo, ou das que já deram o primeiro, «a passarem dos artigos mais básicos para outros com mais componente moda – e que até permita a aposta na marca própria –, ou para o vestuário exterior. Algo que exige um grande investimento sem um retorno imediato, o que é um esforço considerável para as empresas». A Europa tem assim uma resposta às suas preocupações com uma população mais envelhecida, e a ITV nacional uma resposta para a sua aposta em nichos de mercado e em produtos de maior valor acrescentado. Os Projectos O papel do CITEVE é mostrar às empresas que podem inovar com a tecnologia que têm. «Damos as ideias e gerimos o processo subsequente, procurando empresas para produzir o artigo», refere Gilda Santos. Este processo de concepção e desenvolvimento e consequente transferência de tecnologia para a ITV resulta em projectos inovadores, onde também se enquadram alguns na área do Seamless, como a Fetal Panty. A cinta para grávidas é uma aposta no conforto e na estética, protagonizada por uma parceria com a Sidónios, a Tintex, a Linhares & Brito e a Unidade de Obstetrícia do Hospital Pedro Hispano. Para além da função de um maior descanso muscular, ainda inclui uma função hidratante para a prevenção de estrias e de celulite. Outro exemplo é o Cat Suit, um fato de desporto para senhoras de idade cujas diferentes compressibilidades proporcionam melhorias estéticas e de conforto. Este projecto foi desenvolvido em parceria com as empresas PRI e Texitália (representante da Santoni). O CITEVE cumpriu a sua missão e o primeiro passo está dado, espera-se agora alcançar o passo seguinte da comercialização onde será necessário o entendimento e cooperação de todos os parceiros envolvidos nos vários consórcios formados. É ainda de realçar o carácter demonstrador destes projectos, o que se reflecte no aparecimento de novos produtos industriais onde se identificam as inovações apresentadas. «Frequentemente as empresas produzem não aqueles artigos, mas outros baseados nos seus aspectos mais inovadores, o que acaba por ser também uma das vantagens destes processos», conclui Graça Bonifácio.A Santoni Em virtude de ser o maior fornecedor de máquinas de Seamless em todo o mundo (os únicos 3 concorrentes – alemão, checo e chinês -, dividem os 1 a 2% do resto do mercado), o Jornal Textil falou com Ângelo Cervi, o administrador da representante em Portugal da Santoni, que nos confirmou que algumas das máquinas mais avançadas deste segmento vêm para empresas portuguesas: «a PRI comprou agora as quatro primeiras máquinas de uma geração nova, e a Sidónios está numa situação muito próxima dessa também». A este investimento na vanguarda da tecnologia, Cervi acrescenta que «em Portugal já se fazem peças muito bem acabadas e muito apreciadas no estrangeiro». Embora nos adiante que as maiores empresas já estejam a passar para os artigos de maior valor acrescentado e com mais moda, com «a Sonicarla a trabalhar com um estilista nesta área e a fazer artigos muito interessantes», muitas das pequenas empresas ainda utilizam cerca de «30% das potencialidades das máquinas». Para suprir este tipo de lacunas começaram há dois anos a dar formação nesta área, resultando em 15 pessoas formadas, e estão a finalizar uma parceria com o Citeve para incluir esta formação no seu currículo de cursos têxteis. Embora lamente que o Seamless arrancou mal em Portugal, como um pouco por todo o mundo, pelos empresários terem comprado maquinas há seis anos e depois não terem dado formação aos seus técnicos e terem desistido, ou terem apostado em produtos intermédios, como os tubos, que estão na base da peça de Seamless, mas depois não fizeram o upgrade seguinte, e o investimento deixou de ser rentável, agora a evolução começa a ser significativa e vai pelo bom caminho. «O Seamless faz a ligação da tricotagem à confecção, com a inerente poupança de recursos e custos. E em termos de formação já estamos em condições de ser autónomos e não precisar de importar técnicos estrangeiros. Nas malhas a evolução em Portugal passa por aqui», sublinha Ângelo Cervi.