Mundotêxtil aposta no algodão reciclado pós-consumo

Na mais recente coleção, a empresa de têxteis-lar usou pelo menos 50% de algodão reciclado pós-consumo em cada artigo, numa altura em que a sustentabilidade faz já parte integrante do seu dia a dia.

Ana Vaz Pinheiro

Já com várias iniciativas na área da sustentabilidade no currículo, a empresa especialista em turcos decidiu, desta vez, «fazer a aposta total», explica Ana Vaz Pinheiro, administradora da empresa, e na coleção apresentada na Heimtextil, os cinco temas que a compõem tiveram todos como base a sustentabilidade, «ou seja, todos os nossos desenhos são feitos com, pelo menos, 50% de algodão reciclado pós-consumo», indica.

Em termos de cores, a paleta foi mais ousada do que o habitual, com muitos vermelhos e laranjas, por exemplo. «Como exportamos para 40 países, temos de abranger um pouco os gostos de todos. No ano passado as pessoas estavam com muito medo de comprar e os desenhos tinham de ser seguros, com cores mais pastel. Neste momento, já começamos a sentir que há abertura dos clientes e do mercado para sermos mais arrojados», justifica Ana Vaz Pinheiro. «É aquilo que achamos que vão ser as próximas tendências», acrescenta.

A sustentabilidade tem sido algo que a empresa tem cultivado, tendo, além de uma série de certificações, um relatório anual sobre o tema auditado pela PwC. «Já fazemos há três anos. Agora com a diretiva da UE para o financiamento, já não é um problema, porque sabemos medir. No tipo de mercado onde nos mexemos, e com o tipo de cliente com que trabalhamos, somos mesmo obrigados a ter este tipo de informação, senão desaparecemos completamente», acredita.

A legislação europeia, de resto, não assusta a administradora da Mundotêxtil, que vê a situação como mais uma oportunidade para a indústria portuguesa capitalizar e aproveitar o nivelamento do mercado, em que todos «vão jogar dentro das mesmas regras». Além disso, «maioritariamente, as empresas portuguesas estão preparadas para as alterações e para os requisitos todos» e as «grandes empresas, que têm outro tipo de estrutura, têm a obrigação de puxar pelas mais pequenas, pelos fornecedores e pelos parceiros», sendo que, na perspetiva da Ana Vaz Pinheiro, «as associações têm também um papel importante» neste domínio.

Ao nível social, a política da Mundotêxtil, que emprega cerca de 580 pessoas, tem sido igualmente uma mais-valia, nomeadamente na retenção de talentos. «Não temos tido problema nenhum a atrair mão-de-obra, também muito fruto da política de recursos humanos que temos, o tipo de salário que pagamos, as regalias que damos aos funcionários, a formação contínua», enumera a administradora. «Por exemplo, é o segundo ano consecutivo em que estamos a oferecer um dia de férias no dia do aniversário. Temos bolsas de estudo para os filhos dos trabalhadores, quer de mérito, quer de apoio social. E temos uma série de iniciativas de apoio à natalidade», acrescenta.

2023, que fechou com um volume de negócios de cerca de 40 milhões de euros, foi «um ano calmo» e, mais uma vez, «de muitos desafios», descreve a administradora da empresa, que cita a volatilidade das matérias-primas e dos transportes, assim como os conflitos na Ucrânia e Israel como principais condicionantes do crescimento. «Tudo neste momento é um turbilhão e contribui para que as coisas sejam mais difíceis ainda», considera. Por isso mesmo, «tentamos manter o foco e a nossa estratégia, ajustando alguns passos, mas sempre com o objetivo principal em mente», aponta.

O início de 2024 não trouxe sinais de melhoria evidente, com as pessoas «muito prudentes nas compras», mas, assume Ana Vaz Pinheiro, «temos uma visibilidade muito curta, quase a um mês apenas». No entanto, há um lado positivo nessa mudança. «Os compradores, de repente, querem tudo para ontem, o que para Portugal é uma vantagem, como é óbvio, porque somos muito mais ágeis, quando comparados com a nossa concorrência direta estrangeira», sustenta a administradora.

Depois de ter terminado o investimento na tinturaria de fio e na mudança de layouts da fábrica, para os tornar mais eficientes, a empresa está a instalar, no âmbito de um PRR, painéis solares, uma caldeira de biomassa e um programa informático de eficiência energética. «Este ano o nosso foco é na parte informática, na digitalização e leitura de dados», resume.

O futuro, esse será feito com clientes do segmento médio/médio-alto e uma oferta diferenciada. «A Mundotêxtil está nesse patamar, a apresentar, cada vez mais, soluções diferentes e integradas, ou seja, não é só vender uma toalha, é vender o serviço antes e depois. Hoje em dia os nossos clientes têm acesso a informação que pode ajudar a orientar coleções, a orientar materiais, a antecipar necessidades. Se tivermos uma relação de proximidade e trabalharmos todos em conjunto, conseguimos ter um mercado muito mais controlado e com menos sobressaltos. Temos mais de 200 clientes, alguns muito grandes, mas diferentes uns dos outros. Temos de ser uma empresa ágil e flexível, que consiga, de preferência, antever sempre aquilo que nos espera. Essa é a nossa missão», conclui Ana Vaz Pinheiro.