Mudança na roupa – Parte 1

pelo menos o que defende Mike Flanagan, CEO da Clothesource Sourcing Intelligence, uma reputada consultora britânica especializada no sector do vestuário O mês de Março de 2011 marcou o 200.º aniversário dos luditas, um grupo de trabalhadores anti-mecanização da indústria têxtil e de vestuário (ITV), concentrado em torno da região de Nottingham na Inglaterra. Hoje em dia, a maioria das pessoas acha que ninguém pode parar o progresso: a mecanização da ITV era inevitável, e, na Inglaterra do início do século XIX, o processo acabou por ser responsável pelo mundo moderno industrializado. O que realmente aconteceu foi que nos primeiros anos do século XIX, a Inglaterra estava em guerra com a França. Ambos os lados tentaram matar o outro de fome, bloqueando o comércio – o que levou a graves problemas financeiros para os exportadores de vestuário da Grã-Bretanha. A solução encontrada foi espremer os seus trabalhadores (o único custo sobre o qual tinha algum controlo) e mecanizar. Os trabalhadores, em muitos casos famintos, pediram ajuda ao Governo, especialmente para prevenir que os seus salários fossem reduzidos. O governo recusou-se, pois, nas palavras do então primeiro-ministro, «a Assembleia Legislativa não deve interferir, mas deve deixar que tudo encontre o seu próprio equilíbrio». Eloquente, realmente, considerando os problemas que surgiram com a proibição do livre comércio por parte desse mesmo governo. Mas independentemente dos erros e acertos, os trabalhadores decidiram que os teares ameaçavam os seus meios de subsistência e, em Março de 1811, começaram a destruir as máquinas de tricotar peúgas, pertencentes aos proprietários que tinham cortado os salários. E, claro, os luditas estavam em determinada medida certos e os seus adversários errados. Novas máquinas significavam salários drasticamente mais baixos. Uma geração mais tarde, a mecanização generalizada tornou a Grã-Bretanha mais rica, mas a previsão dos luditas de que os tecelões seriam seriamente prejudicados nas duas décadas seguintes estava totalmente correcta. A História raramente se repete. Duzentos anos depois, ao contrário dos britânicos em 1811, a maioria dos governos em todo o mundo adora interferir na forma como estão definidos os salários no vestuário. Hoje temos os novos luditas, divididos igualmente entre empresários que reclamam que essa interferência está prestes a destruir as suas vidas e activistas sindicais que parecem não ter percebido o que motiva os governos hoje em dia. De forma mais extrema, a Federação das Indústrias de Hong Kong (FHKI) prevê que uma em cada três fábricas de propriedade hongueconguense na China – ou 22.000 das cerca de 65.000 unidades – seja obrigada a cortar as suas operações ou encerrar nos próximos três a cinco anos, como resultado das regras laborais mais exigentes, falta de mão-de-obra, aumento dos salários, apreciação do yuan e preços elevados das matérias-primas. De recordar que, em 2008, a mesma FHKI previu que milhares de fábricas localizadas no Rio das Pérolas iriam fechar à medida que o aumento salarial ficava fora de controlo e, três anos depois, ainda estamos à espera que tal aconteça. A FHKI está a fazer os luditas originais parecerem brilhantes analistas: depois do aumento do salário mínimo em cerca de 20% em toda a China em 2010 – e muito mais do que em Cantão e Xangai – a quota da China no comércio mundial de vestuário em 2010 foi a mais elevada de sempre. Com efeito, a absolutamente terrível noção que muitos proprietários de fábricas modernas têm do que está a acontecer, deveria fazer-nos melhorar a opinião sobre os luditas do século XIX. No início de 2010, os fabricantes de vestuário do Bangladesh juraram que não se podiam dar ao luxo de aumentar os salários. Após intensa pressão dos compradores e do governo, foram obrigados a aumentar o salário mínimo em 80% a partir de Novembro – e simplesmente não conseguem responder à crescente procura dos compradores. Em Março deste ano, a Associação dos Fabricantes das Honduras queixou-se que os aumentos irrealistas nos salários mínimos estavam a levar as empresas de vestuário do país para a vizinha Nicarágua e El Salvador (onde os salários são inferiores) desde 2009. Mas, durante 2010, os salários ditos “irrealistas” ajudaram as Honduras a aumentar a sua quota nas importações de vestuário dos EUA em relação a 2009, enquanto os salários “realistas” na Nicarágua causaram a queda da sua quota. Pelo menos os luditas de 1811 mantiveram uma mensagem consistente. Em Fevereiro, o sector de vestuário da Guatemala deveria perder 6.000 postos de trabalho em 2011, como resultado de uma decisão do governo de aumentar os salários mínimos em 14,8%. Duas semanas depois, o governo da Guatemala foi obrigado a intervir novamente, pois percebeu que os EUA poderiam ser forçados a suspender as concessões comerciais no caso da Guatemala, se os direitos sindicais não fossem mais escrupulosamente cumpridos. Outra semana mais tarde, os impulsionadores da América Central alegavam que a «proximidade do mercado torna agora [a região] mais competitiva do que a China para produzir vestuário». Do outro lado do mundo, com os proprietários de empresas tailandesas a culparem os aumentos salariais irrealistas do seu governo pela deslocação das fábricas para o Vietname, a Top Form de Hong Kong está a comparar favoravelmente as suas operações tailandesas em relação ao ambiente de negócios na China, onde «as mudanças esmagadoras» nas leis laborais são «demasiado rápidas para compreender e reagir». Então, serão os actuais proprietários de negócios de vestuário verdadeiros luditas? Uma questão que Mike Flanagan analisa na segunda parte do artigo.