Uma análise da agência noticiosa Reuters a comentários e declarações recentes de 34 empresas estrangeiras de grande escala em funções na China mostrou uma experiência divergente entre os sectores. Dezoito das empresas tinham produtos focados no consumidor e 13 destas referiram que as vendas cresceram no quarto trimestre ou na totalidade do ano. Três desceram e duas estagnaram. Já das oito empresas industriais em análise, seis relataram um abrandamento na China ou queda nas vendas.
A Starbucks, o grupo SCA, a Hennes & Mauritz e a McDonald’s assistiram a um forte crescimento, no quarto trimestre, ainda que a economia chinesa tenha crescido ao ritmo mais lento desde 2009. «O sucesso de que desfrutamos na China foi, de facto, destacado por este último trimestre», afirmou Howard Schultz, presidente e CEO da Starbucks, aos investidores a 21 de janeiro. «Abrimos mais de 150 lojas na China, no último trimestre, o maior número de aberturas de sempre na nossa história», acrescentou.
Já a cadeia de fast food McDonald’s relatou que as suas vendas comparadas do quarto trimestre aumentaram 4% na China e que planeia inaugurar mais de 250 espaços este ano – a abertura mais significativa em qualquer um dos seus mercados. «Continuamos confiantes no potencial deste importante mercado e nas estratégias que temos em andamento para expandir ainda mais a marca», explicou Steve Easterbrook, CEO da McDonald’s Corporation, aos investidores, a 25 de janeiro.
Magnus Groth, CEO do grupo SCA, empresa sueca de produtos de higiene, referiu que o peso do crescimento da classe média urbana chinesa, incomparável noutros mercados emergentes, se vai repercutir em oportunidades enormes para o seu negócio.
Mas no sector industrial o panorama mostrou-se menos otimista. A Caterpillar e a Siemens estão entre as empresas industriais que sofreram no ano passado. Já a americana United Technologies Corp., que fabrica elevadores e unidades de refrigeração, prevê vendas ainda mais fracas em 2016. «Os negócios industriais de ciclo curto foram afetados por um declínio de dois dígitos na China», revelou Joe Kaeser, CEO da Siemens, aos investidores, na semana passada.
O amadurecer da economia
Vários CEO’s referiram que esta divergência entre sectores é um sinal de que a economia da China está a amadurecer, afastando-se da indústria e aproximando-se do consumo.
Em 2015, o crescimento atingiu os 6,9%, depois do quarto trimestre desacelerar para 6,8%, coroando um ano tumultuado que assistiu à fuga de capitais, ao escorregar da moeda e a um crash de stocks de verão. Houve, também, mais volatilidade nos mercados financeiros.
Os dados do instituto de estatística chinês mostraram que a produção industrial em dezembro ficou aquém das expectativas, com um aumento de apenas 5,9 %, ilustrando como a desaceleração da economia e a mudança para um crescimento impulsionado pelo consumidor estão a prejudicar a indústria.
Por outro lado, as vendas no retalho, embora dececionantes, ascenderam a uns fortes 11,1%. A Ford Motor Company, por exemplo, divulgou um quarto trimestre robusto na China, com uma subida de 27% em dezembro. «[A China] está a mudar de uma economia guiada pelo investimento e pela indústria para uma economia conduzida pelo consumo. E o peso do consumo no PIB está realmente a crescer, o que é um bom sinal», sustenta Mark Fields, CEO da Ford Motor Company. Considerando, no entanto, que esta «transição» poderá ser um período «irregular».
Tempos de mudança
Nem todas as empresas de bens de consumo ficaram imunes à desaceleração da China e várias relataram abrandamento no mercado, apesar das expectativas criadas por uma classe média em expansão e pela adoção de padrões de consumo ocidentais.
A Apple está a assistir a uma «suavidade económica» na China, algo que não tinha «visto antes», referiu Luca Maestri, CFO da empresa, à Reuters. No entanto, o CEO Tim Cook logo afirmou que a Apple não iria mudar os seus planos de investimento no país, citando as fortes tendências de procura. «A classe média na China era inferior a 50 milhões de pessoas em 2010, e em 2020, deverá ser de cerca de meio bilião… Acho que os dados demográficos são grandes», acrescentou.
Algumas empresas, como a Ford e a Unilever, que registaram um crescimento moderado nos mercados mais desenvolvidos dentro da China, explicaram que as cidades secundárias estavam a preencher a lacuna. «O crescimento está a vir de cidades mais pequenas e costeiras, mais do que das cidades A», explicou Paul Polman, CEO da Unilever.
A crescente adoção de padrões de consumo ocidentais também está a alavancar estas empresas. A fabricante de bebidas Remy Cointreau reportou que a quadra natalícia estava a ter cada vez mais peso nos seus negócios na China, ajudando a compensar a redução de importância do ano novo chinês.
Não obstante, algumas tendências ocidentais ecoadas na China apresentam desafios para as empresas. Como já acontece nos EUA e na Europa, os consumidores chineses estão a evitar os hipermercados. Este afastamento atingiu a cadeia de supermercados francesa Carrefour e empresas como a fabricante de chocolates Hershey’s, que vende principalmente em grandes superfícies. Como resposta, o Carrefour está a abrir lojas de conveniência e a Hershey’s está a reposicionar-se para a distribuição através dessas mesmas lojas.










