Moda trata água como custo invisível

A organização não-governamental alemã Drip by Drip denuncia que a indústria da moda externaliza os custos reais da água para os trabalhadores, comunidades e ecossistemas ao longo das cadeias globais de aprovisionamento têxteis.

[©Drip by Drip]

Com 2,2 mil milhões de pessoas em todo o mundo sem acesso a água potável, segundo a Drip by Drip, o relatório “The Drip: Voices On Water, Labor and Sustainability in the Fashion Industry” compila oito artigos que analisam como a pegada hídrica da indústria têxtil e do vestuário é vivida no Bangladesh, Índia, Paquistão e Turquia.

A publicação identifica três lacunas estruturais «que os atuais quadros de sustentabilidade muitas vezes não abordam»: a ausência de dados sobre água geridos pelas comunidades; a desconexão entre os compromissos de sustentabilidade das marcas e as respetivas práticas de compra; e a carga desproporcional imposta a mulheres e comunidades na linha da frente da produção.

Na prática, de acordo com o relatório, este desalinhamento torna-se mais evidente ao nível das fábricas. Os produtores, sob pressão para cumprir as normas ambientais, raramente são compensados pelos custos de conformidade. Operar estações de tratamento de efluentes a plena capacidade pode aumentar os custos de produção entre 5% a 15%, criando um incentivo direto para limitar o seu funcionamento fora dos períodos de auditoria.

Lavinia Muth, consultora, auditora e antiga gestora de sustentabilidade de marcas como a Armedangels, descreve como a dependência da indústria em relação a auditorias e certificações cria uma ilusão de conformidade que não reflete a realidade ambiental. A sua experiência numa pequena unidade têxtil na Índia – aprovada com distinção na auditoria ZDHC (Zero Discharge of Hazardous Chemicals) enquanto descarregava efluentes não tratados à noite – marcou um ponto de viragem. «Estávamos a auditar as coisas erradas», refere Lavinia Muth.

Nas palavras de um produtor do Bangladesh, citado pela gestora de sustentabilidade, «os auditores chegam, mostramos-lhes a estação de tratamento de efluentes, verificam a papelada. Mas manter a estação a funcionar a tempo inteiro? Isso custa mais do que a marca paga por peça. Por isso, desligamo-la quando eles vão embora». Para Lavinia Muth, as práticas de compra são o motor oculto do abuso hídrico: marcas que pressionam os fornecedores a reduzir preços, recusam pagar os custos de uma produção responsável e cortam relações ao primeiro sinal de incumprimento, sem nunca financiarem as soluções de que exigem a conformidade.

O preço a pagar

O Tamil Nadu Textile and Common Labour Union (TTCU), sindicato maioritariamente Dalit e liderado por mulheres, documenta uma crise de saúde silenciosa nas fábricas de confeção de Dindigul, onde as temperaturas chegam aos 40 graus Celsius. Thivya Rakini, presidente estadual da TTCU, e Oorja Engineer, voluntária de comunicação e defesa da organização, descrevem como metas de produção inalcançáveis levam as trabalhadoras a evitar beber água para não terem de ir à casa de banho, algo que os supervisores tratam como uma interrupção passível de penalização salarial.

Tamilarasi, operadora de dados em Erode, na Índia, relata que colocava discretamente um pano húmido no peito ou no pescoço para se refrescar. «Não temos tempo para beber água, não temos autorização para ir à casa de banho. Esta é a única forma de me impedir de colapsar», explica. As consequências vão desde infeções crónicas a intervenções cirúrgicas, incluindo casos de histerectomia documentados por Thivya Rakini e Oorja Engineer.

Em Faisalabad, no Paquistão, a degradação ambiental cruza-se com a precariedade laboral. Segundo Humnah Fayyaz e Tabeer Riaz, cofundadoras da South Asia Young Women in Water, os trabalhadores das fábricas de fiação enfrentam elevada exposição ao pó, com impactos documentados na saúde respiratória. As comunidades vizinhas dependem de águas subterrâneas severamente degradadas: um estudo de 2017 concluiu que 90% das amostras recolhidas na região violavam as normas da Organização Mundial da Saúde para água potável, em grande parte devido a descargas industriais não tratadas.

Em Asulia, no Bangladesh, 60% dos residentes inquiridos relataram sintomas gastrointestinais nas 24 horas seguintes ao contacto com água contaminada, de acordo com Shahriar Hossain, cientista ambiental e fundador da Environment and Social Development Organization. Os dados, recolhidos no âmbito de um projeto-piloto de monitorização comunitária lançado em março de 2024, revelam também que 42% dos agricultores da região registaram quebras nas colheitas atribuídas à poluição industrial.

Mohammad Monower Hossain, diretor de sustentabilidade do Team Group, um dos principais grupos do setor de vestuário no Bangladesh, observa que o número de fábricas de confeção no país caiu de cerca de 6.000, em 2013, para aproximadamente 2.000 atualmente, em grande parte porque as PME não têm acesso a “financiamento verde” nem conseguem absorver os custos crescentes da conformidade ambiental. Ani Wells, responsável de conteúdos e formação da Cotton Diaries, acrescenta que as próprias ferramentas de decisão da indústria distorcem o problema: as avaliações de ciclo de vida baseiam-se em médias globais que subestimam os impactos do poliéster, nomeadamente a poluição por microplásticos, enquanto penalizam o algodão, ignorando a variabilidade geográfica e climática da sua produção.

«A água é o impacto ambiental mais significativo da moda, mas continua a ser, em grande parte, invisível na tomada de decisões do setor. O relatório “The Drip” muda essa perspetiva. Coloca no centro as pessoas e os locais onde a pegada hídrica da moda se faz sentir mais diretamente e questiona os sistemas que continuam a externalizar esses custos», sublinha Amira Jehia, diretora executiva da Drip by Drip, em declarações ao Sourcing Journal.