Moda da Rússia contorna sanções

As cadeias de aprovisionamento de moda da Rússia estão a ser afetadas pelas sanções impostas após a invasão da Ucrânia, mas os laços estreitos do sector com vários países fornecedores importantes, nomeadamente na Ásia, deverão reduzir o seu impacto.

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Svetlana Melnichenko, presidente da Câmara de Têxtil e Moda, sediada em São Petersburgo, na Rússia, assume que os russos não parecem estar muito interessados em comprar roupa nova neste período após a invasão da Ucrânia pelo seu exército. «Está tudo muito calmo nas lojas das nossas pequenas marcas locais», revela ao Just Style, acrescentando que durante períodos difíceis como os que se vivem atualmente, as pessoas tendem a poupar e a comprar «apenas as coisas mais importantes», pelo que «se as pessoas não têm dinheiro para comprar, a procura vai cair» e, consequentemente, isso poderá levar a despedimentos na indústria.

Do lado da oferta, por enquanto, não parece haver problemas, já que 70% dos tecidos e vestuário importados vendidos na Rússia são provenientes da China, ao mesmo tempo que o Vietname e o Bangladesh continuam a ser fontes importantes, com o país a ter igualmente ligações fortes com a Ásia e a Turquia, o que deverá reduzir o impacto das sanções.

«Essas empresas [russas] que trabalhavam com o mercado chinês já mudaram para yuan e agora estão a rever os contratos», explica Svetlana Melnichenko, o que significa que os pagamentos podem ser feitos diretamente em moeda local em vez de dólares americanos ou outras moedas internacionais através do sistema SWIFT – que agora praticamente excluiu a Rússia. O governo do Bangladesh afirmou, a 4 de março, estar preparado para receber pagamentos em moeda chinesa da Rússia.

A presidente da Câmara de Têxtil e Moda da Rússia acrescenta ainda que as marcas do país que produzem t-shirts e outro vestuário informal também substituirão as importações desses produtos, aliviando a pressão das sanções. Além disso, os produtores locais que fabricam uniformes, incluindo uniformes escolares, não serão severamente afetados pelas sanções porque usam tecidos e fios de produtores sediados na Rússia.

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No segmento do luxo a história é diferente. A União Europeia já proibiu a exportação de vestuário que custe mais de 300 euros por peça para a Rússia e «todos os tecidos premium são de Itália», destaca Svetlana Melnichenko, o que forçará as marcas russas de luxo, que geralmente compram a fornecedores de tecidos ocidentais (como exportadores italianos), a procurarem fornecedores alternativos, talvez na China e na Turquia, cujas empresas estão de olho no mercado russo.

Rumo à Ásia

Uma vez que as sanções financeiras impedem os pagamentos, a presidente da Câmara de Têxtil e Moda refere que, como medida de curto prazo, a associação apoiará os seus membros assinando cartas de garantia aos fornecedores e pedindo que adiem os recebimentos, uma tática que já obteve sucesso, incluindo junto de parceiros da Europa Ocidental.

Svetlana Melnichenko lembra que a espanhola Inditex assinou contratos com «dezenas de fábricas» na Rússia desde 2018 (após a anexação da Crimeia à Ucrânia pela Rússia) – embora desde a invasão deste ano, a Inditex tenha saído rapidamente do país, deixando muitas fábricas russas sem trabalho. Também a sueca Ikea, uma grande compradora de têxteis, abandonou o mercado russo, o mesmo acontecendo com a Asos, a Burberry, a H&M, a Next, a Prada e a Uniqlo, que encerraram as suas lojas neste mercado.

Outro problema para as marcas e produtores russos é que grandes empresas de software deixaram a Rússia, como a Adobe (Adobe Illustrator) e a CLO Virtual Fashion (CLO 3D). «Essas coisas são desagradáveis, mas, por outro lado, acho que talvez isso encoraje o desenvolvimento do nosso próprio software», aponta Svetlana Melnichenko.

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A presidente da Câmara de Têxtil e Moda acredita que a Rússia irá procurar a China para manter a sua indústria de vestuário em operação, uma ideia que Paul Alger, diretor de negócios internacionais da UK Fashion & Textile Association (UKFT), corrobora. «A invasão russa da Ucrânia provavelmente terá efeitos duradouros que nem mesmo o presidente Putin pode ter pensado», afirma ao Just Style.

«No curto prazo, a maioria das empresas do Reino Unido já interrompeu as encomendas imediatas para a Rússia numa base B2B e B2C, pois não há uma maneira fácil de enviar mercadorias no momento. Outras tomaram uma decisão unilateral de não vender para a Rússia por enquanto», adianta Paul Alger.

As perspetivas de exportação também são sombrias no que diz respeito à Bielorrússia e à Ucrânia, lembra Alger, e pode haver «restrições indiretas a outros países em união aduaneira com a Rússia», como Cazaquistão e Arménia, admite.

Apesar das sanções e da falta de voos – com poucos ou nenhum entre os EUA, União Europeia, Reino Unido e Rússia –, produtos da Índia e da China ainda podem entrar na Rússia, aponta Paul Alger. «É provável que a Rússia procure a China para cada vez mais produtos, à medida que se torna mais dependente da China para as vendas de petróleo e gás, assim como para a importação de bens alimentares e de consumo. A China irá possivelmente encorajar e facilitar isto, já que é uma situação win-win para a China», considera.

Mike Flanagan, CEO da empresa de inteligência de mercado Clothessource, prevê, por seu lado, que, se os retalhistas russos de vestuário não puderem pagar a fornecedores estrangeiros, «usarão fábricas russas – eventualmente, e depois vão desenvolver sistemas de pagamento direto, fora do SWIFT, da Rússia para seus apoiantes silenciosos», nomeadamente a China, o Bangladesh e a Índia. Até porque, acredita, a Inditex e a H&M não vão voltar a correr para a Rússia «porque acham que isso prejudicará muito mais os seus negócios do que qualquer benefício trivial que possam ter em troca».