Moda da rua

Um grupo de prostitutas do Rio de Janeiro acaba de lançar a marca de vestuário “Daspu”, uma forma de se proporcionarem rendimentos regulares e de fixar a sua visão da moda lutando contra os estigmas da sua profissão. As prostitutas da Place Tiradentes, situado em pleno coração do Rio, que se consagram ao projecto estão entre os 30 e os 65 anos de idade.

 

«Os mais jovens que ganham ainda a sua vida neste negócio podem aumentar os seus lucros no fim do mês desfilando como manequins. Para as mais velhas, a confecção e a venda dos modelos será sua única fonte de rendimentos», declarou Gabriela Leite, de 53 anos de idade, criadora da marca “Daspu”. O nome é quase como uma “afronta” à casa “Daslu”, a loja mais luxuosa do Brasil situada sobre 20 mil metros quadrados em São Paulo e um jogo de palavras.

 

A ex-prostituta Gabriela Leite é responsável pela organização não governamental de prevenção da sida e da defesa dos direitos das prostitutas “Dadiva”, que se ocupa de 4.500 “trabalhadoras do sexo” no Estado do Rio de Janeiro. Ela luta para que estas mulheres tenham os mesmos direitos que as outras trabalhadoras do Brasil. Um projecto de lei sobre esta questão está a ser examinado no Parlamento. «Os donos das “boites” devem pagar os mesmos direitos sociais que qualquer outra empresa», sublinha.

 

O nome da nova marca vem, de acordo com as proprietárias da Daslu, denegrir o nome da sua marca de luxo, tendo os seus advogados exigirdo há algumas semanas uma mudança de nome.

 

As acusações entre a Daslu e a Daspu subiram de tom, e as autoridades judiciais de São Paulo enviaram para a justiça uma acusação a sete pessoas, entre as quais a proprietária da Daslu, Eliana Tranchesi, por associação de malfeitores, falsificação de documentos, contrabando e fraude fiscal à importação. As penas para estes crimes podem ir até 21 anos de prisão.

 

«Esta situação vai levar as pessoas a rever os seus valores morais e os seus preconceitos», refere Gabriela, que abandonou a universidade para ingressar no negócio da prostituição há 21 anos com o intuito de «fazer a sua revolução pessoal porque era muito tímida», refere que a prostituição é uma profissão com outra qualquer «mas que o seu lado mau é a discriminação».

 

A primeira colecção Daspu, confeccionada pelas prostitutas, será apresentada em Março de 2006 e à imagem de todas, prevê uma linha para as mulheres “mais gordas” por exemplo, sendo que uma das manequins tem já 60 anos de idade.

 

«Esta é uma iniciativa muito séria. Nós queremos obter lucros para reinvestir nas nossas acções de prevenção contra as DST – doenças sexualmente transmissíveis -, no nosso jornal com uma tiragem 7 mil exemplares e nas 3 associações no nosso país», afirma a responsável de Daspu.

 

Para já, apenas uma t-shirt está à venda ao preço de 25 reais mas as encomendas não param de chegar via Internet. Quaisquer “modelos piloto” desde pequenos robes vermelhos, mini-saias laranja e decotes acentuados estarão sempre presentes nas colecções.

 

Jane Lucia da Silva Eloy, de 31 anos de idade e há 13 anos na profissão é uma das manequins e considera a iniciativa «maravilhosa». «Temos desde já muito mais respeito na rua», afirma.