Moda como tipologia de consumo

«Ouvir o Mercado e Falar ao Consumidor» foi o desafio lançado, no dia 8 de Março, aos cerca de setenta empresários da área da moda, no seminário organizado pela AESE e a APCD, com o apoio da ATP, ANIVEC e CENESTAP. Com base nos dados recolhidos pelos observatórios da Future Concept Lab, Lucia Chrometzka, apresentou, de manhã, uma tipologia das necessidades de consumo actuais, experimentadas em todo o mundo. O Convivial Shared Consumption estabelece uma relação entre o consumo pessoal e a fruição partilhada em comunidade, gerando um sentimento de pertença. Quando se procura, pela repetição de experiências, o reforço do carácter ou arquétipo de uma pessoa, terra ou país, trata-se de ArcheTypical Consumption. O Transitive Consumption ocorre quando o consumidor pretende obter através dos objectos uma compensação afectiva face ao meio envolvente. Recriar o estímulo do passado através da inspiração e da criatividade traduz um comportamento definido como Consumption of the Vital Memory. Consumption for Occasions reforça a importância dos novos acontecimentos, devido à novidade, curiosidade e felicidade permanente; Por outro lado, a busca de relaxamento e de serenidade, reflecte uma descontracção activa (DecontrActive Consumption), i.e., uma preocupação com a qualidade do espaço, o sítio e o corpo como forma de atingir a sensação de relaxamento e de serenidade. Para além destes comportamentos, Lucia Chrometzka referiu ainda as tendências que hoje se manifestam na vivência dos espaços. Estes índices são muitas vezes revelados por sinais mais ou menos evidentes que inspiram os consumidores. Ao analisar e compreender melhor as potencialidades que o mercado propõe, surgem novas oportunidades de mercado focalizadas na casa e nos acessórios industriais. A fruição dos objectos através dos cinco sentidos – Hyperceptive – despoletam comportamentos hedonistas, mágicos, de prazer individual. A vivência destes ambientes reflecte uma busca interior, em que a tecnologia está ao serviço dos produtos. Outra das dimensões observadas traduz a vontade de resgatar histórias passadas, próprias de uma cultura ancestral e combiná-las de forma harmoniosa com o futuro. A esfera doméstica retrata a identidade e a tradição sedimentadas no tempo (Storytelling). Quando a casa é vivida como um laboratório, em que as expressões de afecto e de ânimo flexibilizam a decoração e a organização dos espaços, os objectos de consumo servem de facilitadores à troca e partilha de experiências e à própria criatividade (TransAffective). A necessidade de flexibilizar espaços capazes de se adaptar aos aos novos hábitos sociais contemporâneos, encontra respostas modulares num design de conexão, passível de ser constantemente transformado e acrescentado. O mobiliário, por exemplo, ganha uma multi-funcionalidade que foge à tipologia standard para facilitar a sociabilização. Quando a casa é vivida como um reduto contra o stress, o espaço encerra no seu interior valores como o tempo, a serenidade e o conforto, a concentração, o silêncio e a privacidade. O espírito criativo recria a casa como um modelo da esfera pública com ideais de harmonia e equilíbrio ecológicos definidos e materializados A esta plataforma a Future Concept Lab designa de Extra-Domestic. À tarde, coube a José Ramalho Fontes e a Ramiro Martins trabalhar com os participantes os casos Zara e Hugo Boss, exemplos paradigmáticos do mundo da moda. No primeiro painel, Ramalho Fontes começou por colocar uma questão ao auditório: «Tendo em conta todos os diferentes níveis de produção, distribuição e comercialização, no que é que a Zara é boa?». A discussão gerada foi o ponto de partida para uma revisão do historial da empresa, sublinhando a escolha da cidade do Porto como primeiro “teste” de internacionalização, e análise do seu conceito de negócio. Sublinhando alguns aspectos, como por exemplo, a inspiração em formas de gestão japonesas, nomeadamente da Toyota ou da Panasonic, a criação de diferentes marcas sob a égide da Inditex, a importância dos “olheiros”, Ramalho Fontes sublinhou que «é um facto indesmentível de que a Zara não serve toda a gente». Ramiro Martins, no segundo painel, mostrou a sua concepção da evolução do conhecimento desde a pré-história até aos nossos dias, passando a fazer uma análise da forma, muitas vezes inesperada, como os consumidores actuais se comportam. Depois centrou a apresentação no que Ramiro Martins considera um dos maiores problemas com que nos defrontamos diariamente: a escassez de tempo, que gera escassez de atenção, que por sua vez gera escassez de confiança. De seguida apresentou a evolução da gestão da marca Hugo Boss ao longo dos tempos, centrando-se essencialmente nos períodos cruciais: o seu crescimento desde a sua fundação, em 1923, por Hugo Boss, mas com o nome “Boss”, a venda no final de 1989 à empresa japonesa imobiliária e financeira Akira Akagi, cuja estratégia foi desastrosa, e a venda à Marzotto, em 1991, momento a partir do qual a Boss AG mudou o seu nome para Hugo Boss AG e foram criadas duas novas marcas, Hugo e Baldessarini, retomando um percurso de sucesso De assinalar que também dia 8, pelas 15h00, no Edifício da Alfândega, no Porto, integrado na 27ª edição do Salão Modtissimo, decorreu o seminário “Mentalidades e Tendências de Consumo de Moda”, numa iniciativa da ATP, em parceria com a Associação Selectiva Moda/Modtissimo, o CITEX, o CITEVE e o CENESTAP, durante o qual a Future Concept Lab voltou a ter o “papel principal”, de novo com a apresentação de Lúcia Chrometzka, que abordou o tema “As Assimetrias Europeias no Mundo da Moda”. A AESE, Escola de Direcção e Negócios fundada em 1980, é uma iniciativa da Associação de Estudos Superiores de Empresa, instituição de utilidade pública, sem fins lucrativos, que se propõe dar formação específica em direcção e gestão de empresas, segundo uma perspectiva cristã do homem e da sociedade. A Escola conta com a colaboração científica permanente do IESE, uma das mais antigas Business School da Europa (1958), pertencente à Universidade de Navarra, e uma das primeiras do ranking mundial. Por ela já passaram duas dezenas de milhar de alunos, que hoje se destacam, pela sua excelência profissional, nos 70 países onde trabalham. A APCD, Associação Portuguesa de Cultura e Desenvolvimento aparece como um grupo informal em 1968, tendo sido constituída como Associação em 1972. Tem como objectivos estatutários proporcionar formação profissional na área dos serviços pessoais e à comunidade, em administração e gestão de instituições e colectividades, bem como organizar actividades de carácter cultural e acções de solidariedade social. A “Future Concept Lab” é um gabinete de estudos com sede em Milão e com uma rede de investigadores em 25 países do mundo,sendo considerada um dos mais avançados centros de investigação em comportamento do consumidor.Entre os seusclientes encontram-se alguns dos grupos mais prestigiados como a LVMH, L’Oreal, Levi’s, IKEA, Wella, Svarovski, Swatch, Sportswear International, Max Mara, Benetton, Nike eNokia.