Missão Possível – Parte III

JT – Qual é a contribuição que espera que a execução dos objectivos do programa Dínamo dê à prossecução dos objectivos do PRASD?

DB -O Programa Dínamo pode entender-se (foi assim que nasceu) como uma resposta especializada, no âmbito do Programa PRASD, para os problemas das “indústrias da moda” portuguesas – numa abordagem desde logo inovadora, ao procurar sinergias entre estes dois grandes sectores de actividade. Para ser mais rigoroso, o Governo Português tinha já em curso alguns estudos que apontavam para a necessidade de uma intervenção nestas “indústrias da moda”. Quando recebi a responsabilidade pelo Programa PRASD, e me dei conta da existência desta linha de trabalho, fui o primeiro a propor que o que houvesse a fazer no sector têxtil e vestuário, no âmbito do PRASD, ficasse autonomizado no âmbito do Dínamo – com a vantagem de podermos recorrer ao contributo de uma equipa especializada, com maior conhecimento do sector do que eu próprio. Em nenhum momento me arrependi desta opção.

 

JT – Está prevista alguma adaptação deste último relativamente às evoluções que se espera que o primeiro venha a provocar nas regiões contempladas?

DB – Em matéria de “indústrias da moda” (têxtil, vestuário e calçado), tudo o que fizemos e continuaremos a fazer no Programa PRASD é remeter para as conclusões, a filosofia de intervenção e as acções do Programa Dínamo. Trabalhei sempre num ambiente de grande coordenação e total consonância com a equipa liderada pelo Manuel Carlos Silva, e estou inteiramente de acordo com as suas recomendações.

 

JT- Como é que vão ser articulados os objectivos do Dínamo com o objectivo da «consolidação da posição dos têxteis-lar», em particular, preconizado no PRASD?

DB -Os têxteis-lar são um dos segmentos mais promissores da indústria têxtil portuguesa – um segmento relativamente recente, não dos mais conhecidos, mas um dos que têm conseguido melhores resultados, sobretudo na frente externa (com Portugal, e o Vale do Ave em particular, a estarem incluídos na “rota” de todos os grandes compradores mundiais). Não há problema nenhum especial com a indústria têxtil-lar portuguesa. Se a referimos no âmbito do Programa PRASD, foi apenas por que se trata de um “activo”, de uma “âncora de desenvolvimento” da região do Cávado-Ave, que pode aproveitar tanto das acções a desencadear no âmbito do Dínamo, como das medidas a implementar no âmbito do PRASD (por exemplo, as medidas de discriminação positiva recomendadas para as áreas da fiscalidade, dos incentivos financeiros e das políticas social e de trabalho). Este conjunto de medidas, recomendadas pelo Programa PRASD para toda a área do “Portugal menos favorecido” não se destinam especificamente à indústria têxtil e vestuário (sendo, por isso, inteiramente estranhas ao Programa Dínamo), mas nada impede que sejam também aproveitadas pelas empresas do sector têxtil e vestuário que operem nessa área.

 

JT- Dadas as condições específicas do sector actualmente e as consequências do desmantelamento definitivo do AMF em 1/Jan./2005, sobretudo os efeitos sociais da deslocalização da produção, não se justificaria que este programa já estivesse em pleno funcionamento há mais tempo?

DB – A questão que nos colocam é pertinente, e pode sempre ser colocada a propósito de qualquer programa ou conjunto de medidas. Um dos segredos da política, e da gestão das empresas, pelo menos da qualidade da política e da qualidade da gestão, reside no poder de antecipação, tanto do diagnóstico, como da tomada de medidas. Isto vale, e valerá sempre, revestindo-se de utilidade e interesse prático apenas para o futuro. Olhar para trás, agora, serve de pouco: o PRASD e o Dínamo apareceram quando apareceram, isso não tira mérito nenhum nem aos programas nem a quem tomou a iniciativa de os lançar, e, se é verdade que poderiam ter surgido antes, tal só pode tornar-nos mais exigentes em relação a estes dois programas, sobretudo em matéria de concretização das acções e das medidas que recomendam (admitindo, naturalmente, que se trata de boas medidas, as melhores nas condições existentes).

 

JT- Para o futuro, que tipo de indústria (ITV) se deve ambicionar para Portugal e quais os factores de competitividade que a devem sustentar?

DB – Esta questão tem sido muito discutida, e julgamos que motivou um grande consenso, sobretudo entre os intervenientes mais activos na formulação do Programa Dínamo – consenso em que me foi dada a oportunidade de participar. A indústria têxtil e vestuário portuguesa, como toda a indústria portuguesa em geral, tem de passar por um processo de qualificação de grande envergadura – qualificação da gestão, qualificação das operações, qualificação de todos os executantes, dos gestores de topo aos menos qualificados, qualificação de nós próprios, que de algum modo nos vemos envolvidos neste processo. No caso concreto da indústria têxtil e vestuário, parece indiscutível a importância de medidas em áreas como a moda e o design, a comunicação, a distribuição, e, num outro plano, a inovação nos materiais, na tecnologia de fabrico, e nos próprios produtos, no que têm de mais técnico. Conscientes da extensão do desafio, e dos riscos associados, julgo que só podemos considerar-nos satisfeitos pela oportunidade de participarmos no enorme “salto em frente” que não poderá deixar de resultar deste movimento.

 

JT- Que papel se deve exigir aos agentes da ITVC (associações e centros de competência) para a prossecução dos objectivos traçados?

DB -Em indústrias tão fragmentadas como, por exemplo, as indústrias têxtil e vestuário portuguesa (sobretudo a indústria de vestuário e confecção) ou a indústria do calçado portuguesa, as associações sectoriais são centros de racionalidade e de competência, ou, como outros chegaram a dizer, actuam como um “capitalista colectivo”. Se forem capazes de desempenhar este papel – e não vemos que outro papel útil possam desempenhar -, terão um contributo decisivo para a reconversão e a melhoria da posição competitiva dos sectores. Cabe ao associativismo sectorial uma função da maior importância em domínios como, por exemplo, a organização da promoção em mercados emergentes ou mais agressivos, a liderança de centros tecnológicos e de centros de formação profissional, a representação dos interesses das empresas perante o poder político e regulador, tanto nacional como Comunitário, a negociação colectiva das condições de trabalho, a promoção de uma imagem consentânea com os interesses mais profundos de todos os que operam no sector, tanto empresários como trabalhadores. Parece evidente a importância deste conjunto de papéis; parece também evidente o caminho que temos de percorrer para que os mesmos possam ser desempenhados a contento, sobretudo em matéria de coordenação de esforços e mesmo de integração das várias associações sectoriais que ainda operam no sector.