Uma das grandes descobertas do século XX a tecnologia de microencapsulação de fármacos e cosméticos está a ser redescoberta este século pela ITV. Coelima, Têxteis Domingos Almeida, Aquacolor e A. Sampaio são alguns dos exemplos do sucesso desta revolução têxtil do século XXI empreendida pelo 2C2T. Jaime Rocha Gomes, o pai português das microcápsulas aplicada aos têxteis, revela os últimos avanços neste campo, assim as linhas dos futuros desenvolvimentos.
Jornal Têxtil (JT) Há uma década que a tecnologia de microencapsulação, sob a sua responsabilidade, é um dos eixos de I&D privilegiados pelo Centro de Ciência e Tecnologia Têxtil (2C2T) da Universidade do Minho. Como é que tudo começou? Jaime Rocha Gomes (JRG) Começámos em 1995, com a tentativa bem sucedida de microencapsular um produto de fixação de cor. A ideia subjacente era criar um produto de libertação controlada durante a lavagem
em máquina. Aliás, as palavras-chave neste primeiro princípio de microencapsulação são a protecção do têxtil e a libertação controlada. JT Como surge a combinação desta tecnologias com os PCMs (materiais com mudança de fase)? JRG Para maior abrangência, este projecto foi imediatamente alargado aos PCMs. Neste caso, a microcápsula permite transformar o PCM num material durável. Esta vertente do projecto, que contou inicialmente a parceria da TMG Automotive para a sua execução, visou a aplicação destes materiais no revestimento de poliuretano para bancos de automóvel. No final do projecto, a empresa americana Frisby Technologies interessou-se pelo mesmo, tendo resultado uma colaboração que terminou o ano passado, quando esta empresa foi adquirida pela Outlast. Esta colaboração foi bastante vantajosa na medida que nos permitiu abarcar os não-tecidos volumosos para isolamento térmico. O nosso trabalho nesta área focalizou-se não só na diminuição dos PCMs retardando o fluxo energético mas também no âmbito do conforto, no seu no sentido mais amplo (com aplicações em vestuário blusões e têxteis-lar edredões). Foi daqui que surgiu a ideia de combinar PCMs e conforto, dois conceitos actualmente indissociáveis. JT Qual foi o grande avanço do 2C2T no âmbito dos PCM´s? JRG O PCM tem um sério inconveniente: diminui a permeabilidade ao ar por causa da utilização de ligante para impregnar as cápsulas. Por consequência, a nossa equipa procurou revestir as cápsulas com uma segunda parede de natureza termoplástica, o que implica a eliminação do ligante. Esta inovação conduziu ao registo de uma patente nacional, o que significa que em Portugal, para além da Outlast, apenas a Micropolis pode aplicar os PCMs em não-tecidos. JT Que elo de ligação há entre a Micropolis e a Universidade do Minho? JRG A Micropolis é uma spin-off da Universidade criada, aquando do pedido desta patente, com o objectivo de produzir e comercializar as microcápsulas desenvolvidas pelo 2C2T. JT Como foi feita a transposição das microcápsulas de libertação controlada para os têxteis funcionais? JRG De há 2 anos a esta parte temos desenvolvido microcápsulas com outros princípios activos, tais como aromas, anti-bacterianos, vitamina E e mais recentemente anti-mosquitos. Começou a haver um interesse crescente do mercado por este tipo de artigo, que levou empresas como a Coelima e a Têxteis Domingos Almeida a solicitar a colaboração da Micropolis para aplicação desta tecnologia em têxteis-lar à escala industrial. JT Quais as características mais inovadoras do processo desenvolvido pelo 2C2T? JRG Optimizámos a receita e aplicámo-la por impregnação, em vez do tradicional processo de estampagem. Este processo confere maior resistência à lavagem, melhor distribuição das microcápsulas por todo o material e impede a visibilidade das mesmas no substrato. JT Mas a sua curta duração de vida continua a ser um handicap… JRG …que pode ser significativamente ultrapassado. Por essa razão desenvolvemos um outro processo e uma nova microcápsula com grupos funcionais que tem afinidade para com a fibra também com grupos funcionais como é o caso das fibras de celulose, lã, acrílico e poliamida. Este processo consiste em ligar primeiro por afinidade e depois quimicamente as microcápsulas às fibras. Estes novos desenvolvimentos encontram-se actualmente em processo de registo de patente. Isto abriu os horizontes porque permite aplicar microcápsulas por processos que de outra forma não seriam possíveis, como por exemplo por esgotamento. JT Este processo pode também ser aplicado aos PCMs? JRG É mesmo nesse caso que o processo representa um grande avanço. Até ao momento, a tecnologia dos PCMs estava limitada aos não-tecidos, têxteis revestidos e têxteis laminados. O novo processo permite alargar a sua aplicação às malhas e ao denim, de cor branca, sem alterar o toque e a aparências dos mesmos. JT E quando será possível dispor de microcápsulas a cores? JRG Para artigos de cor, estamos actualmente a desenvolver uma microcápsula que tinja à cor do material para ultrapassar esse inconveniente das microcápsulas brancas. Esta microcápsula tem uma segunda parede funcional com um grupo com afinidade ao corante. Temos microcápsulas para todo o tipo de fibra à excepção do poliéster. JT Que empresas estão envolvidas nestes novos desenvolvimentos? JRG Neste momento a Micropolis está já a produzir quantidades industriais para a Aquacolor microcápsulas com aromas e microcápsulas com PCMs, aplicadas em peças confeccionadas e para a A. Sampaio em malhas. JT Foi daqui, então, que surgiu a ideia da Cool Shirt, a t-shirt mais admirada da Techtextil? JRG A Cool Shirt foi efectivamente o culminar do trabalho de aplicação dos PCM´s às malhas, algo impensável até ao momento devido à elevada elasticidade deste material. E a sua passagem pela Techtextil resultou em contactos com empresas internacionais que mostraram um vivo interesse em colaborarem connosco nesta área. JT Que novos caminhos vão desbravar os futuros desenvolvimentos do 2C2T no domínio das microcápsulas?JRG O futuro vai depender muito da forma como as empresas adoptarem e promoverem esta tecnologia aqui e além-fronteiras. Mas os nossos próximos desenvolvimentos vão certamente incluir os têxteis médicos…