Matérias-primas apostam na diversificação

Com os preços do algodão a deverem manter-se em alta, há outras fibras que deverão destacar-se, como o linho ou o cânhamo, mas também as matérias-primas mais sustentáveis, como as provenientes de práticas regenerativas.

[©Confédération Européenne du Lin et du Chanvre]

De acordo com o ICAC – International Cotton Advisory Commitee, na próxima época de comercialização dos algodões, os preços elevados destas matérias-primas deverão manter-se. «A tendência de ligeiro crescimento continuou na época 2020/2021 e não abrandou à medida que entramos na colheita de 2021/2022. O atual preço do algodão está ainda a um nível que não era visto em mais de 10 anos», refere o ICAC.

A organização, que reúne países produtores, consumidores e comerciantes de algodão, salienta a grande volatilidade da matéria-prima, tendo em conta que, sendo um produto agrícola e estando envolto em incerteza relativamente à produção, consumo, condições meteorológicas e pestes, a que se soma a pandemia, há uma grande volatilidade dos preços. «A elevada volatilidade nos preços deverá prosseguir no resto da época de 2021/2022, mas é pouco provável que o preço continue a subir muito mais do que o ponto atual», aponta.

[©Sistema CNA/Senar – Wenderson Araujo]
O ICAC estima ainda que a produção mundial aumente nesta época, para 25,73 milhões de toneladas. «Em comparação com o consumo, as estimativas de produção neste momento da época mostram que a oferta é suficiente para a procura estimada», sublinha. Por isso, «revisões favoráveis para a produção em 2021/2022 e níveis suficientemente altos de stocks mundiais finais em 2020/2021 vão continuar a apoiar o aumento da procura». Tendo isso em conta, a expectativa do ICAC é que os preços continuem moderadamente elevados no resto da época 2021/2022, antecipando que varie de 0,91 a 1,19 dólares por libra, com um valor médio de 1,03 dólares por libra.

Alternativas ao algodão crescem

Segundo o gabinete de tendências WGSN, as fibras vegetais provenientes do caule, como linho, cânhamo, rami e juta, irão ganhar importância, numa altura em que a indústria da moda procura diversificar as matérias-primas além do algodão.

O linho, sendo uma fibra natural biodegradável, precisa de um quinto do fertilizante necessário para cultivar algodão, menos água no crescimento e capta carbono para o solo, tendo um impacto muito menor que outras matérias-primas fibrosas. O linho, de resto, tem vindo a registar um aumento de popularidade – a Confédération Européenne du Lin et du Chanvre dá conta de uma maior procura por parte dos consumidores – devido à sua performance natural e características de sustentabilidade, com o WGSN a citar propriedades refrescantes, antibacterianas, de gestão de humidade, absorventes, respirabilidade, durabilidade e resistência a fungos e nódoas.

Além do linho, também o cânhamo deverá ganhar relevância, nomeadamente junto dos produtores de denim, enquanto a juta deverá ter impacto no calçado e acessórios, projeta o WGSN.

[©New Zealand Merino Company]
O gabinete de tendências aponta ainda para a procura crescente por matérias-primas que na sua produção usam práticas regenerativas, que podem ajudar a sequestrar carbono. Na Nova Zelândia, por exemplo, cerca de 170 produtores de lã merino, representando mais de um milhão de hectares de terreno, estão envolvidos numa nova plataforma para o aprovisionamento de lã proveniente de uma produção agrícola regenerativa, uma iniciativa da New Zeland Merino Company com as marcas Allbirds, icebreaker e Smartwool.

«Através do nosso trabalho na pegada de carbono com as nossas marcas parceiras, e com o apoio do Ministério das Indústrias Primárias, sabemos que as emissões nas quintas representam cerca de 60% das emissões associadas com os produtos de lã e são a nossa maior oportunidade para baixar o nosso impacto», explica John Brakenridge, CEO da New Zealand Merino Company. Por isso, acredita, a nova plataforma «é uma evolução importante e necessária do nosso programa de lã ética, o ZQ, Através da adoção de práticas regenerativas que ao mesmo tempo armazenam mais e emitem menos carbono, podemos reduzir as nossas emissões em quinta para zero».

Sustentabilidade lidera

No geral, as matérias-primas com melhor pegada ambiental estão a ganhar relevância e a atrair novos investimentos.

[©Confédération Européenne du Lin et du Chanvre]
Segundo o estudo Preferred Fiber and Materials Market Report 2021 – que analisa o mercado de fibras de plantas como algodão, cânhamo e linho; fibras provenientes de animais como lã, mohair, caxemira, alpaca, penugem, seda e couro; fibras celulósicas artificiais como viscose, liocel, modal, acetato e cupro; e fibras sintéticas como poliéster e poliamida – a quota de mercado de fibras e materiais com um perfil mais sustentável em termos sociais e ambientais aumentou significativamente em 2020.

Os números da entidade sem fins lucrativos revelam que, entre 2019 e 2020, a quota de mercado de algodão com credenciais mais sustentáveis subiu de 24% para 30% e a do poliéster reciclado cresceu de 13,7% para 14,7%. Já a caxemira registou um aumento de 0,8% para 7% e o mohair com certificação Responsible Mohair Standard atingiu uma quota de 27% no seu primeiro ano de existência em 2020. A quota de mercado de fibras celulósicas artificiais com certificação FSC (Forest Stewardship Council) e/ou PEFC (Programa para o Reconhecimento da Certificação Florestal) subiu para cerca de 55% a 60%, sendo que, indica a Textile Exchange, é de esperar que a quota de fibras celulósicas artificiais recicladas, que atualmente ronda os 0,4%, suba significativamente nos próximos anos.