Marrocos paga salários mais altos

Os salários mensais de Marrocos são relativamente elevados em comparação com outros grandes exportadores de têxteis e vestuário para a União Europeia, o que poderá minar, a curto prazo, a sua competitividade.

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A Evaillance, uma empresa francesa que analisa salários para ajudar a monitorizar a aplicação dos acordos económicos entre a UE e o Sudeste Asiático, publicou um estudo que coloca Marrocos em terceiro lugar, atrás da Turquia e da China, em termos de remuneração e muito acima de outros grandes produtores como o Bangladesh e o Paquistão.

De acordo com o estudo, os trabalhadores marroquinos ganham cerca de 307 dólares por mês, ou 1,61 dólares por hora, um valor três vezes superior ao dos trabalhadores do Bangladesh ou do Paquistão, cinco vezes o salário de um trabalhador em Myanmar e mais 50% do que o salário na vizinha Tunísia. As horas trabalhadas por semana variaram de 40 na China a 48 em seis mercados, incluindo Índia, Camboja, Vietname, Bangladesh, Paquistão e Tunísia.

«É verdade que os salários estão longe de ser um indicador absoluto dos custos de produção e ainda menos dos níveis de competitividade numa altura em que o mercado se está a reorientar resolutamente para uma fast fashion ecologicamente responsável que exige, em primeiro lugar, de flexibilidade por parte da empresa e, posteriormente,  investimentos futuros em inteligência artificial e na indústria 4.0», refere Jean-François Limantour, presidente da Evaillance, que destaca, contudo, que «estas estatísticas salariais lançam uma luz útil sobre as principais razões para a deslocalização para determinada região do mundo e, por outro lado, sobre as lacunas de desempenho dos países».

Está a haver aumentos salariais em alguns dos principais mercados produtores, como no Bangladesh, na Turquia, onde aumentou 100% no ano passado, e no Vietname, onde foi proposto um aumento salarial para 2024. Embora seja mais elevado do que em alguns países, o atual valor horário em Marrocos dá-lhe uma vantagem sobre potências na produção como a Turquia e a China, aponta o estudo.

Competitividade no vestuário em causa

Segundo o presidente da Evaillance, o poder de compra e a concorrência no sector têxtil são a principal razão para os salários mais elevados de Marrocos. O país tem uma economia próspera, com um produto interno bruto de 1,4 biliões de dirhams (cerca de 134 mil milhões de dólares), acima dos 1,33 biliões de dirhams em 2022, o que justifica salários mais elevados.

«É excelente para o poder de compra dos trabalhadores marroquinos, mas pode ser um problema para a sua indústria de vestuário, que continua a ser uma indústria intensiva em mão de obra apesar da atual integração de novas tecnologias de design, produção e comercialização», destaca Jean-François Limantour.

Já a prolongada desvalorização do dinar tunisino, juntamente com as dificuldades económicas do país e a dívida significativa, explica porque é que o salário mínimo na Tunísia é de 1,08 dólares por hora, significativamente abaixo dos 1,61 dólares de Marrocos. Entre os 10 países produtores analisados ​​pela Evaillance, o valor hora na Turquia foi o mais elevado, com 2,38 dólares, com a China a ficar em segundo lugar, com 2,19 dólares.

O estudo colocou a Tunísia no primeiro lugar em preço por quilo de roupa importada pela UE, em 36,83 euros. O Paquistão está no último lugar, com 13,49 euros por quilo, enquanto a média entre os dez primeiros da amostra foi de 21,69 euros por quilo.

O preço médio do vestuário importado de Marrocos para a UE é de 30,67 euros por quilo. Jean-François Limantour considera que é «bom, mas insuficiente, dado que é 20% menos do que na Tunísia, o seu concorrente direto juntamente com a Turquia».  Como tal, «a indústria marroquina de vestuário deve subir de gama numa estratégia orientada para a gama média/alta em circuito curto», aponta o presidente da Evaillance, que afirma que isso minimizará a exposição da indústria de vestuário marroquina aos países asiáticos e à Turquia e aumentará as encomendas destinadas ao mercado europeu.