A investigação, intitulada “Who pays? Brand Purchasing Practices in UK Fashion Manufacturing”, inquiriu 48 produtores britânicos entre março e outubro de 2025 e documenta uma transferência generalizada de risco e custo das marcas para os produtores de vestuário. Entre os principais resultados, 78% dos entrevistados afirmaram que as marcas não cobriram os custos de alterações de última hora em encomendas já confirmadas, 75% indicaram que os preços nunca foram ajustados para compensar aumentos do salário mínimo e 67% relataram que as marcas solicitaram orçamentos para grandes encomendas e posteriormente reduziram o volume, mantendo o preço unitário inicialmente acordado.
Os atrasos de pagamento verificaram-se igualmente frequentes. De acordo com o estudo, 44% dos fabricantes reportaram pedidos regulares de prorrogação de prazos de pagamento e 10% registaram atrasos superiores a três meses. Além disso, 29% contaram que as marcas exigiram descontos após a celebração dos contratos e 31% foram multados por atrasos causados pelas próprias marcas.
Sabina Lawreniuk, autora principal e investigadora em geografia humana na Escola de Geografia da Universidade de Nottingham, refere que a investigação «mostra que as práticas atuais de compra das marcas têm um impacto direto nos trabalhadores, resultando em trabalho precário e inseguro nas fábricas do Reino Unido». Os produtores reportaram ainda aumentos de horas extraordinárias para responder a subidas repentinas de encomendas (73%), redução das horas de trabalho devido a cancelamentos (58%) e despedimentos (29%) associados a mudanças contratuais inesperadas.
Apesar da dimensão do problema, os produtores mostram pouca confiança nas vias de resolução disponíveis. Apenas 21% consideram o sistema judicial uma opção viável, nenhum aponta iniciativas governamentais ou multilaterais como alternativa e 57% afirmam não ser possível contestar as marcas. Nas entrevistas, os inquiridos descreveram o receio de represálias comerciais com expressões como «não morder a mão que nos dá de comer» e «precisamos de os manter satisfeitos».
Hilary Marsh, consultora de política de vestuário da Transform Trade, sublinha que «este relatório é apenas mais uma prova dessas práticas que dominam o setor. Um Fashion Watchdog garantiria práticas comerciais justas para o setor».
Face aos resultados, o relatório apresenta duas recomendações ao governo britânico. A primeira é a criação de um Órgão Regulador do Comércio de Vestuário – o chamado Garment Trading Adjudicator –, um regulador independente responsável por supervisionar e fazer cumprir um código de boas práticas entre marcas e produtores, com poderes para aplicar multas, aceitar queixas anónimas e iniciar investigações por iniciativa própria, sendo financiado por uma taxa cobrada às próprias marcas e retalhistas. A segunda recomendação é a adoção de uma Lei de Negócios, Direitos Humanos e Ambiente, que imponha às empresas um dever legal de identificar e prevenir violações de direitos humanos nas suas cadeias de aprovisionamento.



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