Marcas estão longe da descarbonização

A organização ambiental Stand.earth acusa as marcas de moda de continuarem a depender de combustíveis fósseis para produzir os seus artigos. H&M, Puma e Levi’s têm feito progressos, mas a Shein aumentou as emissões em quase 50% num ano.

[©Pixabay-Sebastian Ganso]

No estudo 2024 Clean Energy Close Up, a Stand.Earth analisou o progresso de 11 marcas mundiais na redução de emissões, eliminação progressiva do carvão e na transição para energias renováveis. O desempenho é medido em relação ao percurso para uma eliminação equitativa dos combustíveis fósseis até 2030, com base em dados partilhados publicamente pelos produtores nas suas cadeias de aprovisionamento.

Entre as 11 marcas e retalhistas analisadas, a maioria obteve menos de 25 pontos, numa classificação até 100 pontos, o que, afirma a organização, demonstra «uma alarmante falta de progresso e ação» para a descarbonização. Apenas a Levi’s, a Puma e a H&M estão «no caminho certo para reduzir as emissões industriais em pelo menos 55% até 2030, em comparação com os níveis de 2018», reforça a Stand.earth.

Já a Lululemon, a Fast Retailing, que detém a Uniqlo, e a Shein tiveram as pontuações mais baixas.

A análise aos dados da Shein, de resto, resultou numa das «conclusões mais preocupantes do relatório»: para além de ter obtido uma pontuação de apenas 2,5 pontos, a retalhista de ultra fast fashion aumentou as suas emissões absolutas em quase 50% num ano, sendo atualmente mais poluente do que o Paraguai, compara a Stand.Earth. «O crescimento surpreendente da retalhista online, por si só, ameaça minar o progresso de descarbonização feito pelas marcas mais tradicionais», acrescenta.

A organização ambiental acusa ainda algumas marcas de greenwashing, nomeadamente a canadiana Lululemon. «A boa notícia é que está a haver progresso. A má notícia é que esse progresso está a ser minado pela poluição perigosa da ultra fast fashion e pela crescente ameaça do greenwashing. Simplificando, a maioria das marcas ainda não está no caminho certo para a descarbonização e muitas estão a caminhar na direção errada, e não importa o preço impresso na etiqueta, as pessoas e o planeta terão de pagar os verdadeiros custos. Estes grandes intervenientes na indústria da moda devem mostrar liderança, eliminando rapidamente os combustíveis fósseis e investindo em soluções tangíveis de energia renovável», sustenta Rachel Kitchin, ativista corporativa sénior pelo clima na Stand.earth e autora principal do estudo.

Os sinais de progresso são limitados, mas encorajadores, conclui o relatório, incluindo a Puma que no ano passado reportou um crescimento significativo em energia limpa, concentrando 27,4% do seu consumo de eletricidade com energias renováveis ​​nos seus dois principais níveis de fornecedores. No entanto, refere a Stand.earth, para provar que o crescimento é tangível, a empresa precisa de fornecer detalhes da geração de energia no local e dos acordos de compra de energia, em vez de créditos de energia renovável ineficazes. Além disso, a H&M oferece agora subsídios aos fornecedores para a descarbonização – a única marca a fazê-lo – através da instalação de energia solar nos telhados, por exemplo. Contudo, a retalhista sueca ainda não divulgou totalmente o seu progresso na eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e na mudança para energias renováveis.

O relatório é acompanhado pelo recém-lançado Fashion Supply Chain Map, que fornece uma ferramenta interativa para explorar algumas das relações mais interligadas com fornecedores e destaca a extrema ambição em comparação com a lacuna de implementação entre as marcas e os seus principais produtores.

«Neste momento, os fabricantes estão a ser o “bode expiatório” da poluição da moda, enquanto as marcas embolsam os lucros a uma distância segura. O facto das marcas não assumirem a responsabilidade pelas suas emissões, financiando e permitindo a transição para energias renováveis, ao mesmo tempo que continuam a produzir mais produtos, significará uma maior dependência dos combustíveis fósseis no Sul Global, onde os seus produtos são feitos, e causará impactos prejudiciais à saúde e ao clima durante décadas. As marcas têm de pagar pelas mudanças que exigem, financiando a transição para energias renováveis ​​nas suas cadeias de aprovisionamento, e ser mais transparentes sobre quem são os seus fornecedores e onde estão localizados», conclui Rachel Kitchin.