Marcas de moda escondem resíduos

Quase nove em cada 10 marcas de moda não revelam os seus volumes de produção anual e 99% não se comprometeram a reduzir o número de novos artigos que produzem, de acordo com o Fashion Transparency Index 2023.

[©Fair Wear Foundation]

Na sua sétima edição, o estudo publicado pela Fashion Revolution analisou 250 das maiores marcas e retalhistas de moda, com volumes de negócios superiores a 400 milhões de dólares, com base nos dados que publicam sobre políticas, práticas e impacto no meio ambiente e nos direitos humanos, tanto nas suas operações diretas como nas suas cadeias de aprovisionamento.

Numa análise geral, o estudo concluiu que a indústria da moda mundial fez poucos progressos em termos de transparência – a média geral foi 26%, apenas 2% acima do valor do ano passado.

Há, contudo, alguns avanços positivos, nomeadamente o facto de mais de metade (52%) já revelarem a lista de fornecedores diretos (em comparação com 32% no primeiro estudo, em 2017).

Outro marco importante, refere a Fashion Revolution, é haver uma marca de luxo que, pela primeira vez, tem uma das pontuações mais altas das 250 analisadas – a Gucci surge no segundo lugar deste ranking, atrás da OVS, com uma média de 80% de transparência. Aliás, depois de anos em que tomaram poucas medidas, as cinco principais mudanças este ano dizem precisamente respeito a marcas de luxo (Gucci, Armani, Jil Sander, Miu Miu e Prada), com a maior subida a ser registada pela Gucci (+21%).

«Enquanto ativistas, é uma loucura ter de estar sempre a exercer pressão sobre aquilo que, em último caso, é o mínimo que devíamos esperar de grandes marcas de moda», sustenta Liv Simpliciano, diretora de política e investigação da Fashion Revolution. «O progresso pouco relevante é preocupante face ao aprofundamento da desigualdade social, destruição ambiental e vários pacotes legislativos que estão a chegar. Estamos satisfeitos por uma pequena parte das marcas estarem finalmente com valores de 80% ou mais altos, mas mesmo 100% de transparência é apenas o ponto de partida e parece que muitas grandes marcas de moda têm ainda de aparecer para a corrida. O tempo está a esgotar-se e, no entanto, a maior parte da indústria da moda continua a fincar o pé e a recusar-se a mudar», sublinha.

O Fashion Transparency Index 2023 aponta que 99% das marcas analisadas não revelam o número de trabalhadores da sua cadeia de aprovisionamento que recebem um salário digno, 94% ainda não indicam que combustível é usado na produção do vestuário que vendem e a maioria não desvenda os volumes de produção anuais nem se compromete a reduzir a confeção de novos artigos, apesar da legislação que está a ser preparada para mitigar os resíduos têxteis.

Além da OVS (83%) e da Gucci (80%), o top 10 do Fashion Transparency Index 2023 é ocupado pela Kmart Australia, Target Australia (ambas com 76%), United Colors of Benetton (73%), H&M (71%), C&A (68%), Puma, The North Face e Timberland (as três últimas com 66%).

Num recorde mais negativo, 18 marcas (em comparação com as 15 do ano passado) registaram uma classificação 0%, incluindo Max Mara, New Yorker, Tom Ford e Van Heusen.