Mais importante do que dinheiro do Estado são as Oportunidades

Se precisássemos de fazer a caracterização da empresa Lamia, especialista em vestuário feminino, no que são as suas três principais vantagens comparativas no contexto actual global, dir-se-ia que são as apostas no design, na marca própria (desde a criação da empresa), e na flexibilidade interna na gestão das flutuações da procura de mercado, que lhes têm proporcionado os bons resultados, ano após ano. Começando por este último aspecto de gestão, porventura um dos mais complicados nos últimos anos, a adaptabilidade foi conseguida negociando, caso a caso, uma significativa redução dos trabalhadores, e passando a subcontratar quando tal se tornasse necessário. «A Lamia chegou a ter 80 trabalhadores, contando agora com 33, subcontratando inúmeros serviços para séries pequenas a várias empresas desta região, num raio de 10 km, o que permite responder a flutuações da procura», refere Ana Leal, directora comercial da Lamia, ao Portugal Têxtil (PT). Elogiou o novo Acordo de Contratação Colectiva que a Anivec/Apiv assinou com os parceiros sociais da Fesete, cuja possibilidade de negociar com a equipa de produção uma semana de 50 horas de trabalho, compensadas com férias num período com menor procura do mercado, «já vai ser utilizado agora», salienta ao Portugal Têxtil. «Precisámos de trabalhar mais uma hora por dia para satisfazer uma encomenda extraordinária, e brevemente daremos férias à equipa num período com menos pressão de trabalho. Antigamente precisávamos de ter o acordo de 99% dos trabalhadores, o que tornava o processo de adaptação a flutuações deste género, muito mais difícil», complementa. Outro problema que tem enfrentado é o do elevado absentismo, «que ainda ronda os 20% e as baixas por doença de vários anos», que ainda tiram muita potencial capacidade de produção. «Mas está um pouco melhor, até porque a fiscalização é um pouco mais eficiente», complementa Ana Leal. A Lamia começou a produzir vestuário clássico para senhora com marca própria com o mesmo nome há 40 anos, num projecto dirigido pelo pai de Ana Leal, que ainda mantém a gestão familiar da empresa, com a mãe de Ana a responsabilizar-se inicialmente pelo design, começando depois a partilhar esse pelouro com designers portugueses de renome. Já trabalharam com José António Tenente, Nuno Gama, António Simões, e agora trabalham com Paulo Cravo, assessorado regularmente pela mãe e pela irmã da directora comercial, «num diálogo permanente». As compras de matérias-primas são feitas em Portugal e Itália, quase equitativamente, sendo que, para Ana Leal, para o mesmo nível de preço, os artigos italianos ainda vencem os nacionais nos acabamentos e no design, mas estes últimos estão cada vez melhores nestes atributos. Oitenta por cento da carteira de clientes é portuguesa, e desde há quatro anos para cá que deixaram de se dedicar exclusivamente à sua marca Lamia, trabalhando para private label, numa segunda carteira de cientes também com uma forte componente nacional. No caso da marca própria, a internacionalização faz-se sobretudo para Espanha, Reino Unido e Escandinávia, constituindo este último uma aposta crescente, em detrimento do primeiro. Se Espanha se caracteriza actualmente por alguma falta de liquidez e dificuldades de pagamento, já o norte da Europa tem proporcionado boas surpresas. Graças às iniciativas de internacionalização de marcas portuguesas da Anivec/Apiv e do Icep, e de bons contactos proporcionados por este último, a primeira vez que a empresa foi à Stockholm Fashion Week arranjou logo agentes e começou a trabalhar naquele mercado, assim como já tem dois agentes a trabalhar na Dinamarca, onde frequentou a feira de Copenhaga Ciff. «Os clientes desta região são de trato familiar e depois de conquistados, de uma grande fidelização», salienta Ana Leal. O próximo passo pode ser para Moscovo, pois a directora gostou das informações auspiciosas que o consultor da CPM deu no workshop da Anivec/Apiv sobre «Como fazer negócios na Federação Russa», mas numa primeira abordagem vai como visitante. A directora comercial refere ao PT que está satisfeita com o trabalho das Associações, se bem que «se pode fazer sempre um pouco mais, e quando há menos dinheiro é-nos sempre exigido ter mais imaginação. Creio que é importante transmitirem ao Governo as dificuldades que as empresas atravessam, e como as podem ajudar, e não é dando dinheiro, mas sim mais oportunidades, mais ferramentas de trabalho». A empresa de Valongo vê o futuro do Sector com serenidade se se apostar na qualidade, no design, e na resposta rápida. Apresentou um volume de negócios de 1,2 milhões de euros em 2005, estando o ano de 2006 «a correr bem em termos de resultados», e a verificar-se que alguns clientes que estavam a deixar o país nos últimos anos, estão a regressar, muito provavelmente para recuperar as três características atrás descritas, que a ITV portuguesa tem sabido assegurar e capitalizar.