Made in Italy» vs. «Made in China» – Parte II

Em Itália, a perda de quota de mercado tem afectado significativamente não apenas os sectores têxtil e de vestuário (como referido na Parte Ideste estudo), mas também o sector de calçado. Rossano Soldini, director geral da Associazione Nazionale Calzaturifici Italiani (ANCI), queixa-se das inaceitáveis disparidades da concorrência e responsabiliza a China pelas dificuldades do sector. Soldini acredita que a eficiência e a produtividade das empresas italianas de calçado não são parte do problema. Acredita também que a própria fragmentação sectorial, associada às pequenas e médias empresas familiares, também não é responsável pela actual situação sectorial. Mas estes pontos são questionáveis. A empresa familiar, aparentemente flexível, empenhada no investimento e desenvolvida com lealdade ao longo de sucessivas gerações, tem sido amplamente reconhecida como uma força da indústria italiana. Mas demasiadas destas empresas não possuem a escala que necessitam para sobreviver em mercados mais competitivos. O censos de 2001 veio mostrar que as empresas têxteis na província de Varese empregavam em média apenas 12 trabalhadores, enquanto que as empresas de vestuário empregavam em média metade deste número. As micro e mini empresas abundam na região do Prato, 85% das quais empregam em média menos de 9 trabalhadores e apenas 1% mais de 50 trabalhadores. As empresas italianas de calçado empregam apenas 14 trabalhadores em média. A especialização de acordo com a qual uma empresa realiza apenas uma fase do ciclo de produção, explica em parte esta fragmentação. Mas o desejo por independência e a timidez em relação a estranhos também contribuem negativamente para a concentração e a consolidação. Enquanto que em décadas anteriores estas características foram vantajosas para os clusters, em relação aos grandes investimentos industriais das economias ocidentais concorrentes, hoje em dia os processos são demasiado ineficientes para serem competitivos em todos os segmentos, excepto nos de maior valor acrescentado. Franco Pantaleoni, consultor na Tangelo, empresa de subcontratação sedeada em Hong Kong, é muito crítico em relação aos clusters. De acordo com este responsável, os clusters encorajaram a falta de visão, o mercado negro e o consumismo, ao mesmo tempo que desencorajaram a educação e não conseguiram preparar as empresas para a mudança. Ao dependerem de uma única indústria, os clusters também deixaram as regiões vulneráveis a mudanças nos negócios locais. No entanto, a economia de Treviso é diversificada e o emprego ainda não é um problema em Carpi, onde a indústria e as lojas da cidade deixam transparecer o bem-estar. A província de Varese beneficia uma vasta indústria de engenharia e da sua proximidade a Milão. Mas, com a sua dependência nos lanifícios, Biela é menos afortunada. «Nenhum dos meus predecessores teve de lidar com a questão do desemprego», conforme refere Vittorio Barazzotto, presidente da câmara de Biela. «Hoje em dia, pequeno mas bonito representa na realidade fadiga», refere Giovanni Burani, director-executivo da Mariella Burani Fashion Group. Buranni acredita que as empresas independentes de pequenas e médias dimensões precisam de crescer, mas não têm espaço para erros enquanto tentam concretizar esse crescimento. A presença do seu grupo na bolsa de valores de Milão em 2000 gerou os fundos monetários necessários para uma estratégia de crescimento através de aquisições de marcas e licenças de vestuário e acessórios. Como resultado desta iniciativa, o volume de negócios quase que triplicou desde o ano 2000. Poderá existir espaço para que alguns nichos de mercado sobrevivam. O cluster em torno da cidade de Stra, localizada entre Veneza e Pádua, fabrica calçado de luxo que é vendido ao cliente final por cerca de 400 dólares o par nos Estados Unidos. Cerca de 350 oficinas, empregando 8.000 pessoas, fabricam 20 milhões de pares de sapatos por ano para marcas internacionais de moda como Chanel, Christian Dior e Givenchy. Estes fabricante não apresentam queixas sobre o actual estado do negócio, mas mesmo estes artífices podem estar a viver um período de bonança passageira. Algumas empresas deixaram a produção e optaram por adicionar valor através do design e da investigação e desenvolvimento. Carlo Rivetti é um exemplo. No início dos anos 80 fundou a C. P. Company, uma empresa dedicada ao design de vestuário de desporto e informal, perto de Carpi. «Nós não somos moda, mas design, mais próximos da Pininfarina ou da Ferrari do que da Fiat», refere Rivetti. A investigação em materiais como Kevlar, fibras ópticas e aço encontra-se no cerne do negócio. No entanto, não pode existir um nicho de mercado para toda a gente e, nichos à parte, a sobrevivência das empresas de calçado, de têxteis e de vestuário em Itália depende da capacidade dessas empresas em conseguirem implementar as estratégias certas em torno de quatro factores fundamentais: marcas, posicionamento no mercado, exportação e compras cuidadosas em termos de preço e qualidade. Muitas empresas estão a aguentar-se e até a prosperar, mas com base no desenvolvimento suportado em marcas estabelecidas no mercado. Por exemplo, a Ermenegildo Zegna, com sede próxima de Biella, revela pouco receio no seu futuro. Reconhecida internacionalmente pelos seus fatos para homem, a empresa possui uma marca forte. Esteve na vanguarda das marcas internacionais a entrar no mercado chinês, realizando os primeiros investimentos em 1991 e possui actualmente 24 pontos de venda a retalho na China, refere Ermenegildo Zegna neto do fundador da empresa. O grupo está verticalmente integrado e fabrica principalmente em Itália, referindo que tal ainda não se revelou um problema. Outros também se ligaram aos produtores locais posicionando-se astuciosamente no mercado e construindo sistematicamente as ligações comerciais que sustentam as suas exportações. Mariella Buran, que realiza 70% das suas vendas no estrangeiro, subcontrata toda a sua produção, 70% da qual em empresas italianas. Outra empresa de Carpi, que detém as marcas de luxo Blumarine e Anna Molinari, utiliza produtores locais. Muitas marcas de gama média já deslocalizaram quase toda a sua produção para o estrangeiro. Apenas 10% do vestuário de desporto vendido pela Navigare, com sede em Carpi, é fabricado em Itália. A maior parte do vestuário é fabricada na unidade industrial da empresa localizada na Bulgária ou noutro local da Europa de Leste. Sauro Mambrini, director da Champion Europe, marca internacional de vestuário de desporto com sede em Carpi, refere que os seus fornecedores emigraram de Itália para a Europa de Leste no final dos anos 80, para a Turquia alguns anos depois e na segunda metade do anos 90 para o Extremo Oriente. O gabinete de aprovisionamento da Champion Europe em Singapura compra actualmente 30% das necessidades da empresa. A mesma tendência tem-se verificado no calçado. A Roménia tem sido um pólo de atracção para os empresários italianos, principalmente para os sedeados no Nordeste de Itália. Graças à geografia e aos custos laborais mensais de cerca de 250 euros, contra um valor mínimo de 2.000 euros em Itália, os italianos detêm cerca de 1.500 empresas de têxteis e de vestuário e 1.000 fábricas de calçado na Roménia e empregam cerca de 200.000 trabalhadores neste país.À medida que a pressão da China aumenta ao longo dos próximos anos, até mesmo estas empresas poderão encontrar-se numa batalha cada vez mais feroz pela sobrevivência.