Made in Italy por chineses – Parte 1

Prato, a histórica capital da indústria têxtil e vestuário de Itália, atraiu em menos de 20 anos a maior concentração de empresas operadas por chineses na Europa. De certa forma, a comunidade chinesa de Prato teve sucesso onde as empresas italianas falharam. A economia italiana pouco cresceu ao longo da última década e está apenas a emergir da recessão, em parte devido à dificuldade de muitos pequenos fabricantes para acompanhar a concorrência global. No entanto, Prato, que fica a 25 km de Florença, é também um próspero centro de ilegalidades cometidas tanto por italianos como por chineses, um subproduto errado da globalização, como referem muitas pessoas na cidade. Dois terços dos chineses em Prato são imigrantes ilegais, segundo as autoridades locais. Cerca de 90% das fábricas chinesas – praticamente todas estão arrendadas a empresários chineses por italianos que possuem os edifícios – infringem a lei de várias formas, conforme refere Aldo Milone, o vereador responsável pela segurança. Entre as ilegalidades incluem-se a utilização de tecido contrabandeado da China, a fuga aos impostos e a violação grosseira das normas de saúde e trabalho. Um recente incêndio, que as autoridades suspeitam ter sido desencadeado por um fogão elétrico, matou sete trabalhadores que dormiam em cubículos de cartão numa fábrica. Os próprios responsáveis italianos reconhecem que não reprimiram de forma eficaz a proliferação do comportamento ilícito. O presidente da Câmara Municipal de Prato, Roberto Cenni, ele próprio empresário têxtil, chegou ao cargo em 2009 com a promessa de limpar a região. Cenni revelou ter triplicado as inspeções desde então, mas apenas uma pequena fração das fábricas são monitorizadas regularmente. «Não temos meios para lutar contra este sistema de ilegalidade», afirmou, justificando que Prato tem apenas dois inspetores laborais. Em alguns casos as autoridades locais partilham a culpa. Piero Tony, promotor principal de Prato, ordenou recentemente a prisão de 11 pessoas no espaço de um mês, incluindo um funcionário da Câmara Municipal, suspeito de emitir falsas autorizações de residência, ao preço de 600 a 1.500 euros cada, a mais de 300 imigrantes chineses desde maio. A maioria dos chineses de Prato vem de Wenzhou, uma cidade costeira na província de Zhejiang. Eles começaram a afluir à região em meados da década de 1990 para trabalhar em fábricas têxteis italianas e rapidamente dominaram toda a cadeia de produção. Andrea Cavicchi, diretor local da associação empresarial Confindustria (Confederazione Generale dell’Industria Italiana), explica que a entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001, soou o alerta da morte para muitos dos artesãos de vestuário de Prato, à medida que as barreiras comerciais da União Europeia, que protegiam os seus produtores, foram gradualmente eliminadas. Quando as empresas locais, especializadas em tecidos de alta qualidade, começaram a cortar postos de trabalho para competir com as importações estrangeiras mais baratas, os empresários chineses começaram a arrendar armazéns italianos abandonados para criar as suas próprias fábricas. Aos poucos, os chineses de Prato ofereceram rapidez, eficiência e alta produtividade, que faltavam a muitas empresas italianas. Agora estes chineses exportam milhões de peças de vestuário de baixo custo (uma camisa de algodão para mulher é vendida por menos de 2 euros, um casaco por 12 euros) para todo o continente com a etiqueta “made in Italy”. A delegação da Confindustria em Prato estima que o negócio represente 2 mil milhões de euros por ano, ou seja, metade do volume de negócios dos produtores de têxteis italianos no distrito. «Entre 2001 e 2011, a indústria têxtil italiana em Prato tem visto o seu volume de negócios e a sua força de trabalho diminuírem para metade. Mas a realidade é que não podemos culpar os chineses. O problema é que os nossos custos de trabalho e de energia significam que não conseguimos competir», argumenta Cavicchi. «A velocidade é fundamental. Em apenas três dias, eles podem fabricar milhares de peças de roupa», sublinha. A segunda parte deste artigo dá a conhecer melhor os pormenores da comunidade chinesa em Prato e o impacto na região.