Luxo perde força

O mercado de artigos de luxo no Dubai começou a ficar saturado mesmo antes da crise financeira, iniciada no ano passado, e o status de exclusividade do sector corre o risco de ficar fragilizado, segundo revelou um economista do Standard Chartered Bank. Tendo a região do Golfo registado um forte impulso económico nos seis anos anteriores a 2008, os retalhistas de luxo expandiram-se rapidamente no Dubai, com o objectivo de conseguir mais vendas junto dos árabes ricos do Golfo e dos turistas que viajam ao segundo principal destino turístico árabe, depois do Egipto. «Um dos maiores riscos no mercado “high end” no Dubai é a saturação, o risco de erosão de parte da imagem do luxo», explicou o economista-sénior da Standard Chartered, Philippe Dauba-Pantanacce, na Cimeira Mundial do Luxo da Reuters, no Dubai. «Temos verificado um colapso do mercado do luxo nesta área, mas, mesmo antes da crise, a invasão das marcas de topo na região teve uma extensão tal que quase sufocou o mercado em termos de presença de insígnias». Nos mercados ocidentais, como os EUA, as marcas de designer são capazes de transferir o excesso de stock de estações anteriores para outlets, onde os compradores esperam descontos, sem diminuírem o valor da marca, referiu Dauba-Pantanacce. Mas, refere, «no Dubai não há premissas desse tipo suficientes para servir como uma solução para os stocks existentes e tornar o sistema mais sustentável». Os retalhistas enfrentam, por isso, um dilema – se cortarem demasiado nos preços, podem prejudicar a sua imagem a longo prazo. Os centros comerciais no Dubai, onde se encontra o maior “shopping” do mundo e um outro com uma pista interior de ski, sofreram uma quebra acentuada nas vendas desde que a progressão económica dos Emiratos parou no Outono do ano passado. O colapso do mercado imobiliário e de capitais levou muitos consumidores locais a repensarem as suas compras de luxo, ao mesmo tempo que a quebra no turismo também prejudicou as vendas, já que os compradores de visita representam cerca de um quinto do mercado total, afirmou Dauba-Pantanacce. A confiança dos consumidores nos Emiratos árabes Unidos caiu nos seis meses até Abril, com os residentes a preocuparem-se com a segurança dos seus postos de trabalho e a temer que as exportações de petróleo sejam afectadas pela recessão durante mais do que um ano, segundo mostrou um estudo recente da empresa de estudos de mercado Nielsen. A região «tem vindo a sofrer consequências, mas há ainda muita riqueza», revelou Dauba-Pantanacce, referindo-se ao PIB per capita dos residentes no Golfo que atinge os 100 mil dólares (perto de 72 mil euros) por ano no Qatar, o maior exportador de gás natural liquefeito do mundo. Nos Emiratos árabes Unidos, o PIB per capita é de cerca de 45 mil dólares e na Arábia Saudita fica-se entre os 15 mil e os 17 mil dólares – o que mostra que o PIB per capita nos residentes do Golfo excede a média. A procura entre os milionários e bilionários na região «pôs um travão na catástrofe» afirmou Dauba-Pantanacce, acrescentando que o potencial de crescimento entre as populações locais é ainda robusto: «há ainda muita riqueza na região por parte da população local». Apenas 3% do PIB do Dubai vem do petróleo. O emirato apoia-se, ao invés, na construção, no retalho, no turismo, no comércio e nos serviços financeiros para o seu volume de negócios. Em grande parte devido ao abrandamento no Dubai, a Standard Chartered antecipa que o crescimento económico nos Emiratos árabes Unidos abrande 0,5% este ano, após ter registado uma contracção no primeiro semestre.