Luta por um lugar ao sol

Enquanto as principais marcas de moda italianas pisaram as passerelles da Semana de Moda de Milão, os jovens designers do país encontraram outras formas de mostrar as suas coleções, numa tentativa de entrar num mercado cada vez mais difícil. Uma economia italiana estagnada atingiu severamente a indústria, levando muitas grandes marcas para mercados mais fortes ou emergentes, deixando os jovens designers que não têm os recursos para os seguir a terem de atrair os compradores através de outros meios. Numa sala com candelabros a surgir de tetos pintados com frescos numa das ruas mais movimentadas de Milão, o designer siciliano Fausto Puglisi esteve numa azáfama entre convidados, dando a cada um uma explicação pessoal e breve da sua coleção, que está a mostrar com manequins estáticos. «Os jovens designers têm “a lata” para dizer “para o diabo com as tendências, eu sou original, as minhas criações são lindas e eu acredito nelas”», afirmou. «Sou siciliano, por isso sou apaixonado e desobediente. Posso um dia vir a ter um desfile formal na passerelle, mas agora estou a concentrar-me em criar relações com os compradores», o que ele faz com apresentações íntimas que têm lugar em paralelo com os grandes eventos da moda. O designer de 35 anos pode não ter formação formal em design mas já tem uma vantagem em relação a outros designers italianos independentes: celebridades como Madonna e Beyonce usaram as suas criações inspiradas nos gladiadores romanos e incrustadas de joias. Puglisi é apenas um de dezenas de designers independentes que esperam atrair a atenção de centenas de compradores internacionais que vão aos desfiles das passerelles de Milão, fazendo a apresentação das suas coleções em localizações únicas ou de forma pouco usual. «É cada vez mais difícil para os novos designers emergir em Itália. Não houve muitos nomes a surgir de novo na cena da moda», ressalvou Salvo Testa, professor de gestão de moda na Universidade Bocconi, em Milão. «Os mais jovens precisam de muito dinheiro para serem notados ou precisam de coragem para apresentar produtos realmente inovadores de formas inovadoras», indicou. Marta Ferri, de 27 anos, abriu uma exposição de dois dias num salão, onde esteve a mostrar a sua coleção para a primavera-verão 2013 criada através de uma série de fotografias tiradas pela sua amiga fotógrafa Margherita Chiarva. Ferri, que começou por criar roupa para si e para as suas amigas, afirmou que aproveitou as capacidades artísticas que herdou do seu pai fotógrafo para o conceito da exposição, e espera «sobressair da multidão indo contra as tendências». Bem perto da catedral gótica da cidade, os jovens designers responsáveis pela marca Leitmotiv – que é vendida em 60 lojas multimarca em Itália – tiveram uma ideia semelhante, fazendo uma exposição baseada nos seus passados artísticos. «Não é fácil, porque fazemos tudo sozinhos: desenhar as roupas, comprar os tecidos, organizar os eventos, procurar compradores», afirmou Fabio Sasso, que lançou a marca há cinco anos com o colombiano Juan Caro. «Não queríamos fazer o tradicional. Estudei História da Arte e Juan pintava e por isso aproveitamos essas características para criar um evento exclusivo com um cenário para a mostra onde imagens em movimento captam os nossos estampados», explicou. A coleção, batizada Dream Day, apresenta praias, óculos de sol e gelados em estampados coloridos de férias que saltam de ecrãs gigantes na parede, transportando o visitante, com um copo de champanhe na mão, para destinos longínquos. As apresentações originais onde os designers podem ter contacto direto com os compradores pode ser a via a seguir, considera Testa. «Muitas marcas estão a mudar a sua forma de comunicar, criando ligações pessoais através de eventos ou da Internet», referiu. Segundo Barbara Toscano, diretora do campus de Milão do Instituto de Moda Marangoni, «lançar uma nova marca está certamente mais difícil». «Os consumidores italianos estão muito envolvidos e são muito exigentes. Os designers têm de apresentar um projeto que seja original e versátil e precisam também de ajuda das instituições, que podem criar ocasiões para que conheçam compradores e os meios de comunicação social», indicou. Um desses jovens designers que teve ajuda foi Michela Loberto, de 35 anos, que mostrou a sua primeira coleção num encontro com bloguistas de moda organizado pelo evento Food is Fashion que tem lugar em paralelo com os desfiles na passerelle. Os seus vestidos e casacos cortados a partir de materiais vintage e usados com máscaras de gás despertaram a curiosidade das jovens fashionistas que passaram no evento para tomar uma bebida. «É um mundo de tubarões. Não estou a pensar no estrelato, atualmente apenas quero ter o meu próprio atelier e depois ter os meus designs vendidos em Berlim ou Londres. A chave é permanecer no nicho, com roupas que não possam ser compradas em mais lado nenhum», concluiu.