Lixo de grandes marcas prejudica saúde no Camboja

Resíduos de, pelo menos, 19 marcas internacionais, incluindo a Adidas, Gap, Kiabi e Primark, estão a ser usados para alimentar os fornos em fábricas de tijolos no Camboja e a afetar a saúde dos trabalhadores.

[©LICADHO]

A acusação foi feita pela The Cambodian League for the Promotion and Defense of Human Rights (conhecida pelo acrónimo francês LICADHO), que no relatório “Bound by Bricks: An Opportunity to End Debt Bondage and Child Labour in Cambodia’s Brick Factories” afirma que as fábricas de tijolos «muitas vezes queimam vestuário como combustível barato para os fornos».

A organização encontrou resíduos de vestuário pré-consumo em cinco fábricas ainda operacionais e duas fechadas permanentemente em visitas que fez entre abril e setembro de 2023, de pelo menos 19 marcas internacionais.

«Queimar resíduos de vestuário expõe os trabalhadores das fábricas de tijolos, as suas crianças e as comunidades vizinhas a emissões nocivas, que estão associadas a impactos negativos na saúde e no ambiente», sublinha a LICADHO, que refere que os trabalhadores que entrevistou que estiveram expostos a fumo da queima de resíduos de vestuário reportaram problemas respiratórios, dores de cabeça e mal-estar durante a gravidez.

As marcas mencionadas no relatório da LICADHO são a Adidas, C&A, Cropp and Sinsay, Disney, Gap, Old Navy, Athleta, Karbon, Kiabi, Lululemon Athletica, Lupilu, No Boundaries, Primark, Reebok, Sweaty Betty, Tilley Endurables, Under Armour e Venus Fashion.

[©LICADHO]
A organização afirma ter escrito às marcas ou empresas detentoras das mesmas a comunicar as suas conclusões, tendo obtido, até 19 de novembro, resposta da Adidas e da Lululemon Athletica, que afirmaram pretender investigar a situação, e da Cropp and Sinsay (detida pela LPP) e da Tilley Endurables (da Gibraltar & Company), que assumiram ir tomar outras medidas. Já a Lupilu, marca da retalhista alemã Lidl, solicitou uma reunião com a LICADHO.

A Reuters indica que, no caso da Adidas, que se aprovisiona junto de 16 fábricas no Camboja, existe uma política ambiental que determina que todos os resíduos de fornecedores de vestuário devem ser entregues para serem usados como fonte de energia em unidades de queima aprovadas, que têm regulamentação e controlo da qualidade do ar, ou a centros de reciclagem licenciados pelo governo.

A agência de informação indica ainda que a Primark, que conta com 20 parceiros de sourcing no país, está a investigar a questão, a C&A destacou que cumpre as leis locais e que monitoriza os seus fornecedores através de avaliações e visitas por parte de terceiros e que, como tal, vai investigar imediatamente qualquer irregularidade, e a Tilley Endurables mostrou-se «muito preocupada» com as conclusões, alegando que só trabalha com fábricas que passaram auditorias. A marca da Gilbratar & Company revelou à Reuters que a fábrica que produziu os seus artigos foi auditada pela WRAP (World Responsible Accredited Production) e se comprometeu a assegurar a gestão adequada de resíduos com base nas leis locais e standards reconhecidos internacionalmente. A Tilley realçou que investigou e concluiu que a fábrica usa uma empresa de resíduos licenciada pelo Ministério do Ambiente do Camboja e que não tem visibilidade sobre o que acontece aos resíduos após a recolha.