Liberalização: O Deve & Haver Final – Parte II

O que dizem as Associações: Anil Empresas resistem A ANIL encara a globalização do comércio como uma inevitável necessidade social. Na perspectiva de uma melhor distribuição da riqueza entre todos os continentes e países, contributo indispensável para a justiça e a paz mundiais, o que deveria ser feito progressivamente, acompanhando a evolução do respeito pelas regras internacionais do comércio e em reciprocidade, ponderadas as diferenças iniciais para tratamento mais favorável aos países economicamente mais débeis. Neste contexto a China não é uma ameaça e aceitam-se pacificamente as normais consequências da liberalização. O que não se aceita é que exista comércio livre, ou ilusoriamente limitado e que é desleal, contrariando os pressupostos, invertendo os valores e esmagando a concorrência, pela prática continuada de preços que só encontram explicação na ausência de quaisquer condições sociais e ambientais e na utilização de substanciais ajudas económicas governamentais à exportação. Em 2005 a China, para além dos aumentos de vendas desmedidos em peças de vestuário, também aumentou de várias vezes as exportações para a Europa de várias qualidades de fios e tecidos de lanifícios, assim como a Turquia que mais que duplicou a sua quota de mercado nas mesmas qualidades. Saliente-se que a Industria de Lanifícios não fabrica produtos finais e os seus clientes são quem, directa ou indirectamente, fabrica vestuário. Com as enormes importações de roupa da China, muitos fabricantes de vestuário europeus fecharam e com os restantes a importarem mais fio e mais tecido, o mercado disponível encolheu substancialmente. São dois factos concorrentes para maiores dificuldades e, com esta situação, temos de considerar muito notável registar que foi inferior a 15% a diminuição de actividade nesta indústria, provando a inovação e a excelente qualidade e design dos seus produtos e uma forte agressividade comercial. Anit-Lar Pouco Tempo O ano de 2005 foi adverso. A liberalização do comércio têxtil mundial, mesmo que tivesse sido acompanhada de regras claras, justas e equitativas, importaria uma primeira fase de reajustamento com alguma retracção nos negócios. Mas não foi só esta desregulação que esteve em causa. Durante 2005, a Comissão Europeia mais pareceu representar os interesses dos Países Terceiros do que o dos seus Estados-membros desrespeitando o princípio da solidariedade inscrito nos Tratados – e de que citamos três casos paradigmáticos- o famigeradamente célebre acordo com a China de Junho e Setembro e a proposta no final do ano para serem autorizadas mais importações; e o caso das sucessivas tentativas de alterar ou suspender os direitos anti-dumping aplicáveis à exportação paquistanesa de lençóis. De facto, o Acordo de Junho com a China, que visava auto-limitar a exportação de 10 produtos têxteis e vestuário, demonstrou, em primeiro lugar, que este País fazia batota no comércio mundial e por essa razão foi preciso accionar um género de cláusula penal correctiva. Mas esse Acordo, que a ANIT-LAR de per si e integrando a Federação da Indústria Têxtil e do Vestuário de Portugal veementemente contestou, era um desastre por ser absolutamente desequilibrado. Basta para tanto um pequeno estudo comparado com o Acordo EUA/China para se compreender como foi possível, neste último, considerar o interesse legítimo dos importadores, dos produtores, do retalho, em suma do consumidor, ao invés do celebrado pela Comissão Europeia. Na opinião da ANIT-LAR, e no que respeita os produtos de têxteis-lar, o Acordo de Junho nada apresentou de vantajoso para as nossas empresas e a classe política, responsável pelo problema em que estamos, continua a desaproveitar o pouco tempo que resta para reequacionar o comércio mundial. O ano de 2006 vai ser muito difícil e muito trabalhoso, mas os industriais de têxteis-lar tudo farão para aproveitar as oportunidades que o mercado apresenta, potenciando os sinais positivos, ainda que escassos, que a recente Heimêxtil trouxe e que os próximos meses permitirão confirmar. Anivec/Apiv Ano decisivo O balanço é, consideradas as circunstâncias, apesar de tudo, menos negativo do que seria de esperar quando a China, principalmente, irrompeu pelos nossos mercados ( em especial o Europeu ) como uma enxurrada que tudo submerge, apoiada na permissividade do Comissário Mandelsson por solicitação da grande distribuição. A ITV demonstrou grande vitalidade e capacidade de reacção. Não sei de muitas indústrias transformadoras capazes de dar tanta luta a uma investida assim. Este ano vai ser determinante para a Indústria. Temos vindo a ganhar tempo para permitir à política fazer a sua parte que é levar à razão as Entidades Europeias que tão permissivas se mostraram, em contraste com os EUA, com o Brasil, a Turquia e outras grandes potências têxteis. O que só faz convergir ainda mais o apetite da China sobre o nosso mercado, que tradicionalmente é o mercado europeu. Por sua vez, têm-se dado passos enormes no sentido da criação de colecções que espelhem o que muito sabemos nessa área, e que, afinal já fazemos há muito para as grandes marcas internacionais, na obtenção de marcas próprias, no Marketing, na internacionalização das empresas, enfim na valorização dos produtos nacionais. Temos vindo a diversificar a oferta e a procurar alargar a nossa acção aos países de Leste, à Rússia, aos países da bacia mediterrânica que pela sua proximidade e pelo prestígio que a nossa Indústria aí goza parecem um destino talhado para a ITV nacional. A ANIVEC/APIV procurará conseguir parcerias com o ICEP que promovam as nossas Marcas no Atlântico Sul, no Brasil, em Angola e Moçambique e outros países de expressão portuguesa. Não será tarefa fácil, dada a protecção aduaneira de que estes mercados se revestiram. Em resumo: temos vigorosamente feito tudo para atenuar o impacto da enxurrada chinesa. O problema não foi criado pela ITV portuguesa. O problema é político ? e só a política o pode resolver totalmente. ATP Moeda de troca As exportações de têxteis e vestuário chinesas para a Europa e Estados Unidos conheceram um exponencial aumento desde o início do corrente ano, aproveitando a liberalização global do comércio têxtil, de tal modo, que, a União Europeia se viu obrigada a impor um acordo de re-introdução temporária de quotas em dez categorias de produtos, tendo em conta as graves perturbações de mercado daí resultantes, tal como recentemente também foi feito pelos EUA. Mas note-se que a competitividade das exportações têxteis chinesas não assenta apenas nos baixos custos produtivos, particularmente na mão-de-obra barata, mas essencialmente num vasto e variado conjunto de expedientes, evidenciado pela generalidade dos especialistas internacionais, que vão contra os mais elementares princípios do comércio livre, justo e recíproco, a que todos os países que integram a OMC devem escrupuloso respeito, incluindo a China. Assim, a Associação quer prevenir que, numa possível e futura negociação comercial, a ITV não seja penalizada e utilizada como “moeda de troca” em benefício de outros sectores e outros interesses, pois dela ainda dependem 200 mil postos de trabalho, altamente concentrados regionalmente. Até porque a ITV nacional está já no limiar da sua resistência. É igualmente indispensável que a China abra o seu mercado interno às empresas europeias, garantindo uma real reciprocidade de acesso e tratamento, única forma de transformar as oportunidades em negócios efectivos, aos quais as empresas nacionais também deverão ter igual possibilidade de participar. O que dizem as Empresas: Somelos Novos negócios Em relação a este tema que foi muito comentado ao longo de 2005, não podemos dizer que não sentimos os seus efeitos, mas é difícil de quantificar, pois a nossa oferta é baseada na qualidade do serviço e no valor acrescentado do produto, com inovação, design, e muita moda incorporada; não estamos portanto num segmento muito afectado por este fenómeno, mais baseado na competitividade via preço. Para nós o principal problema consistiu na coincidência do inicio da liberalização com o facto da perda de poder de compra na Europa, por uma incerteza que tomou conta dos consumidores, e que se reflectiu imediatamente no consumo dos produtos têxteis. Mas não tenho dúvidas que estes acontecimentos tiveram também um cariz estimulante. Estamos cada vez mais inseridos num negócio à escala mundial, onde a pressão é muita e se tem de estar vigilante 24 horas por dia e 365 dias por ano. Ao fim ao cabo a liberalização também obrigou as empresas a acelerarem os seus processos de decisão e a definirem mais rapidamente as suas estratégias, a aprofundarem o conhecimento dos novos mercados, e a saber iniciar parcerias com outras empresas e países, um handicap que pode ser resolvido agora, potenciado com o conhecimento adquirido ao longo do tempo neste sector, e que é muito. Sendo assim, ainda bem que a liberalização aconteceu. Sàcole Pior para as meias Pode haver alguma demagogia quando dizemos que as empresas nacionais se devem preparar em termos tecnológicos, devem ser mais competitivas e atribuir mais valor acrescentado ao produto, e depois acabamos por pedir medidas proteccionistas. Mas tendo havido algumas categorias de produtos protegidas, não podemos deixar de aclamar por alguma justiça, quando se sabe que o nosso segmento das meias foi dos mais prejudicados em termos do aumento exponencial das importações chinesas. Sabemos de fonte credível que não temos os países produtores do Sul todos aliados nesta matéria, pois os espanhóis ainda não definiram a sua posição e há um forte lobby italiano mais interessado em importar. Espero que a ATP consiga defender em Bruxelas os nossos interesses. Ana Sousa Escolha nacional A liberalização acabou por ser uma forma de ver os consumidores portugueses reagirem negativamente ao que é produzido no estrangeiro, muito pelo efeito de associação do que é chinês e não tem qualidade, preferindo agora mais convictamente o produto português. Throttleman Nada de novo Relativamente à liberalização, não sentimos ainda qualquer efeito. De facto, os fornecedores da China com que trabalhamos não alteraram quaisquer condições relativamente à mercadoria que nos fornecem. Isto pode dever-se à nossa pequena dimensão e ao facto de os produtos que compramos na China não serem os mais afectados pela questão das quotas. H&M Portugal Não sentimos Pode-se dizer que quasenão sentimos os efeitos da liberalização, uma vez que sempre comprámos noextremo oriente. LMA Perceber o mercado Alguns clientes das grandes quantidades passaram mais facilmente a abastecer-se na China, mas precisamente por isso é que estamos a ir a este país, para não os perder, e para perceber o que eles precisam agora. Não é apenas uma questão de preço, porque o nosso segmento, não sendo mão-de-obra intensivo, não baseia a sua competitividade neste factor produtivo, mas qual é o artigo técnico que o mercado quer.