Laranjinha cresce no Retalho

Num percurso sólido de pequenos e seguros passos, a Laranjinha conta já com 25 anos de um crescimento sustentado, marcado desde o início pela aposta na marca própria, a que posteriormente acrescentou a internacionalização, e agora o retalho. O Jornal Têxtil falou com Luis Hall Figueiredo, administrador da Hall e Cª, detentora da marca, que nos relata também como avalia um sector com futuro, e porque considera reabrir a sua confecção. Jornal Têxtil (JT) – O JT encontrou a Laranjinha em Fevereiro na Dinamarca; há uma grande aposta da empresa na internacionalização? Luis Hall Figueiredo (LHF) – Sim, começámos a internacionalizar há dez anos, e coincidiu com o início de uma nova fase da marca. Quando começámos a nossa actividade (com 8 pessoas), precisamente há 25 anos, com base na experiência de uma outra empresa familiar, a colecção começou por se basear em tons discretos e na simplicidade e conforto dos modelos. Há 10 anos achámos que depois de um percurso marcado desde o início pela importância dada à marca própria – embora também com a componente de private label-, e depois da taxa de crescimento potencial no mercado nacional começar a estabilizar, tínhamos que internacionalizar a marca. Independentemente de ainda hoje a colecção se caracterizar por ter detalhes subtis e pela discrição das cores – a que designamos de clássico actual clean –, houve uma maior aposta na criatividade e no design para fortalecer os nossos artigos e prepará-los para este passo. Houve também uma especialização, passando da amplitude da idade até aos 16 anos, para 12 numa primeira fase, e mais recentemente até aos seis anos. E marcámos o posicionamento da marca no segmento médio-alto. Os resultados desta estratégia têm provado que decidimos acertadamente. JT – Quais têm sido os países contemplados? LHF- Começámos por apostar em Espanha, o nosso segundo mercado natural pela afinidade e proximidade, seguido pelo mercado italiano, pelo Reino Unido e pelos EUA. Depois destes prioritários sucederam-se os países da Escandinávia, a Austrália e agora a China, mas estes dois por via das circunstâncias… JT – Circunstâncias com resultados interessantes? LHF – Sim, este último em particular. Numa feira em Espanha apareceu um cliente chinês, que viu a colecção no primeiro dia e nem falou connosco, e no último dia passou por lá e disse que trabalhava com algumas conhecidas marcas internacionais e que queria fazer negócio com a nossa marca. Começou por encomendar timidamente para duas das suas 24 lojas, e na última estação disse que a nossa marca era a única que ainda não tinha tido qualquer reclamação, e que ia começar a aumentar agora as encomendas. Passou então a apresentar-nos em seis lojas, e depois em doze. Creio que é um cliente que nos pode revelar futuramente boas surpresas. JT – Falámos com um empresário recentemente que nos disse que não é tão fácil de entrar em Espanha quanto se pensa, pelo entrave do nacionalismo deles… LHF – Acho que já foi pior, eles agora estão mais abertos aos produtos estrangeiros. JT – E os resultados nesses quatro mercados prioritários foram bons? LHF – Em Espanha tem corrido muito bem – aumentámos as vendas 30% em 2005, e neste momento representa quase 50% do nosso volume de vendas -, também porque encontrámos um bom agente. O sucesso num determinado mercado está directamente relacionado com a qualidade do agente, que conhece o terreno melhor do que nós, e que gere a sua estratégia com alguma autonomia. Já nos EUA trabalhámos com um agente sem experiência e os negócios não correram como esperado, assim como em Itália a colaboração com o agente tem de ser reequacionada. O Reino Unido tem bons indicadores económicos, tem uma grande afinidade com os artigos portugueses – ao contrário de outros mercados -, e com persistência e paciência creio que nos vai proporcionar bons negócios. JT – Têm sido vantajosas as iniciativas de internacionalização das Associações? LHF – Sim, cremos que têm feito um grande esforço, muito meritório, e convidando as empresas a custos muito reduzidos. Os resultados estiveram um pouco aquém do esperado na CIFF (na Dinamarca, em Fevereiro) mas precisamos de nos recordar que é difícil de acertar com um mercado inicialmente. Observe-se o trabalho da Anivec/Apiv em Espanha, que tem sido muito bom. Mas temos de analisar posteriormente o modelo em que nos interessa ir para cada mercado. O mercado escandinavo interessa-nos muito – já estávamos até na Finlândia –, pelo potencial que as economias sólidas contêm, mas numa futura deslocação talvez não nos compense uma apresentação colectiva como desta vez. JT – Quais são os planos para um futuro próximo? LHF – Queremos precisamente implantar-nos mais nos mercados do norte da Europa e reactivar as vendas nos EUA. Pretendemos ainda apostar no retalho e talvez até aumentar uma parte da nossa pequena confecção. JT – Pode explicar-nos melhor esta última? LHF – Está a passar-se um fenómeno curioso no país. Precisamos de subcontratar neste momento a componente de confecção e só com muita dificuldade é que estamos a conseguir. Parece-nos que os grandes grupos espanhóis, nomeadamente a Zara, têm encomendas colocadas em grande parte dos médios confeccionadores da região norte do país, deixando apenas livres quem poderíamos chamar de pequenos e micro-confeccionadores – estes com pouco mais de 5 pessoas –, e que não nos conseguem prestar o serviço que pretendemos. As fases de acabamento e embalagem sempre foram realizadas aqui, mas parte da confecção deixa-nos dependentes de um serviço externo que neste momento está com muita dificuldade na capacidade de resposta. JT – O que de certa forma confirma o futuro da nossa confecção de qualidade pelo menos por alguns anos… LHF – Sim, eu creio que a ITV tem futuro em Portugal, dada a nossa qualidade de produto e do serviço, e em particular na confecção, na qual podemos ser um bom fornecedor do mercado europeu. Sobretudo se considerarmos que assistimos actualmente a um aumento do custo dos transportes por via do aumento do preço dos combustíveis, e que torna os produtos chineses relativamente mais caros de colocar em Portugal. Acresce o facto da China começar a ficar com menos capacidade de reposta produtiva e dos preços da produção já não serem tão apelativos como inicialmente. E acredito que o futuro passe pela aposta no valor acrescentado e na criatividade e design do produto, e pela criação de marca própria e internacionalização. São passos muito dispendiosos, mas imprescindíveis e inevitáveis, e quanto mais depressa se fizerem melhor. Algumas marcas irão certamente ficar pelo caminho, mas é preciso percorrê-lo. JT – E essa estratégia de retalho em que é que vai consistir? LHF – Temos uma empresa que se responsabiliza só pela componente de retalho, igualmente administrada por mim, que tem o master franchising da Laranjinha. Gere a loja que temos no Norte Shopping, assim como os dois corners que vamos ter no El Corte Inglés de Vila Nova de Gaia agora em Maio, e no de Lisboa posteriormente. Em meados deste ano pretendemos ter igualmente uma loja no Cascais Shopping, e a partir de 2007 vamos ceder o franchising aos parceiros que apresentaram projectos mais interessantes. A Hall e Cª tem actualmente 50 pessoas, compra os tecidos sobretudo na Europa, e as malhas e fio sobretudo em Portugal, exporta 65% da sua produção, que em média é de 350 mil peças por ano, e apresentou um volume de negócios de 3,047 milhões de euros contra 2,75 milhões registados em 2004.