Jovens criadores: Uma espécie em vias de expansão?

Numerosos jovens diplomados das escolas de estilismo, obcecados pelas histórias de sucesso de Tom Ford ou John Galliano – precedidas todavia de muitos anos de dificuldades – lançam-se arrojadamente nesta intrépida aventura. No entanto, os anos de sofrimento e de comprometimento bem parecem fazer parte do CV de qualquer jovem criador. E o seu futuro depende principalmente da sua capacidade de auto financiamento. Entretanto, é frequentemente desprezado por industriais e compradores, rejeitado pelo seu banco e ignorado pelos média. Somente alguns entusiastas, convencidos de ter encontrado a pérola rara, o apoiam. Tempos difíceis Um dos fenómenos chave do sector é incontestavelmente a baixa do consumo de vestuário, pautado por uma transferência das despesas domésticas para os tempos de lazer, a tecnologia e o cuidado do corpo. Com efeito, os hábitos de consumo evoluíram e com eles a atitude do cliente: tendo adquirido uma verdadeira formação de comprador profissional, este revela-se mais exigente em termos de qualidade/preço e privilegia actualmente o conforto do vestuário e o bem-estar pessoal. A mulher actual renova menos hoje o seu guarda-roupa que no passado, o que explica em parte a queda do consumo de vestuário. Nos dias que correm, todos os estilos coabitam no armário de uma mulher, que mistura sabiamente os básicos intemporais com o vestuário “tendência” ou com os “best-sellers” das estações precedentes que, tal como a moda, são cíclicos, acabando por regressar mais dia ou menos dia. Deste modo, não é fácil ao jovem criador atrair o interesse dos investidores e de encontrar o “seu” público. No entanto, mesmo se o sector evolutivo da moda é apontado ao dedo pelos financeiros, ele continua a seduzir. Os jovens criadores suscitam uma admiração incontestável: os consultores, movidos por uma paixão sem limites, colocam-se ao serviço destes jovens talentos e não hesitam em ajudá-los a um preço razoável. Outros proclamam-se mecenas e organizam, com a participação de profissionais do sector, numerosos concursos, no final dos quais os jovens criadores podem obter algum dinheiro e certa notoriedade. Foi o caso de Pedro Pedro, vencedor do European Fashion Awards de 2003 (ver notícia PT), e de Felipe Oliveira Batista, que ganhou o primeiro prémio no Festival de Hyères de 2002 (ver notícia PT). Inclusive, foi com o dinheiro ganho nestes concursos que puderam encetar novos projectos. E, hoje, o primeiro está em plena ascensão na moda nacional, sendo uma presença habitual nos desfiles do Portugal Fashion, e o segundo já pisa firme nas passarelas internacionais, como a da Alta-Costura de Paris. Como ser bem sucedido? Uma formação sólida é, inegavelmente, a condição sine qua non para uma carreira de sucesso. Antes de enfiar o barrete de empresário, as gerações jovens devem colocar os seus sonhos de independência de lado e construir uma sólida experiência durante anos a fio numa ou em várias casas de moda, a fim de se confrontarem devidamente com a complexidade da profissão. A criação deve, todavia, permanecer a principal preocupação, mas seria arriscado ignorar toda a gestão que o criador deve dominar: negociações de preços e de prazos de entrega com os fornecedores, resolução dos problemas de qualidade, etc. Agarrando-se à realidade, estas experiências permitem-lhe igualmente tecer uma rede de bons contactos. O objectivo é, sempre, rodear-se de profissionais competentes. Mas o mais difícil ainda está para vir. É necessário construir o seu produto segundo os ditames do mercado e, ao mesmo tempo, com um forte estilo. Não se trata de decalcar a estratégia dos mastodontes do luxo que rivalizam em originalidade para oferecer aos boquiabertos espectadores um show que fará parte da história da criação. Os jovens criadores devem focalizar-se numa estratégia de venda e não de imagem, pois o foco é vender para gerar riqueza e perdurar a sua actividade. Ora para vender, devem estar especialmente atentos ao mercado. A imagem de uma mulher fantasiosa, reflexo da sua criatividade, deve dar lugar à lucidez e ao compromisso. O objectivo é criar um produto adaptado à clientela, que possa suscitar o seu desejo e responder às suas exigências. As vítimas da moda com ar extravagante não podem constituir um alvo certo e certeiro, os jovens criadores devem interiorizar que os clientes se vestem para se individualizarem num primeiro tempo, mas sobretudo para se integrarem num grupo social. O criador deve também estar atento às oportunidades do mercado e à renovação da silhueta através dos acessórios ou de pequenos detalhes da estação. Estes nichos são incontestavelmente geradores de volumes de negócios e inúmeros jovens criadores não hesitam em aproveitar a brecha: calçado, bijutaria, marroquinaria e lingerie são segmentos em desenvolvimento que não devem ser ignorados. A última etapa, e a mais importante, é a escolha da distribuição e o encontro com a clientela visada. Fazer falar de si e das suas criações é indispensável para impulsionar uma carreira. Mas como consegui-lo? Integrar a lista de clientes de uma gabinete de assessoria de comunicação? Alugar um show-room? Ser um assíduo participante dos desfiles de moda? A escolha é difícil, tanto mais que uma comunicação bem sucedida resulta de uma sinergia entre estes diferentes componentes e que o jovem criador, cuja preocupação maior é a boa gestão do seu património empresarial, deve refrear os seus ímpetos e tomar decisões racionais. Sangue novo na moda Era assim que o semanário Expresso deste último fim-de-semana intitulava uma sua peça sobre o percurso de 3 jovens esperanças da nossa moda que apesar dos seus verdes anos já saboreiam as primeiras vitórias. Em comum, apenas a formação na moda e a coragem de saltar as fronteiras necessárias para triunfar. Mas de resto, são 3 percursos diferentes, de 3 pessoas distintas que têm 3 estilos próprios. Ângela Fontes, de 21 anos, trabalha hoje em Istambul depois de vencer o concurso internacional Mittel Moda e foi a primeira portuguesa a participar como criadora na Semana de Moda de Roma no passado mês de Janeiro. Uma estreia auspiciosa que já lhe valeu o regresso em Junho. Rosário Cunha, de 26 anos, vive hoje em Londres, e acaba de lançar a sua marca de vestidos Rosagua nos meandros do sucesso após a passagem pela Semana de Moda de Londres, que lhe garantiu o passaporte para participar numa das maiores feiras de moda dos EUA. Daniela Pereira, 21 anos, estagia actualmente na Hugo Boss Industries, na Suíça, trabalhando lado a lado com os designers da conceituada marca alemã. Isto mostra que os ingredientes do sucesso não são todos iguais e, como sempre, uma pequena dose de experiência vale mais do que um longo discurso. Alguns vão cair nas graças dos profissionais da moda e dos caçadores de talentos e perdurar no tempo, enquanto que outros cairão em desgraça ao fim de escassas colecções. É difícil delinear um plano de acção único num sector que prima pela complexidade e onde o sucesso é aleatório. Mas não é aqui mesmo que reside a riqueza da moda: uma diversidade de percursos, uma pluralidade de personalidades às quais correspondem uma multiplicidade de estilos, cada vez mais originais e inovadores?