ITV prepara descarbonização

Promovido pelo CITEVE, a ATP e a ANIVEC, o RDC@ITV – Roteiro para a Descarbonização da Indústria Têxtil e do Vestuário pretende ajudar as empresas destes sectores a reduzir as suas emissões.

Luís Ramos [©CITEVE]

Na apresentação do projeto, que se insere no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e tem uma duração de dois anos, até março de 2025, Luís Ramos, técnico especialista de energia e ambiente no Departamento de Tecnologia e Engenharia do CITEVE, indicou que a indústria têxtil e vestuário (incluindo-se aqui também o calçado e o couro) é responsável por cerca de 9% das emissões diretas de gases com efeito de estufa. «Embora a indústria têxtil e de vestuário não tenha tantas emissões como outros sectores, como, por exemplo, o da química e da cerâmica, são números significativos», apontou. No entanto, ressalvou, «ao analisarmos historicamente as emissões, vemos que estes sectores já têm feito um caminho de descarbonização» e «temos tido uma curva descendente bastante significativa» nas emissões por cada milhão de euros de valor acrescentado bruto.

Salsa, Acatel, Riopele e Etfor são algumas das empresas que têm implementado iniciativas no sentido da descarbonização. No caso da Salsa, o primeiro passo foi calcular as emissões nos diversos âmbitos. «Só sabendo esses valores é que realmente vamos conseguir atuar», explicou Mafalda Paz, especialista em sustentabilidade, num painel dedicado às empresas. Iluminação com Leds e eletrificação da frota automóvel fazem parte das medidas, assim como a criação de um manual «para os nossos designers e compradores, que estão no início da criação da peça, de forma a que usem as melhores matérias-primas sustentáveis». Além disso, referiu Mafalda Paz, a marca conta ainda com o programa Infinity, de reparação de peças para os consumidores,

A alteração das fontes de energia, com a instalação de painéis solares, a aquisição de equipamentos mais eficientes, a monitorização através da digitalização e o desenvolvimento de processos de acabamento e tingimento mais ecológicos foram algumas das medidas implementadas pela Acatel para diminuir a sua pegada carbónica. «Há muita inovação por detrás da descarbonização», indicou Susana Serrano. A CEO da Acatel sublinhou igualmente que, tendo em conta os desafios dos últimos anos, é importante lembrar que «as empresas têm que ser economicamente sustentáveis para conseguir fazer este tipo de investimentos».

Mafalda Paz_Susana Serrano_José Teixeira_Bruno Correia [©CITEVE]
Na Riopele, a preocupação com a descarbonização e a sustentabilidade «faz parte da estratégia há vários anos», assegurou o CEO José Teixeira. «Em termos de eficiência, temos uma atenção muito grande, nesta fase da vida da Riopele, à eficiência térmica dos edifícios», acrescentou. «Temos também a eficiência dos equipamentos em si, a evolução tecnológica que tiveram e, tudo isto somado, resultará num consumo específico – o que gastamos para fazer um metro de tecido – e esse é um dos nossos focos. O segundo é as fontes energéticas que usamos para obter esse produto que vendemos», afirmou José Teixeira, dando conta da instalação de painéis fotovoltaicos para autoconsumo. «Temos uma unidade que está próxima de fazer uma década de existência, que contribui com 17% do consumo. Estamos a instalar uma segunda unidade que fará mais de 20% do consumo», especificou o CEO da empresa, que quer atingir a neutralidade carbónica até 2027 – atualmente 62% do consumo de energia é proveniente de fontes renováveis. A Riopele instalou ainda uma unidade de biomassa, que permitiu reduzir em 70% o consumo de gás natural.

Reconhecendo que as emissões de âmbito três (relacionadas com toda a cadeia produtiva) são difíceis de calcular, os avanços têm sido, ainda assim, evidentes. «No âmbito um e dois, em 2021, tínhamos uma pegada, auditada por uma empresa independente, de 9,6 quilogramas de carbono por quilograma de produto, em 2022, 7,2 e, este ano terminaremos com 4, por isso, a trajetória faz-nos acreditar que chegaremos a 2027 com 100 % das energias que utilizamos de fonte renovável e com uma neutralidade carbónica, no mínimo, no âmbito um e dois», resumiu.

Já na Etfor tem havido «o processo normal de transição energética», referiu o diretor-geral Bruno Correia, dando conta da instalação de painéis solares, que representam cerca de 35% da energia consumida na empresa. Na marca própria Play Up, a empresa criou um programa de recolha de peças usadas, que serão vendidas numa loja online de segunda-mão, e criou uma coleção em ciclo fechado, batizada Close the Loop, cuja matéria-prima é proveniente da reciclagem dos seus próprios resíduos. «Não há dúvida nenhuma que o caminho é por aqui», sublinhou Bruno Correia.

Para ajudar as empresas a avançarem neste domínio, «o RDC@ITV pretende criar ferramentas e condições para ajudar as empresas a fazer o seu próprio caminho individual no sentido da redução das emissões de gases com efeito de estufa», referiu Luís Ramos. Para o projeto, que prevê a caracterização do sector e a elaboração dos principais cenários de evolução até 2050, são esperados, como resultados finais, «o roteiro para a descarbonização do sector como um todo, um conjunto de ferramentas de cálculo da pegada de carbono e dos roteiros individualizados para cada uma das empresas, ações de formação e capacitação e ações de sensibilização destinadas ao público em geral», resumiu Luís Ramos.

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