ITV nacional não quer meter água

Preocupada com o consumo e a gestão dos recursos hídricos, a indústria têxtil e vestuário tem realizado investimentos e procurado desenvolver tecnologias que não só gerem economias, mas também minimizem o impacto do sector ao nível da água.

A A. Sampaio está empenhada em diminuir a libertação de microplásticos das malhas que produz, incluindo na água. Atualmente, a empresa está a trabalhar com parceiros para validar o processo. «Encontrámos a norma de salas limpas, de salas cirúrgicas também, onde as fibras não se podem soltar porque é uma sala limpa, cirúrgica. Foi por aí que testámos as nossas malhas, usámos equipamentos que fazem movimento repetido, equipamentos que aspiram e contam o tamanho das partículas. As malhas que fizemos estão mais ou menos a 50% do limite de uma sala cirúrgica, ou seja, cumpriram perfeitamente os requisitos», explica o administrador João Mendes, que acredita que «vai haver brevemente uma norma europeia para as fibras libertadas na água».

João Mendes

Nesse âmbito, «estamos atentos ao que se está a passar e estamos a validar os nossos materiais. Temos um método que achamos adequado para medir isso no uso. Na água, será em repouso, com agitação, com detergente? Há várias organizações a trabalhar nisso e umas testam de uma maneira, outras de outra. Estamos a ver como será uniformizado», revela João Mendes ao Jornal Têxtil.

Já a Ecofoot, liderada por Jaime Rocha Gomes, desenvolveu a tecnologia H2Color-Aux, que consiste num composto que funciona através da libertação de produtos altamente aniónicos durante a lavagem feita durante os processos de tingimento. Esta tecnologia pode ser aplicada em fibras celulósicas, com qualquer corante reativo e com maquinaria convencional, não tendo efeito no tingimento nem na cor final, segundo a empresa. «O processo de tingir fibras de algodão com corantes reativos é um processo moroso, com elevado consumo de água, energia e tempo.

Geralmente, a maior parte do consumo ocorre durante a fase de pós-lavagem (enxaguamento), necessária para extrair o corante hidrolisado que não se fixa à fibra na fase de tingimento», indica a Ecofoot no seu website. A H2Color-Aux «tem afinidade pelos corantes e liga-se ao corante reativo hidrolisado», refere a empresa, acrescentando que «as partículas estão desenhadas para se dissolverem a temperaturas superiores a 50 ºC e com um pH alto (ambiente alcalino), um processo que começa na primeira fase da lavagem. O polímero decompõe-se e liberta produtos altamente aniónicos, levando à formação de uma camada entre o corante e a fibra. Esta camada repele o corante hidrolisado e promove uma remoção simples e eficaz desde a primeira fase da lavagem do corante hidrolisado».

A aplicação desta tecnologia permite reduzir em 70% o consumo de água, em 60% a energia e implica metade do tempo, uma vez que em vez das 8 a 10 lavagens para tonalidades médias a escuras, a temperaturas de 100 ºC, é possível remover o excesso de corante em apenas 4 a 6 lavagens a uma temperatura de 60 ºC.

Na Tintex, o tingimento Colorau, desenvolvido com base em extratos vegetais em substituição de corantes sintéticos, evita a utilização de químicos auxiliares e a repetição de enxaguamentos, o que proporciona, segundo a empresa, uma poupança de 60% na água consumida em comparação com os tingimentos convencionais. Neste campo da redução do consumo de água, a Tintex oferece ainda acabamentos antibacterianos e de neutralização de odor que reduzem a necessidade de lavagens frequentes pelo consumidor final. «Uma sociedade que é cada vez mais movimentada, mais apressada, tem que um guarda-roupa diversificado, com peças que duram e que não têm de ser lavadas frequentemente, Este tipo de acabamento traz mais valor e é mais funcional e prático», afirma o administrador Pedro Silva.

Pedro, Mário Jorge e Ricardo Silva

Além das novas tecnologias que tem adotado, que possibilitam «uma das mais baixas relações de banho da indústria», como descreve no seu website, apontando para um consumo de 120 litros por quilo, a Tintex está ainda a desenvolver «uma solução integrada, reciclando a água residual tratada e direcionando-a de volta à etapa de tingimento. 50% desta será reciclada dentro do próximo ano [2022] e cerca de 90% nos 3-4 anos seguintes.  Desta forma, menos água é coletada de lençóis freáticos e mais controlo é mantido sobre a qualidade da água de entrada», revela a empresa. Uma meta que prossegue a estratégia da Tintex, que esteve envolvida na iniciativa Blue Lab com a ONG Drip by Drip, juntamente com a Tearfil, na produção de uma coleção-cápsula de malhas com fibras de liocel, modal, cânhamo e elastano, que permitiu uma poupança de água de até 90% face à produção usando algodão.

«O conceito é a redução de água na indústria têxtil para ajudar aqueles que precisam mais de água no resto do mundo», esclareceu, na altura, Ricardo Silva, administrador da Tintex, acrescentando que o projeto está alinhado «na nossa estratégia no caminho da sustentabilidade», desde «a rastreabilidade, ao tipo de fibras e processos que usamos».

A produtora de tecidos Riopele tem igualmente vindo a reforçar os investimentos no reaproveitamento da água, tendo já a capacidade de reciclar 55% da água usada para a reintroduzir no circuito, o mesmo acontecendo com a Mundotêxtil, que, além da aquisição de jets com relações de banho mais curtas, tem implementado um sistema de captação de água no telhado que permite, nos meses mais chuvosos, alimentar diretamente os processos da empresa em mais de um terço do seu consumo total.

Ana Vaz Pinheiro

A empresa de têxteis-lar tem ainda uma ETAR, que durante o verão esteve de portas abertas à comunidade para mostrar o trabalho realizado no tratamento das águas residuais, onde diariamente chegam mais de 2.000 m3 de água por dia, que são tratados através de processos exclusivamente biológicos. «É um processo muito técnico, que tem imensas especificidades, e de um controlo e de um rigor alucinante», garantiu a administradora Ana Vaz Pinheiro.

A estratégia da Mundotêxtil, de resto, assenta na sustentabilidade social e ambiental, onde se inclui a água. «O nosso caminho é continuarmos a modernizar o parque de máquinas que temos, capacitar as pessoas que temos aqui dentro, investir nelas, em formação, e manter sempre o nosso foco, que é continuar a produzir melhor. Não precisamos de mais, mas de melhor e com inovação e responsabilidade, com respeito pelos recursos, que são das coisas mais importantes. Tentamos sempre inovar e melhorar o processo produtivo de maneira a que nossa produção seja cada vez mais sustentável», explicou Ana Vaz Pinheiro.