«Eles têm melhorado muito», afirma Sheyla Molina, analista regional da consultora S&M. «Há uns anos atrás, eles apenas confecionavam. Hoje, 30% a 40% da indústria engloba todos os serviços», explica. Molina esteve presente na vigésima-quarta Mostra Anual de Vestuário, que teve lugar na Cidade da Guatemala no mês de maio, reunindo cerca de 4.000 atores de 17 países.
No evento marcaram presença mais de 180 expositores e uma ampla delegação colombiana e indiana. Karin de Leon, consultora têxtil da organização Invest in Guatemala, revelou que «temos acrescentado muito valor aos tops de malha, calças sintéticas e de tecido e ao vestuário desportivo». Leon destacou ainda que o país produz os tops mais elegantes da América Central, onde os seis países (Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana) que constituem o Tratado de Livre Comércio entre os EUA, América Central e República Dominicana (DR¬CAFTA na sigla original) procuram reunir contratos com o aliado americano de forma independente, abandonando os esforços de integração anteriormente valorizados. «Não somos como as Honduras, que se foca em t-shirts básicas. Aqui fazemos moda, acabamentos especiais com serigrafia e estampados diversos», acrescentou Leon. As unidades de produção têxtil da Guatemala estão a vender mais do que têm capacidade para fabricar, impulsionadas pela procura crescente resultante do fortalecimento do comércio com os EUA e da preferência por um aprovisionamento mais próximo, beneficiado simultaneamente pelo aumento de preços do mercado asiático.
Os contratos de fornecimento aumentarão 20% este ano, face a um ganho de 12% assinalado em 2014, prevê Karin de Leon. O sector crescerá exponencialmente, conduzindo a um aumento de 6% das exportações para 1,6 mil milhões de dólares este ano, superando o ganho de 2% obtido em 2014. Renata Morales, representante da Vestex, a principal associação têxtil e de vestuário da Guatemala, indicou que a Ralph Lauren e a Tommy Hilfiger irão aumentar significativamente a sua produção no país, enquanto a Wal-Mart, Kohls, Target e Old Navy vão manter ou aumentar ligeiramente a sua produção. Leon explicou que os tempos de resposta melhoraram também significativamente, sendo 30% mais rápidos face a outros países da América Central. «Tivemos de compensar os custos de trabalho e de produção mais elevados com tempos de atravessamento mais rápidos», acrescentou.
O governo de Otto Perez Molina continua a fomentar o investimento, reduzindo os custos de energia em 30% e introduzindo salários mais baixos em cidades secundárias. Simultaneamente, quer manter os benefícios fiscais da zona económica livre do país, que expira a 31 de dezembro, integrada nos requisitos de eliminação progressiva impostos pela Organização Mundial do Comércio. A administração procura aprovar uma nova lei, denominada Lei do Investimento e do Emprego, que permitirá a manutenção desses benefícios. Porém, Leon advertiu que os atuais tumultos políticos poderão colocar a decisão nas mãos da próxima legislatura. «Esperamos que seja aprovada», afirmou. «Arriscamos perder investimento para outros países da América Central mas os partidos entendem isso. A indústria emprega 45.000 pessoas diretamente e 100.000 indiretamente. É o principal sector de exportação da Guatemala, superando o do açúcar e do café», explicou.
Limitações de matéria-prima
Contudo, a Guatemala enfrenta um importante desafio, que obrigará a um significativo investimento. Construir a sua própria capacidade de produção de fio será essencial para que mais rapidamente possa produzir o vestuário requerido por marcas de fast-fashion americanas. «A Guatemala tem um espetacular nível de competências», considera Molina. «Os trabalhadores fabris têm mãos pequenas. Conseguem fazer produtos de manufatura muito bonitos que podem facilmente competir com a Índia». Mas «temos falta de matérias-primas», ressalvou. Molina apontou, também, que a Guatemala enfrenta particular concorrência por parte das Honduras, o maior fornecedor latino-americano para os EUA, que se tem concentrado na produção de peças básicas mas que rapidamente tem ampliado a sua cadeia de valor. «As Honduras são muito empreendedoras. Os executivos são formados nos EUSA e são muito eficientes», indica.
A maioria dos tecidos sintéticos da Guatemala essenciais ao crescimento do sector de vestuário desportivo são atualmente importados da América Central, em particular da Colômbia. Jaime Rojas, diretor regional do fornecedor de tecidos colombiano Lafayette Sports, revelou que as firmas guatemaltecas procuram, cada vez mais, tecidos de qualidade superior. «Querem malhas mais especializadas e tecnologicamente superiores porque os seus clientes nos EUA querem melhores produtos. Pretendem qualidade mesmo que custe mais», esclareceu. As empresas americanas estão cada vez mais interessadas nas oportunidades de fornecimento oferecidas pela Guatemala e por outros países da América Central, já que a reposição de inventário demora entre uma a duas semanas, por oposição aos dois meses necessários no mercado asiático. Porém, será necessário um investimento adicional que permita ampliar a base de feedback e reduzir a dependência das importações.
Integração e automatização precisam-se
A integração regional é, também, prioritária num momento em que outros produtores têxteis, como El Salvador, Nicarágua e Honduras estão ainda amplamente desconectados. «É muito triste ver a Mostra de Vestuário a autopromover-se como a única feira regional da América Central quando esses países praticamente não estão a trabalhar juntos», lamenta o diretor de aprovisionamento de uma importante marca americana. Simultaneamente, a Guatemala e a América Central devem reforçar a sua tecnologia de fabricação, numa altura em que apenas 10% a 20% da produção é automatizada. Não existem mais de 35 máquinas de corte em 22 empresas em toda a América Central, em comparação com as cerca de 500 presentes no México. As empresas da América Central têm, até ao momento, sido lentas no reconhecimento dos benefícios resultantes do investimento em tecnologia e software de gestão de inventário, mas alguns entrevistados afirmaram que a crescente ameaça competitiva imposta pela Parceria Transpacífica (TPP na sigla original) especialmente pelo rival Vietname poderá incentivá-los a investir em novos meios tecnológicos.










