ITV do Peru sob pressão

A somar ao aumento robusto das importações, legais e ilegais, provenientes da China, a indústria têxtil e vestuário do Peru está a braços com a instabilidade política e um programa de apoio governamental proibitivo para a maior parte das pequenas e médias empresas do sector.

[©ADEX]

A indústria de vestuário peruana está a criticar os programas de ajuda governamental que deveriam auxiliar as empresas a recuperar da pandemia de Covid-19, afirmando que fizeram pouco pelo sector.

Carlos Penny, presidente do comité têxtil da ADEX – Asociación de Exportadores está particularmente descontente com o Reactiva Peru e o fundo nacional de apoio aos negócios.

O problema, indica ao just-style.com, é que milhares de pequenas e médias empresas (PMEs) não se qualificam para os empréstimos, porque os candidatos não podem ter dívidas comerciais, têm de ter pago quaisquer outros empréstimos ou subsídios governamentais e têm de ter crédito junto da banca.

O sistema de candidatura é também complexo para as PMEs e os empréstimos têm demorado pelo menos dois meses a serem pagos. E mesmo quando são concedidos, as taxas de juro cobradas são superiores às que a maior parte das empresas têxteis e de vestuário pode pagar.

Tendo em conta que há cerca de 15 mil PMEs na indústria peruana, que formalmente empregam 150 mil pessoas, estes desafios são um problema sério. Contudo, destaca Carlos Penny, a maior parte dos trabalhadores está empregada informalmente e, por isso, mais vulnerável a suspensões do trabalho.

O presidente do comité têxtil da ADEX não tem muita esperança numa reforma, tendo em conta instabilidade política que o Peru atualmente enfrenta. A 10 de novembro, o novo presidente Manuel Merino tomou posse depois do seu antecessor – o ativista anticorrupção Martín Vizcarra – ter sido despedido pelo congresso do país. Enormes protestos nas ruas levaram ao pedido de demissão de Merino apenas uns dias depois, a 15 de novembro.

[©ADEX]
«Os subsídios não ajudaram e a instabilidade política que enfrentamos no momento não vai permitir mais políticas governamentais a curto prazo», explica Penny, acrescentando que diferentes associações ligadas à indústria têxtil e vestuário (ITV) estão a trabalhar em conjunto para promover uma mudança nas taxas de exportação de têxteis, gerando liquidez imediata, mas a proposta está ainda a ser analisada pelo governo.

Produção em queda

Entretanto, as empresas que não conseguiram adaptar-se para fabricar máscaras e outros equipamentos de proteção individual estão a enfrentar inúmeras dificuldades.

O Ministério da Produção revelou que, em setembro, a produção da indústria de vestuário caiu 33,9% em comparação com o mesmo mês do ano passado. A produção de polos baixou 26,7%, por exemplo. A fiação de fibras têxteis diminuiu 5,3%, a produção de fio de algodão desceu 12,4% e a de outros fios 14,2%.

O Covid-19 afetou uma ITV que estava já em dificuldade, devido à importação legal e ilegal de vestuário proveniente da China, impulsionada pelo acordo de comércio livre entre o Peru e a China assinado em 2009 e atualmente a ser revisto.

Só entre janeiro e março, entraram no Peru artigos de vestuário num valor superior a 268,9 milhões de dólares (cerca de 220,6 milhões de euros) provenientes da China, mais 53% do que em igual período de 2019, de acordo com os dados do Banco Central do Peru.

Para Carlos Penny, a única forma de responder a este desafio é se o governo impuser taxas anti-dumping ou medidas temporárias de salvaguarda para evitar a importação de bens a preços reduzidos para ajudar os produtores peruanos a lidar com o aumento nas importações.

Isto poderia dar uma bolha de oxigénio ao governo e à indústria para formalizar o sector, encorajando a incorporação, incluindo mais direitos para o emprego formal. «Dessa forma, poderíamos criar melhores oportunidades de emprego ao mesmo tempo que reduzimos a “concorrência injusta” de vestuário chinês legal ou contrabandeado», aponta o presidente do comité têxtil da ADEX.

Procura local

A Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) referiu que reforçar a procura local para os artigos “made in Peru”, incluindo vestuário e têxteis, e impulsionar o mercado interno é crítico para a recuperação do país.

Além disso, as novas tecnologias podem ajudar os produtores peruanos a ter uma vantagem – e o Covid-19 está certamente a forçá-los a analisar os ganhos de eficiência com base na tecnologia.

A empresa de têxteis e acabamentos Incalpaca, por exemplo, tem estado a desenvolver a estamparia digital em fibras de alpaca. Isso irá permitir-lhe acrescentar valor através de designs propostos por artistas locais, promovendo composições originais em tecidos sustentáveis ambientalmente.

[©Peru Trade]
O Peru, de resto, é uma potência na produção de fibras de alpaca, exportando 80% da produção de fios, têxteis e vestuário com alpaca, tendo como principais mercados os EUA e Itália.

Este sector está, no entanto, a enfrentar boicotes por parte de várias marcas e retalhistas, incluindo a Gap, a H&M, a Next, a New Look, a Matalan e a Marks & Spencer, que cortaram relações com a maior quinta e exportadora de alpaca após uma investigação da PETA.